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Variedades

Em Snowden, Oliver Stone vê perigo na vigilância total

8 de novembro de 2016 Variedades
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oliver-stone
Os atores Joseph Gordon-Levitt (Snowden) e Shailene Woodley com Oliver Stone (Foto: Wired/Divulgação)

SÃO PAULO – O diretor Oliver Stone tem um dia de agenda lotada nesta terça, 8, em São Paulo. Seus compromissos não incluem passar no consulado para votar, nessa renhida eleição norte-americana. Ele anuncia que já votou antes de viajar ao Brasil. “Não posso lhe dizer em quem votei, se é isso que deseja saber”, declarou. Mas o cineasta não se furta a comentar que as coisas vão piorar “com Hillary (Clinton)”, deixando claro que não acredita numa vitória do republicano Donald Trump. “As coisas já não andam bem com (Barack) Obama”, avalia.

O repórter observa que Stone é muito crítico com a administração Obama no filme que o trouxe ao Brasil, ‘Snowden – Herói ou Traidor’, sobre o analista da NSA, Edward Snowden, que denunciou o gigantesco esquema de supervigilância montado na ‘América’.

Em nome da segurança, até o mais comum dos cidadãos passou a ser vigiado pelo governo. Mas Stone reage quando o repórter lhe diz que é crítico com Obama. “Nem preciso ser. Basta prestar atenção em suas sucessivas declarações ao longo do filme. Ele se contradiz, nega, se arrepende o tema todo. A par de ter construído esse sistema para espiar o público que custou bilhões de dólares, o que o governo mais faz é mentir”, disse.

No original, o filme chama-se ‘Snowden’. No Brasil, o distribuidor colou o subtítulo ‘herói ou traidor’. “Bullshit”, diz Stone. Na sua abordagem, nem por um minuto Snowden, que colocou a vida em risco e hoje vive isolado na Rússia, pode ser considerado traidor. Como todo herói de Stone, é um idealista confrontado com o poder. “Tive vários encontros com ele. Estava interessado em seu patriotismo. Tudo o que ele fez foi baseado num amor sincero pela América e na certeza de que estava defendendo princípios que fizeram sua grandeza”. Em nome desse amor, Snowden libera, no filme, informações consideradas de segurança máxima. Enfrenta, como se diz, o sistema mais poderoso do mundo.

Nesse sentido, não difere muito de Jim Garrison, o promotor de ‘JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar’ nem do Ron Kovic de ‘Nascido em 4 de Julho’. “A diferença é que Snowden não é um herói como Kevin Costner ou Tom Cruise. Ron (Kovic) alistou-se na guerra por patriotismo. Acreditava, como muita gente (nos EUA), que a guerra (do Vietnã) era necessária, mas sofreu na carne a decepção e virou ativista contra todas as guerras. Snowden teve decepção parecida. Acreditava que fazia parte de um grupo de eleitos fazendo as coisa certas, mas percebeu que não era nada disso. O problema é que ele é tímido, introvertido, não sorri. Não é o tipo de herói com quem as pessoas se identifiquem facilmente”.

Stone deixa subentendido que foi um desafio fazer um filme de mais de duas horas com esse tipo de herói. Está feliz de ter conseguido. Há uma frase repetida como um mantra em Snowden. “As pessoas não querem liberdade, querem segurança”. É contra esse pensamento totalitário que Stone se insurge. O repórter lembra ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, de Stanley Kubrick. No filme, Hal 9000 é o poderoso supercomputador que quer controlar tudo. Numa cena, Snowden está na cama com a namorada quando vê a luz vermelha do laptop ligada. O olho que tudo vê, como Hal 9000. “Não fiz essa associação, mas ela é possível”, avalia Stone. “O filme de Kubrick é sobre o perigo representado pelas máquinas, pela inteligência artificial. Nesse sentido, 2001 iniciou uma nova era, concordo, mas agora estamos falando numa programa como nunca se viu, criado pelo governo para vigiar os cidadãos e dominar o mundo. Estamos falando de poder, de dinheiro, de supremacia”.

E o diretor só tem elogios para o ator que faz o papel, Joseph Gordon-Levitt. “Ele conheceu Snowden na Rússia. Assimilou coisas para servir ao personagem e torná-lo mais real. É o que fazem os atores realmente talentosos”.

Stone continua batendo em Obama. Diz que ele foi uma decepção completa. “Traiu tudo aquilo que dizia ser seu ideário para ser eleito. Obama é um caso raro de quem fez o acordo com Wall Street antes de ser eleito. Toda a sua equipe econômica veio de lá. Os liberais caíram fora de seu governo rapidinho”. E Stone prossegue: “Obama é o típico nice guy. Bonzinho… Apresenta-se como homem de consenso. Nunca lutou para conseguir as coisas. E é preciso lutar – por aquilo em que se acredita. Como Snowden”.

Nesta terça, a TV paga apresenta Nascido em 4 de Julho, que deu a Stone seu segundo Oscar de direção em 1989, após Platoon, de 1986. É um de seus filmes mais belo. O que ele pensa disso? “Minhas memórias de cada filme estão ligadas aos processos que vivi. Nesse sentido, orgulho-me de todos os filmes. Nascido em 4 de Julho me lembra coisas boas”.

Por falar em coisas boas, como ele se sente em relação ao momento atual, se as coisas, como diz, vão piorar? Pessimismo da razão ou otimismo da vontade? “Otimismo do coração”, ele prefere. E sobre o estado do mundo, nesse avanço da direita em toda parte. “É como em Star Wars. Os rebeldes enfrentam o Império querendo vencer. E vencem. Que não seja só ficção”.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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Cleber Oliveira 8 de novembro de 2016
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1 Comment
  • Mirtes disse:
    9 de novembro de 2016 às 14:10

    Não creio que Trump seja um bom candidato à reeleição. Mas, se as coisas piorarem, ele ganha.

    Responder

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