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Variedades

Los Hermanos dava voz à geração pós-ditadura

19 de maio de 2015 Variedades
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los hermanos
Com Los Hermanos é assim: ame-os ou odeie-os. Por que não existe meio termo quando o assunto é a banda de Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba (Foto: Divulgação)

SÃO PAULO – Não havia quem não conhecesse alguma garota chamada Ana Júlia (ou Anna Júlia, como a grafia da canção) e perdesse a oportunidade de cantar, a ela, versos como “quem te ver passar assim por mim não sabe o que é sofrer” ou “eu sei que eu não sou quem você sempre sonhou, mas vou reconquistar o seu amor todo pra mim”. Era piegas, mas tão piegas quando o amor juvenil pode ser.

Efervescente, imediatista, dramático como uma novela mexicana. Primeiro e maior hit (em tamanho, não em excelência musical) do Los Hermanos tocava de norte a sul do País. Foi a última banda de rock a atingir níveis tão populares. O canto do cisne de uma indústria mainstream que abandonou as guitarras e partiu para os batuques de axés, pagodes e sertanejos.

A fama desproporcional foi demais para os Hermanos, para cada um deles. Um novo disco, Bloco do Eu Sozinho, só viria a comprovar a ideia de síntese do anti-pop. Batidas por minuto caíram e a gravadora não gostou nada daquilo. Mandou refazer, os Hermanos recusaram. Na disputa de cabo de guerra, o disco saiu e a Abril Music mal faz esforço para promovê-lo. Vendeu pouquíssimo (35 mil cópias na época, em 2001), mas se tornou alvo de culto.

Começava ali a espécie de religião hermânica, conduzida ainda pelos discos Ventura e 4, lançados em 2003 e 2005. Em seis anos desde aquela estreia com Anna Júlia, a banda havia criado um legado respeitável, muito mais profundo do que aquele hardcore de coração partido do primeiro disco poderia sugerir. Em 2007, anunciaram a separação amigável, um “hiato por tempo indeterminado”. E, deste então, se reúnem a cada dois anos, ou menos, para alguns shows com fãs que beiram uma euforia assustadora, um êxtase religioso impressionante.

Há quem os ache arrogantes. Muito talvez pela imagem de entrevistas de arquivo nas quais repórteres mal informados questionavam asneiras aos músicos, normalmente relacionadas a Anna Julia. As respostas eram razoavelmente educadas, mas duras. Na cultura do ódio, há espaço para quem não gosta das barbas cheias dos integrantes, do jeitão desleixado de cantar, tocar e até se vestir.

Mais grave, talvez, seja constatar que nenhuma banda surgiu com tanta força desde aquele quarteto carioca e seu disco de estreia. Nada estourou, rodou, protagonizou uma grande briga com a gravadora. Hoje, os sucessos são comedidos, presos em nichos e na internet. A rádio não exerce a função de espalhar o que melhor se produz por aqui e a influência dos Hermanos, na música independente nacional atual, é embasbacante.

Tudo porque o Los Hermanos dava voz àquele sentimento preso na garganta de uma geração que já cresceu sem ditadura para odiar. Geração que não é perdida, mas cujo rumo ainda era incerto, mesmo aos 20 e tantos anos e matriculada em alguma faculdade. O amor ainda era gatilho para emoções contraditórias. Era doce, agridoce, amargo. Havia leveza nos versos de Camelo, assim como angústias de uma vida adulta ainda distante nas palavras de Amarante. Talvez faça sentido a banda não voltar, de vez, para um disco. Emular emoções do período pré-vida adulta não seria justificável para ninguém. Os quatro álbuns ainda são fonte de lágrimas e risos para gerações que estão por vir.

Com Los Hermanos é assim: ame-os ou odeie-os. Por que não existe meio termo quando o assunto é a banda de Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba? A culpa talvez seja de Anna Júlia, a garota da faculdade que não dava bola para o produtor da banda e responsável por inspirar um hit pegajoso. E de todas as outras Ana Julias espalhadas pelo Brasil, literalmente com o mesmo nome ou apenas a mesma atitude de desprezo, responsáveis por perpetuar os versos de Camelo e companhia. Ou ainda daqueles sonhadores que acreditam que vão “vou reconquistar o seu amor todo pra mim”.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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Assuntos cinema, Los hermanos, musica
Valmir Lima 19 de maio de 2015
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