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Dia a Dia

Genética determina como as crianças veem o mundo, diz estudo

12 de julho de 2017 Dia a Dia
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Bebês fixam o olhar direto em pessoas e objetos. Comportamento pode estar ligado à genética (Foto: Divulgação)
Bebês fixam o olhar direto em pessoas e objetos. Comportamento pode estar ligado à genética (Foto: Divulgação)

Do Estadão Conteúdo

SÃO PAULO – Um novo estudo revela que há um forte componente genético na maneira como crianças olham para o mundo – em especial na preferência em focar o olhar nos olhos, no rosto, ou em outros objetos durante a interação com outras pessoas.

De acordo com os autores da pesquisa, publicada nesta quarta-feira, 12, na revista Nature e realizada por cientistas de universidades dos Estados Unidos, os resultados do experimento fornecem novos elementos para compreender as causas do autismo.

Utilizando uma tecnologia desenvolvida para rastrear o olhar, o estudo mostrou que os movimentos feitos pelos olhos ao buscar informações no ambiente são fortemente dependentes de fatores genéticos em todas as crianças e anômalos em crianças autistas.

“Agora que sabemos que a orientação visual social é fortemente influenciada por fatores genéticos, temos um novo caminho para rastrear os efeitos diretos dos fatores genéticos no desenvolvimento social da primeira infância e de desenhar intervenções que garantam às crianças autistas que elas possam adquirir os estímulos ambientais sociais que elas precisam para crescerem e se desenvolverem normalmente”, disse o autor principal do estudo, John Constantino, da Universidade de Washington em St. Louis.

De acordo com Constantino, o experimento realizado pelos cientistas mostra um mecanismo específico pelo qual os genes podem modificar a experiência de vida de uma criança. “Duas crianças na mesma sala, por exemplo, podem ter experiências sociais completamente diferentes se uma delas tem uma tendência hereditária a focar em objetos, enquanto outra olha para os rostos. Essas diferenças podem se reproduzir repetidamente à medida que o cérebro se desenvolve no início da infância”, explicou Constantino.

No experimento, os cientistas avaliaram 338 crianças com idades de 18 a 24 meses, utilizando uma tecnologia de rastreamento do olhar que identificou precisamente os pontos nos quais os olhos se fixam – e por quanto tempo -, enquanto as crianças assistiam a vídeos que mostravam pessoas falando e interagindo com elas.

Fizeram parte do estudo 41 pares de gêmeos idênticos, 42 pares de gêmeos fraternos – que compartilham apenas 50% do DNA -, 84 crianças sem parentesco entre elas e 88 crianças diagnosticadas com autismo. Cada gêmeo foi testado independentemente, em momentos diferentes, sem a presença do irmão.

O experimento mostrou que o tempo gasto por cada gêmeo – idêntico ou fraterno – olhando para o rosto de outra pessoa foi praticamente idêntico ao tempo gasto pelo irmão. Mas os gêmeos idênticos movimentaram os olhos de forma praticamente igual à dos irmãos – mudando de foco ao mesmo tempo e nas mesmas direções. Enquanto isso, entre os gêmeos fraternos, só 10% dos movimentos coincidiam, o que comprova o forte componente genético na maneira como as crianças olham o mundo.

Em estudos anteriores, os cientistas já haviam mostrado que, nas crianças autistas, o olhar para objetos prevalece em relação ao olhar para rostos ou olhos. Segundo os autores, o novo estudo estabelece uma conexão direta entre os sintomas comportamentais do autismo e os fatores genéticos, o que pode ser um passo importante para desenvolver tratamentos.

“A coincidência a cada momento na duração e na direção das mudanças de olhar entre os gêmeos idênticos foi impressionante. Eles praticamente espelhavam o comportamento do irmão, com variações de 17 milissegundos. Isso comprovou que há um nível muito preciso de controle genético”, disse Constantino. “Passamos anos estudando a transmissão hereditária de suscetibilidade ao autismo nas famílias e agora parece que, rastreando os movimentos do olhar na infância, podemos identificar um fator chave ligado ao risco genético para o autismo, que já está presente muito antes do momento em que poderíamos fazer um diagnóstico clínico do problema”.

Os efeitos também persistiram à medida que as crianças cresciam. Quando os gêmeos foram testados novamente um ano depois, os mesmos fenômenos foram encontrados: gêmeos idênticos continuaram a olhar para os mesmos lugares com uma coincidência quase perfeita, enquanto os gêmeos fraternos passaram a olhar para pontos ainda mais diversos do que na primeira avaliação.

De acordo com Constantino, o autismo afeta uma a cada 68 crianças nascidas nos Estados Unidos e sabe-se que é causado por fatores genéticos. Em um estudo anterior, cientistas da Universidade Emory (Estados Unidos) mostraram que bebês entre 2 e 6 meses de idade que olham cada vez menos nos olhos das pessoas têm alto risco de autismo.

Constantino e seu grupo, enquanto isso, têm estudado comportamentos sutis que caracterizam o autismo nos parentes próximos de indivíduos com o problema, a fim de identificar suscetibilidades hereditárias. “Estudos como esse abrem novos caminhos para entender o autismo. Estabelecer uma conexão direta entre sintomas comportamentais e fatores genéticos é um passo crucial para desenvolver novos tratamentos”, disse Lisa Gilotty, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, que foi um dos patrocinadores do novo estudo.

Os novos tratamentos poderiam incluir intervenções que motivem crianças muito jovens para focar seus olhares mais em rostos que em objetos, de acordo com outro dos autores da nova pesquisa, Warren Jones, da Universidade Emory. “Testar crianças para ver como elas estão orientando sua atenção visual representa uma nova oportunidade para avaliar os efeitos de intervenções precoces com foco específico na alienação social como um caminho para evitar as incapacitações mais graves associadas ao autismo”, afirmou Jones. “Essas intervenções podem ser apropriadas para crianças que mostrem sinais precoces de risco, ou para as que nasceram em famílias nas quais o autismo afetou parentes próximos. Além disso, outra prioridade é entender por que algumas crianças que tendem a não olhar nos olhos e rostos desenvolvem incapacidades sociais”.

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Assuntos Autismo, crianças, Universidade de Washington
Cleber Oliveira 12 de julho de 2017
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