Brasil, o berço esplêndido da bioeconomia

Seguiremos deitados no berço esplêndido da bioeconomia? Os ingleses, longe de serem amaldiçoados pelo sequestro das sementes da seringueira – a lendária árvore da fortuna, a hevea brasilienses –  deveriam receber nossos aplausos pelo pioneirismo da industrialização inteligente da biodiversidade: as luvas hipodérmicas que ajudaram o mundo a ser mais asséptico e os pneus que ajudaram a economia a andar mais rápido, são dois entre milhares de produtos da borracha. Sabe quantos inventados no Brasil? Zero. E a seringueira é uma das milhares de plantas com benefícios surpreendentes na Amazônia.

Os ingleses levaram as sementes  para os laboratórios de Kew Gardens, um magnífico parque no oeste londrino, antes de cultivarem extensivamente nos seringais asiáticos. Ali, mais de 100 mil espécies amazônicas, levadas pelos Viajantes da Coroa, seguem – discretamente – nos laboratórios de bio-nano-info-tecnologia – alimentando a bioindústria de Sua Majestade. Fizeram o simples: a mimese, ou seja, imitação da natureza que multiplica ativos econômicos de saúde, juventude, nutrição orgânica, de acordo com a demanda ambiental e do mercado. Imitar ou refinar a dinâmica reprodutiva natural é o mais antigo e rentável caminho dos bons bionegócios.

Dois eventos marcaram este final de novembro – na pauliceia mais do que nunca desvairada – a procura ansiosa da academia, economia e poder público por entender os estragos que a recessão espalha em todas as direções. Um deles, na USP, sobre o Futuro do Trabalho e o outro sobre Desenvolvimento com Economia de Baixo Carbono, no Insper/Instituto Escolhas, por caminhos diversos e razões das mais distintas, desembarcaram na Amazônia.

É curiosa a forma com que esta região é tratada na narrativa de todos esses atores. É como se a geografia do Brasil ainda parasse em Minas Gerais e, dali para frente – e esta é uma boa notícia – não dá mais para ficar na desculpa da ignorância. Todo mundo já descobriu, há muito tempo, que chegou a hora de entender/decifrar/degustar/precificar o resto do território nacional e continental florestal, a Amazônia.

Na procura de achar caminhos ninguém se constrange em reconhecer e validar o agronegócio do Brasil central – o amparo messiânico da balança comercial brasileira. Dizer que essa façanha global é “culpada” por 70% das emissões de carbono nada acrescenta sem contextualizar os benéficos fatos. Emite, mas compensa e gera riqueza pra criar soluções compensatórias, como tem feito a Coalizão Brasil Clima, Floresta, Agricultura. Uma delas é apostar nos bioprodutos florestais amazônicos com baixa emissão de carbono.

O CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia), que começa a funcionar depois de 13 anos sem CNPJ, ou seja, definição do modelo de gestão, formalizou um Termo de Cooperação InMetro/Suframa com a Fazenda Agropecuária Aruanã, no Amazonas. Um projeto de pecuária dos anos 70 que trocou pasto por plantio de espécies com alto valor agregado. Recompôs a floresta com produção de castanhas (selênio para Alzheimer, diabetes e obesidades), pupunha (palmito e fruto) e copaíba (Unicamp desenvolveu 10 alternativas de tratamento para câncer, além de infecções e viroses).

Com descobertas recentes, o Termo de Cooperação já apontou, nos resíduos da Fazenda, as biomoléculas que a indústria farmacêutica e cosmética tanto procuram. Sem derrubar a floresta, com replantio de árvores e geração de atividade econômica de baixo carbono, exatamente como o país prometeu e assinou no Acordo do Clima. Tudo como a Fapesp, agência de pesquisa paulista, recomenda, e os dois eventos de novembro encaminharam.

Em Cancun, a ONU reconheceu a biodiversidade como um ativo econômico vital, na discussão do clima, e já havia dito que a mandioca, o base alimentar da civilização amazônica, é o alimento do século XXI. Eis, pois, razões inadiáveis para começar a investir na região os recursos de pesquisa e desenvolvimento, gerados pelas indústrias da Zona Franca de Manaus – algo superior R$ 6 bilhões, nos últimos 10 anos, equivalente ao  PIB de vários países do Continente. Isso permitiria desenvolver na floresta uma bioeconomia tão  pujante como o agronegócio, segundo Carlos Nobre, cientista do INPE e da AAC (Academia Americana de Ciências), com a vantagem de reduzir drasticamente as emissões como o Brasil precisa e o clima agradece.

Alfredo Lopes é filósofo e ensaísta, e consultor do CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas. Contato: alfredo.lopes@uol.com.br

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