A arte existe porque a vida não basta

Não podemos compreender a arte de hoje sem conhecer a história da arte e a história da sociedade. É impossível compreender o que aconteceu sem esse conhecimento. Existe uma relação entre o processo histórico e o processo artístico e cultural. Mas a relação do artístico e do cultural com o econômico que é a base, o processo fundamental da sociedade é uma relação distante.

O filósofo holandês Baruch de Spinoza tinha uma definição de amor que eu gosto muito, a minha preferida, em toda a filosofia. Para Spinoza, temos uma potência, uma energia vital, que oscila durante todos os momentos do dia. Há coisas que aumentam nossa potência, nos tornam seres mais energéticos, gerando o que ele classificou como alegria. Quando sentimos alegria, ou seja, aumento de potência, e conhecemos a causa dessa alegria, nós sentimos amor. Então, para Spinoza, amor é o aumento de potência associado a uma causa.

O ódio é o contrário: queda de potência associada a uma causa conhecida. Então, se identifico algo que tem capacidade de reduzir minha potência de agir, de reduzir minha alegria, sinto ódio por essa coisa. É importante ficar claro que esses afetos citados por Spinoza não dependem da nossa vontade, não podem ser controlados pela nossa razão. O aumento e a diminuição da potência são manifestações de nosso corpo e não temos como evitar isso. No entanto, temos controle sobre as nossas ações, ou seja, sobre o que vamos fazer diante desses afetos todos.

Dessa maneira, a tolerância é justamente a capacidade que temos de lidar com o ódio, de aceitar a existência de pessoas/gostos/condutas que sabidamente reduzem nossa potência, que nos geram desconforto, que reduzem nossa alegria. Por isso, a tolerância é uma virtude moral.

É necessário que nós ativamente lidemos com o ódio, com o desagrado que condutas e gostos muito diferentes daqueles que nos geram alegria provocam em nós e que aceitemos com respeito a existência dessas condutas e gostos.

Obviamente, não seremos capazes de admirar pessoas que nos geram esse tipo de desconforto. Dessa forma, tenderemos a buscar a convivência mais próxima com aqueles com quem temos mais afinidade, ou seja, aqueles que têm gostos e condutas semelhantes aos nossos. Pensando nas oscilações de afeto, fica bem claro porque a convivência entre pessoas semelhantes é muito mais fácil e prazerosa do que a entre opostos, apesar da crença de que os opostos se atraem e se completam.

Se conviver com pessoas que possuem muitos hábitos e condutas que reduzem minha potência, a tendência é que eu perca mais potência do que ganhe nessa relação. Ao contrário, quando encontramos pessoas que se alegram com as mesmas coisas que a gente, a tendência é somarmos alegrias e nos tornarmos mais potentes. Relacionamentos baseados em diferenças exigem uma dose cavalar de tolerância.

No entanto, a vida em sociedade exige que a gente conviva com todo tipo de pessoas. Dessa forma, é extremamente necessário que se exercite a tolerância, que as pessoas consigam compreender que, apesar de determinados gostos e condutas baixarem sua potência, é preciso lidar com esse afeto negativo e respeitar a existência de pessoas que são diferentes de você, evitando ter comportamentos fundamentalistas.

Sempre que achamos que somente a nossa ideia é correta, que ela não permite interpretações, e que todos aqueles que discordam dela devem ser ou eliminados ou convertidos, estamos sendo fundamentalistas. O fundamentalismo e a intolerância andam de mãos dadas. É necessário tolerar a existência do diferente, lidar com o afeto negativo e respeitar, em nome de uma melhor convivência em sociedade.

Assim, fica claro que a convivência em sociedade não é tarefa fácil. Temos que estar sempre pensando, avaliando, ponderando, lidando com nossas oscilações de afeto. Também fica claro que a ética presume uma grande participação da razão, do pensamento crítico, da capacidade de fazer ponderações complexas, da capacidade de exercermos o nosso lado humano, ponderando nossos afetos para que a convivência não se torne uma guerra de todos contra todos, mas, ao mesmo tempo, sempre trabalhando em nome de defendermos dentro dessa convivência as nossas bandeiras, os nossos valores, as nossas verdades. É quase um jogo de equilíbrio de pratos, em que estamos sempre diante de situações inéditas e que precisam ser ponderadas caso a caso.

Por uma arte livre de censura!

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