LOS ANGELES – Com seus imensos olhos azuis, a atriz Amy Adams já foi escalada para viver princesas (Encantada), freiras (Dúvida), Lois Lane (nos novos filmes com o Super-Homem), donas de casa (Julie & Julia) e a mulher do fundador de uma seita (O Mestre). A Academia a adora: concorreu cinco vezes ao Oscar. E tem chances novamente neste ano, em dose dupla, com ‘A Chegada’, de Denis Villeneuve, que estreia nesta quinta-feira no Brasil, e ‘Animais Noturnos’, de Tom Ford, com lançamento previsto para dezembro. Além da habilidade de se transformar em diversas mulheres diferentes, a atriz de 42 anos parece uma pessoa normal. Na entrevista coletiva, em Los Angeles, aparece elegante, claro, mas brinca que nem a equipe a reconheceu quando chegou ao local com roupas de pilates, o cabelo preso num coque displicente e sem maquiagem.
Em ‘A Chegada’, interpreta uma linguista brilhante, convocada pelo governo para se comunicar com os alienígenas que estacionaram suas naves em diversos pontos do mundo. A Dra. Louise Banks lidera a equipe que tenta desvendar o que eles querem. “Seria maravilhoso ter uma língua universal. Mas estamos bem longe disso”, diz Adams. “O que temos em comum são as emoções e nossa experiência humana. Somos todos iguais. Todos temos medos, compaixão, amor, raiva. Mas não sabemos nos comunicar”.
O longa do franco-canadense Denis Villeneuve (Sicario: Terra de Ninguém, Os Suspeitos), baseado num conto de Ted Chang, não foi pensado como uma declaração política. Mas terminou tendo esse contorno, dados os últimos acontecimentos no mundo, impulsionados pela polarização de opiniões em que ninguém parece se entender, ou mesmo querer tentar se entender. “O filme ganhou um peso geopolítico maior do que o pretendido”, afirma Adams. A suposta conexão por meio das redes sociais não a interessa. “Para mim, não é real. Uma das coisas que sempre me incomodou é ser mal interpretada. Quando você não está cara a cara comigo, tudo pode ser tirado do contexto. Então, para mim, colocar ideias nas redes sociais não é a melhor maneira de me comunicar”, disse. Adams confessa não ser adepta nem de SMS. Prefere mesmo telefonar.
Rodar ‘A Chegada’ teve alguns momentos incômodos, como a filmagem num campo cheio de lama. “Leonardo DiCaprio me disse uma vez: ‘A dor é temporária, um filme é para sempre’. É uma coisa de nada comparada com o que pessoas enfrentam ao redor do mundo”.
Mas Adams tem tentado evitar é trabalhar com pessoas agressivas – não esconde seus problemas no set de ‘Trapaça’, de David O. Russell, famoso por gritar e tratar mal seus atores. A razão é sua filha Aviana, de 6 anos. “Más experiências são parte de qualquer trabalho. Todos tivemos chefes que nos fizeram pensar: ‘Nossa, não precisava ser tão difícil’. Só que, neste momento, para mim é fundamental manter sanidade e estabilidade mentais”.
Em ‘A Chegada’, a atriz conta que teve uma de suas melhores experiências num set de filmagem. “Talvez porque estivessem falando francês, então nunca sabia se havia uma emergência”, disse. Um raro caso em que a comunicação incompleta pode ser uma vantagem.
No filme, Amy não está sozinha. Com ela trabalha Jeremy Renner, como um matemático.
O cinema contou muitas histórias de ETs do mal, quase sempre para acirrar a paranoia que ronda a ‘América’. É uma sociedade que, como dizia o grande Arthur Penn, teme o outro, o diferente, e só consegue resolver seu conflitos pela violência. Quando Amy e Renner iniciam a comunicação com os bizarros ETs – octópedes – o avanço é lento. Alguém já disse que eles alfabetizam os alienígenas. Menos – na verdade, eles pertencem a uma civilização superior. A grande questão que logo de forma é o significado atribuído a um signo, porque a comunicação é feita por signos, não palavras – arma ou ferramenta? Amy sustenta que é ferramenta, os militares dizem que é arma e já querem atacar.
A Chegada é menos denso e apaixonante que Incêndios ou Sicário, mas propõe, certamente, uma dupla experiência das mais intensas. É visualmente belo, e misterioso. As naves dos ETs são alongadas e, para chegar até eles, é preciso atravessar um corredor. Havia outro (corredor) subterrâneo que era passagem para os traficantes na fronteira, lembram-se? Aqui, o significado é outro. Não existe muita ação, porque a aventura é interior. Amy – sua personagem – adquire um poder. Supera a própria perda – supera talvez não seja a melhor definição, porque é uma coisa muito dolorosa – e com certeza torna-se uma pessoa melhor, mais tolerante. Certas coisas, no filme, são tão misteriosas que algumas reviravoltas da narrativa beiram o inexplicável. Talvez seja a essência de A Chegada. A comunicação, o entendimento não dependem da racionalidade, ou só dela. Ligam-se à emoção. Viajar nos enigmas de A Chegada é o tipo de experiência que vale compartilhar.
(Estadão Conteúdo/ATUAL)
