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Márcia Oliveira

A insensatez das queimadas na Amazônia

11 de julho de 2018 Márcia Oliveira
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Na noite de sábado, dia 7 de julho, saí de casa para jantar com amigos na cidade de Rolim de Moura, Zona da Mata do Estado de Rondônia. Me assustei com os ‘arcos de fogo’ em diversas regiões da cidade. Incêndios se multiplicavam em cada lote baldio ameaçando avançar na direção das residências das cercanias. Algumas pessoas molhavam os muros dos quintais para evitar que as chamas saltassem para dentro de casa. Outras olhavam admiradas as chamas que clareavam a noite.

Ninguém sabia explicar o motivo dos incêndios nem quem os espalha pela cidade. Ao chegar à casa do casal de amigos sugeri que fosse acionado o corpo de bombeiros para conter o incêndio de grandes proporções do lado oposto da rua. Informaram que não adiantaria por causa do volume de incêndios em diversas partes da cidade. Mais tarde, percorri diversas ruas da cidade confirmando inúmeros incêndios e nenhuma presença do corpo de bombeiros, o que leva a crer que os moradores do município consideram a prática dos incêndios como algo “naturalizado” no pensamento popular e muitos ainda insistem nos seus benefícios ignorando por completo seus inúmeros prejuízos.

Algumas pessoas moradoras de bairros ou loteamentos recentes e ainda em processo de urbanização, consideram os incêndios como uma forma de “higienização dos terrenos baldios e uma forma rápida e econômica de exterminar insetos, roedores e cobras” que tendem a aumentar no período das chuvas. Desta forma, cessadas as chuvas, tão logo o capim comece a secar, os incêndios tornam-se corriqueiros em toda parte da cidade.

No dia seguinte, avancei pela BR 364 a caminho de Porto Velho. Nos 485 Km percorridos, registrei cerca de 30 incêndios às margens da rodovia. Alguns com chamas de grandes proporções ofereciam grave risco ao tráfego. A visibilidade em alguns trechos da 364 ficaram totalmente comprometidos pela fumaça.

O que se observa nessa região é que a persistência da prática das queimadas não se reduz apenas às áreas urbanas ou aos pequenos sítios que recorrem a essa técnica por ser mais econômica na lida com a agricultura ou na “renovação” da pastagem. O que se observa é que a técnica mais rudimentar aplicada a agricultura persiste na região como sinal de retrocesso ou completa ignorância com relação ao intenso debate em torno das urgências ambientais e ecológicas.

Os desiquilíbrios ambientais decorrentes das queimadas são imensuráveis. O fogo não mata apenas os “roedores, insetos e cobras” como defendem alguns moradores. Inúmeras espécies animais e vegetais são eliminadas com as queimadas. De acordo com o Portal Pensamento Verde (https://pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/consequencias-queimadas-brasil/), “as queimadas no Brasil são provocadas, principalmente, pelo setor agrícola, na limpeza de terreno, cultivo de plantações ou formação de pastos”. O portal informa ainda que “as cinzas deixadas pelas queimadas deixam o solo mais produtivo, porém esta situação não é permanente, após a incidência do fogo o solo volta ao estado normal e fica mais suscetível a erosões e pragas, por isso, as queimadas não possuem nenhum benefício para natureza e, quando perto de florestas podem destruir rapidamente quilômetros de áreas verdes que se tornam improdutivas e este é apenas um dos prejuízos que as queimadas causam ao meio ambiente”.

Outros prejuízos das queimadas, de acordo com o Portal Pensamento Verde são: “o aumento da liberação de dióxido de carbono, uma das principais causas do aquecimento global; destruição de habitats naturais; erosão no solo; aumento do buraco na camada de ozônio; perda da absorção do solo, aumentando os índices de inundações; poluição de nascentes, águas subterrâneas e rios por meio das cinzas; extinção de espécies (fauna e flora); destruição de infraestruturas”. Prejuízos mais que suficientes para banir essa prática criminosa e inconsequente e adotar outras formas de lidar com a natureza sem destruí-la.

O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos – CPTEC,  do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, em sua página de monitoramento de queimadas e incêndios por satélite em tempo quase-real aponta o Estado de Rondônia como a região com maior índice de queimadas nos últimos dias (http://sigma.cptec.inpe.br/queimadas/prevAmazon.php). E ainda estamos no início do período da estiagem que vai até outubro!

De acordo com o mapa do CPTEC a outra região mais afetada pelas queimadas nesta temporada é a região de fronteira do lado boliviano. Muitos fazendeiros latifundiários de Rondônia ampliaram suas terras para além-fronteiras e estão transferindo para o país vizinho a mesma prática de destruição ambiental sem precedentes.

O Portal Pensamento Verde alerta que “é inegável que as queimadas no Brasil são nocivas para o meio ambiente em uma situação macro, em que todas as espécies de seres vivos são prejudicadas. Fazer com que estas práticas sejam minimizadas ainda é um desafio, visto que envolve a cultura agrícola que ainda é muito forte em alguns locais”. É preciso que este setor entenda que as queimadas não trazem benefícios para a agricultura, muito pelo contrário, como vimos, as queimadas geram diversos prejuízos ambientais.

Em tempos de experiências agroecológicas, de Bem-Viver, de apelos a Ecologia Integral mundialmente propagada pela Encíclica Laudato Sì do Papa Francisco (2015) e tantos outros movimentos de luta pelo respeito à terra e pela convivência e inter-relação com todas as formas de vida do planeta, persistir com as queimadas não é somente um crime ambiental. É uma declaração de completa insensatez e de falta de responsabilidade.


Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em Gênero, Identidade e Cidadania (Universidad de Huelva - Espanha); Cientista Social, Licenciada em Sociologia (UFAM); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazônia, desmatamento, Ibama, queimadas
Cleber Oliveira 11 de julho de 2018
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