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Economia

Estiagem vai além da agropecuária e ameaça multiplicar perdas na economia

24 de janeiro de 2022 Economia
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Produção agropecuária da região Sul está sob ameaça (Foto: Divulgação/CNA)
Da Folhapress

PORTO ALEGRE – A preocupação com a estiagem que castiga lavouras da região Sul vai além dos prejuízos diretos da agropecuária. A falta de chuva também ameaça espalhar perdas em outros setores da economia local.

O temor ganha forma devido à grande influência que o campo exerce em parte dos municípios da região, especialmente aqueles de menor porte, localizados no interior de estados como o Rio Grande do Sul.

Quando a agropecuária é prejudicada pelo clima, como é o caso atual, o risco nessas cidades é de menos dinheiro circulando nos setores de comércio e serviços. Trata-se de um efeito dominó, de multiplicação das perdas.

“A agropecuária gera impactos antes e depois da porteira de uma propriedade rural”, aponta o pesquisador Rodrigo Feix, do DEE (Departamento de Economia e Estatística), órgão de pesquisas vinculado ao governo gaúcho.

“Um efeito da estiagem é a redução da renda disponível entre os agricultores. Isso se traduz, por exemplo, em uma demanda menor por bens e serviços das áreas urbanas”, acrescenta.

Conforme o DEE, a agropecuária representa em torno de 9% do valor adicionado bruto à economia do Rio Grande do Sul –no Brasil, a fatia fica próxima de 5%.

O órgão do governo estadual não tem uma projeção dos prejuízos causados até o momento pela estiagem.

No começo de janeiro, a FecoAgro-RS (Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul) calculou em pelo menos R$ 19,77 bilhões o valor de produção perdido no estado, apenas em soja e milho, devido à seca.

O número ficará maior, com reflexos em outros setores da economia local, projeta Tarcísio Minetto, economista da federação. “Quando o produtor deixa de colher, a circulação de recursos fica menor. O efeito dominó é grande”, comenta.

A Farsul (Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) diz que espera um panorama mais claro para calcular o impacto da estiagem, já que em algumas regiões a chuva amenizou o cenário, e em outras, não, segundo o economista-chefe Antônio da Luz.

“Para cada R$ 1 que produzimos dentro da porteira, R$ 3,20 são produzidos ou se deixa de produzir fora, no meio urbano. Embora esse dado de matriz insumo-produto seja de sete anos atrás, ainda é válido, porque é o mais atual que temos. E, como de lá para cá o agronegócio ganhou importância na economia, é bem possível que seja ainda maior, quando for atualizado”, explica ele.

Em 2019, mais da metade dos municípios gaúchos (269 dos 497) tinha a agropecuária como responsável por no mínimo 30% do valor adicionado bruto à economia. Em 69 dessas localidades, o campo respondia por uma fatia de 50% ou mais.

No município de Barra do Rio Azul, na região norte do estado, com população estimada em 1,6 mil habitantes, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a produção das cerca de 450 propriedades rurais corresponde a cerca de 95% da arrecadação, de acordo com o prefeito Marcelo Arruda (PTB).

“Os comerciantes sentem essa retração, o pessoal deixa de vir para a cidade, acaba segurando, aquele sentimento de ter que economizar, porque não vai ter a receita que esperava. É um desafio para a administração pública movimentar de novo essa engrenagem, porque a seca é temporária, mas o agricultor vive muito desse momento”, diz ele.

A família de Rosilei Fátima Vanso trabalha com mercado e agroindústria de embutidos no município, dois negócios que também já sentem os efeitos da estiagem.

“A estiagem nos atinge porque nosso município é agrícola. Quem era acostumado a comprar bastante está reduzindo as compras porque não sabe como vai ficar. Mesmo que a gente não trabalhe no campo, a gente é atingida”, avalia ela.

“Esse é um dos anos mais difíceis, juntando a pandemia com essa seca. Deixou a gente mais vulnerável”.

“A mecânica, até quando estava chovendo, era uma beleza. Agora dá para sentir uma redução, o pessoal deixa de fazer, pede orçamento, prefere esperar mais um pouco, porque o dinheiro está curto”, diz Ademir Marmentini, dono de uma oficina na cidade.

O gerente comercial da unidade da Cooperalfa no município, Domingos Marmentini, também relata que o produtor rural está segurando gastos.

“Principalmente, impacta na venda de insumos, rações, fertilizantes. Agora, na safrinha, o produtor está plantando, não está mais investindo, porque o preço dos insumos aumentou, a produção de leite diminuiu. O produtor sentiu o impacto e está gastando menos”, avalia.

Com os problemas da seca se repetindo ano a ano, o prefeito Arruda diz que um dos desafios é que o poder público aja com programas e incentivos, para reduzir danos na próxima safra –agricultores que construíram cisternas, por exemplo, estão mais tranquilos diante do quadro atual.

Até esta sexta-feira (21), 335 dos 497 municípios gaúchos haviam decretado situação de emergência pela falta de chuva, segundo a Defesa Civil.

“Em muitos municípios gaúchos, os efeitos da estiagem ocorrida em 2020, por exemplo, foram mais dramáticos do que os impactos econômicos gerados pela Covid-19”, relata Patrícia Palermo, economista-chefe da Fecomercio-RS (Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul).

A analista acrescenta que as perdas em lavouras também tendem a pressionar os preços de produtos agropecuários para o consumidor final.

“A estiagem preocupa, e não é pouco. A situação é bastante feia. Parte importante de quem compra no comércio das cidades é formada por produtores rurais”, afirma Gilberto Aiolfi, presidente do Sindilojas Missões.

A entidade representa lojistas de 17 municípios do noroeste gaúcho, que recebeu neste mês a visita da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Ela observou os efeitos da seca no meio rural e conversou com produtores na ocasião.

Os efeitos são significativos na economia de todo o estado, na avaliação do presidente da Famurs (Federação dos Municípios do RS) e prefeito de São Borja, Eduardo Bonotto (PP).

“Se olharmos o RS, a porcentagem de municípios dependentes da agropecuária é significativa. Nós temos nos posicionado e conversado muito sobre essa questão, tanto em ações emergenciais, mas também em medidas estruturantes para o futuro, já que a estiagem é cíclica no estado, para que as próximas tenham danos minimizados aos produtores”, diz ele.

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Assuntos Agropecuária, Chuva
Murilo Rodrigues 24 de janeiro de 2022
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