
MANAUS -Nestas eleições temos mais uma oportunidade de exercer nossa cidadania através da escolha do presidente da República. O nosso voto vai projetar o Brasil que queremos construir, pois os perfis dos dois presidenciáveis são bem definidos e é possível prever o que eles colocarão em prática depois de eleitos e os interesses que eles defenderão ao assumir o poder central.
As trajetórias de Lula e Flávio Bolsonaro não deixam dúvidas sobre quem realmente luta pelo Brasil e pelos brasileiros e quem defende unicamente interesses de poder e enriquecimento, muitas vezes de forma ilícita.
De um lado temos uma personalidade respeitada no mundo inteiro pela sua militância contra a fome e a pobreza. Ele é criador de dezenas de políticas sociais que melhoraram a vida de milhares de pessoas, atribuindo ao Estado uma função de cidadania e colocando as instituições brasileiras a serviço da soberania nacional e da população. Lula possui uma rara biografia que mostra um nordestino lutando contra as próprias condições de pobreza, tornando-se um articulador social e político de alto nível e chegando ao posto mais alto da hierarquia política do seu país, apesar dos preconceitos e ataques que teve de experimentar.
Essa trajetória foi determinante para configurar o perfil político de Lula. Seu carisma no trato com o povo foi forjado pela própria experiência de vida, pois foi do meio desse povo que ele emergiu e a ele ainda permanece visceralmente vinculado.
Ao longo de sua trajetória, Lula foi obrigado a enfrentar fortes resistências das classes abastadas, que pratica o ódio aos pobres traduzido historicamente pela escravidão, pela desigualdade e pelo colonialismo que configuraram a sociedade brasileira. Foi contra estas estruturas que Lula colocou a sua carreira política e os seus três mandatos presidenciais. Os pobres sempre tiveram um espaço significativo na política feita por Lula. Isso é inegável!
Do outro lado, temos um político que não conhece a pobreza e representa um projeto de poder vinculado a uma família sem nenhum histórico de defesa popular. Ligado aos interesses das classes abastadas, Flávio Bolsonaro nunca se destacou na promoção dos direitos de cidadania que favorecem ao povo brasileiro. É herdeiro político de Jair Bolsonaro, que assumiu de forma inusitada a presidência do Brasil entre 2019 e 2022, deixando marcas de crueldade denunciadas em relatórios sobre os direitos humanos e noticiadas pelos meios de comunicações mais conhecidos.
Entre as façanhas realizadas por Jair Bolsonaro, estão as graves agressões contra o Meio ambiente e a Amazônia. Tais agressões são bastante conhecidas, mas é bom lembrá-las para criarmos consciência do perigo que implica a eleição presidencial de mais um Bolsonaro.
É de grande conhecimento, por exemplo, o aumento do desmatamento na Amazônia, chegando a atingir uma taxa média de 59% superior ao quadriênio anterior, totalizando 45.586 km² de áreas destruídas nos quatro anos de governo. Por incrível que pareça neste período as multas ambientais foram drasticamente reduzidas (38%) em virtude de alterações dos procedimentos e fiscalizações que dificultavam a punição dos responsáveis por esses crimes contra a Amazônia.
As queimadas florestais também foram uma marca dos Bolsonaro. O ano de 2020 registou mais de 222 mil focos de calor na Amazônia e o Pantanal sofreu um recorde histórico com o aumento de 120% nos incêndios em 2020. Cerca de 26% do bioma foi carbonizado ao longo da gestão Bolsonaro.
As terras indígenas e povos originários também foram grandes vítimas do governo Bolsonaro. Neste período, não foi feita nenhuma demarcação dos povos indígenas, mas houve um aumento das invasões dos territórios indígenas por parte de empresas, garimpeiros ilegais, com destaque para a Terra Indígena Yanomami.
A área ambiental recebeu neste período a menor destinação de recurso da história recente. Além disso, houve a extinção e o enfraquecimento de conselhos e planos de controle do desmatamento, como Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal (PPCDAm).
Esses indicadores apontam para um cenário de forte aumento no desmatamento, enfraquecimento da fiscalização e avanços de ilicitudes. Tais indicadores mostram com evidencia a omissão governamental de Bolsonaro perante estes crimes ambientais e sinalizam que esta família defende interesses de classes e setores estreitamente vinculados às práticas de devastação totalmente inadequadas para uma época de mudanças climáticas.
Por tudo isso, não há justificativa cidadã que motive um voto e muito menos a eleição de Flávio Bolsonaro. É preciso votar pelo Brasil e pela Amazônia!
Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
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