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Variedades

Tim Burton reinventa a fantasia em ‘O Lar das Crianças Peculiares’

29 de setembro de 2016 Variedades
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Em ilha protegida por fluxo temporal, crianças com poderes especiais se escondem de ameaças mortais (Foto: Divulgação)
Em ilha, crianças com poderes especiais se escondem de ameaças mortais (Foto: Divulgação)

SÃO PAULO – Era para ter sido um livro para o Halloween, com fotos vintage da sombria coleção do autor. Mas o editor Jason Rekulak, que perguntou se o americano Ransom Riggs tinha algum livro que gostaria de escrever, acabou identificando naquelas imagens estranhas e fortes de crianças na caixa de Riggs algo muito maior, e que poderia dar origem a um romance.

Na verdade, vieram três. O primeiro foi ‘O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares’. Lançado no Brasil pela primeira vez em 2012, pela Leya, está chegando aos cinemas pelas mãos de Tim Burton e, em novembro, passa para o catálogo da Intrínseca com uma ligeira alteração no título – em vez de ‘orfanato’, foi escolhido ‘lar’. Os seguintes, ‘Cidade dos Etéreos’ e ‘Biblioteca de Almas’, também foram publicados pela Intrínseca. E há ainda um quarto volume, ‘Contos Peculiares’, situado no mesmo universo, mas que não dá exatamente sequência à trilogia que começa a trilhar seu caminho best-seller internacional. O filme de fantasia já está em cartaz em todo o País.

As fotos de sua coleção – e outras emprestadas – desempenham papel importante nos volumes, sobretudo, no primeiro, complementando a narrativa. E aí voltamos alguns anos na história. Ransom Riggs estudava cinema na Califórnia quando encontrou, numa feirinha, fotos antigas e aquilo se tornou uma obsessão – ele queria resgatar aquelas ‘peças de arte’ do lixo. E mais alguns anos. Quando criança, ele já frequentava brechós com a avó e certa vez, como contou em entrevista ao New York Times, viu uma foto antiga que o lembrou de uma garota por quem tinha uma queda, comprou e colocou em sua cama. Tempos depois, resolveu olhar o verso e ali estava escrito que a garota havia morrido de leucemia quando tinha 15 anos. “Eu estava vivendo com fantasmas”, disse na entrevista.

Esses livros juvenis, ou para jovens adultos como o mercado editorial convencionou chamar, acompanham a saga de Jacob Portman, de 16 anos, que decide investigar a estranha morte do avô e vai parar numa mansão no País de Gales.

Era ali que se passavam as histórias contadas ao neto dos tempos em que vivia num orfanato naquela ilha onde sempre era verão, ninguém ficava doente ou morria e onde as crianças podiam levitar, ficar invisíveis, entre outros dons. Há, nas histórias, a luta entre o bem e o mal e a tentativa de construir um mundo sombrio e de salvá-lo. Nas mãos de Tim Burton, a obra literária ganha a dimensão característica do diretor e seus contos de fada.

‘O Lar das Crianças Peculiares’ fala novamente de alguém que se sente à margem. Jake (Asa Butterfield) vai a Gales seguindo as pistas deixadas pelo avô, que acaba de morrer. Chegando lá, encontra a Senhorita Peregrine (Eva Green) e suas crianças ‘peculiares’, com poderes especiais, perseguidas por Barron (Samuel L. Jackson) e escondidas num ‘loop’ repetição temporal. Jackson, de 67 anos, que vive um cientista que, em busca da imortalidade, transforma a si mesmo e a seus aliados em monstros e semimonstros, conversou com o jornal ‘O Estado de S. Paulo’ sobre o filme, a política e o futuro.

Estado – Seu personagem queria viver para sempre. É algo que você gostaria?

Samuel L. Jackson – Não, estou bem assim. Acho que vou deixar uma boa quantidade de trabalho. As pessoas vão ver esses filmes por pelo menos dez anos depois de eu me ir.

Estado – Tim Burton foi a principal razão para fazer o filme?

Jackson – Sim. Com que frequência alguém liga e diz que Tim Burton quer você em seu filme? Você aceita e depois pergunta para quê.

Estado – Seu personagem é meio o bicho-papão. Divertiu-se?

Jackson – Claro! Tive só de me acostumar àquela dentadura. Tentei também estabelecer uma relação com as crianças. Elas nunca ficaram com medo de mim! Sempre riam quando me encontravam, me agarravam, pediam fotos. Então, isso me levou a dar um lado humano a esse monstro. Só era uma pessoa com raiva – e com senso de humor. Fazer o monstro é fácil, mas explorar o lado humano era mais interessante.

Estado – Tim Burton costuma falar de pessoas que não se encaixam…

Jackson – Bem, aqui você tem um grupo de crianças com habilidades singulares. Mas as pessoas as chamam de “peculiares”, uma palavra que não tem uma conotação bacana. “Peculiar” significa estranho. Quando você diz “singular”, é legal, positivo. Hoje, não se pode mais usar palavras como ‘retardado’, ‘bicha’. Você só diz: “Ele não é como você. É singular”. Isso criou algo bem mais saudável e tornou possível para cada um ser feliz do jeito que é.

Estado – É otimista sobre o futuro?

Jackson – Sim! A não ser que cometamos o erro de “tornar a América grande novamente” (referindo-se ao slogan preferido do candidato Donald Trump), sim, as coisas vão ficar melhores. Se a gente “tornar a América grande novamente”, vai haver um retrocesso, as pessoas vão ter de esconder quem são, vão se preocupar com a caça às bruxas que vai acontecer e parar de ser produtivas.

Estado – Você trabalha bastante. Assiste a todos os seus filmes? Muitos atores dizem que não gostam de assistir a seus filmes.

Jackson – Você acredita nisso? Eu escolhi fazer o filme porque gosto da história. Então, quero ver a história! Alguns, não vejo com tanta frequência. Passo alguns porque a experiência de fazer não foi tão boa.

Estado – Muitas vezes, você é definido como workaholic. Concorda?

Jackson – Todo mundo trabalha cinco dias por semana, oito horas por dia. Artistas acordam todos os dias e pintam. Escritores acordam todos os dias e escrevem. Encanadores consertam canos. Sou ator. Quero me levantar e atuar. Os trabalhos de ator são finitos, só dá para fazer alguns na sua vida. Quero fazer tantos quanto possível. Para ser sincero, não tenho o trabalho mais difícil do mundo. O dia de trabalho tem 12, 14 horas, na verdade. Mas dessas, eu trabalho, sei lá, uma hora e meia? Fora isso, prefiro preencher meu tempo lendo um livro, assistindo a um filme ou série, comendo um sanduíche. E eles me pagam direitinho!

Estado – Seu resumo de Game of Thrones foi fantástico. Você é fã?

Jackson – Claro! Não parecia que eu sabia do que estava falando? Sou fanático por Game of Thrones e torço por Tyrion e Arya.

Estado – agora sobre o Game of Thrones real, acontecendo agora nos Estados Unidos, com as eleições presidenciais, está preocupado?

Jackson – Claro! Existe uma possibilidade bem real de que a pessoa errada ganhe. Não acho que vai ser bom ter alguém que nunca foi político, como Donald Trump, que não entende como funciona o mundo politicamente, que é sensível demais e volátil. Vai saber o que ele vai dizer, ofendendo países, nos tornando uma ilha? As pessoas não perceberam que ele não tem ideia do que é ter dificuldades, que está enganando o americano médio, fingindo se importar com eles, quando na verdade não se importa. Entendo por que não confiam na Hillary Clinton, que faz parte da engrenagem há anos. Mas sua grande vantagem é que ela conhece o trabalho.

Estado – feliz com o governo Obama?

Jackson – Ele fez um trabalho incrível, considerando a obstrução que sofreu. Muita gente teria desistido, mas ele não desistiu.

Estado – Houve muita polêmica no Oscar deste ano sobre a falta de negros. O que acha disso?

Jackson – Eu não me preocupo particularmente com isso. Entendo que as pessoas considerem uma injustiça. Pessoalmente, tento julgar os filmes por seus méritos. Não acho que há um sistema de cotas com relação à qualidade dos filmes. Claro que é bom colocar mais não brancos na Academia. Assim, dá para ter uma opinião mais diversa. Mas, no fim, é um concurso de popularidade. Espero que haja mais filmes com não brancos que sejam bons o suficiente para merecer uma indicação.

Estado – Qual foi sua reação ao livro e às fotografias que ele contém?

Jackson – Fiquei fascinado. Quando você olha uma fotografia, ela diz alguma coisa, mas não tudo. Com uma fotografia, e com um livro também, você mesmo inventa a história. Mesmo sendo uma mídia diferente, tentei capturar o espírito, a poética da imagem, que são coisas que procuro fazer nos meus filmes.

Estado – Seus filmes sempre falam de alguém que não se encaixa. Ainda se sente assim?

Jackson – Provavelmente, mais do que nunca. Mas, se você se sentiu assim alguma vez, infelizmente, esse sentimento nunca mais sai. Você pode ter sucesso, tornar-se pai, conquistar o que for, mas esse cantinho escuro sempre fica lá dentro. Não procuro sempre falar a mesma coisa nos meus filmes, mas acabo me identificando com esse tipo de material. Não quero contar a história de outra pessoa estranha e solitária, acaba acontecendo.

Estado – Fazer um filme é sempre complicado. Existem partes que você acha mais difíceis que outras?

Jackson – A filmagem é sempre a mais difícil, mas também a mais divertida. É como uma família estranha que se forma. Não dá para controlar o clima. Não dá para controlar muita coisa. Sinto como se ouvisse “não” em 90% do dia. É da natureza da filmagem.

Estado – Por que Eva Green era a pessoa ideal para fazer a Senhorita Peregrine?

Jackson – Eu amo a Eva. No livro, ela é mais velha. Mas estava procurando alguém que tivesse mistério, poder, uma mistura de estranheza, humor e conexão humana. E que desse a impressão de ser capaz de se transformar num pássaro! (risos)

Qual sua inspiração para criar o monstro?

Jackson – Queria que fosse alguém que habita os pesadelos. Normalmente nos sonhos, os monstros têm algo de humano.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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