
MANAUS – Os mercados são movidos por oferta e demanda. O excesso de demanda, leva ao aumento de preço. Com baixa demanda, os preços caem. Esta discussão já existia no século XIV, com base na necessidade e raridade. A evolução do pensamento econômico levou esta construção a outros patamares, com John Locke, James Stewart, Adam Smith, David Ricardo, Thomas Malthus e outros.
É um princípio básico, amplamente conhecido pelas pessoas, mas nem sempre internalizado para a tomada de decisão. Afinal, muita abundância pode também representar um baixo valor estratégico. Uma “sabedoria das massas” pode ser um senso amplo, defendido por muitas pessoas, mas de baixo valor estratégico. De outra forma, questões exaustivamente difundidas, por meio de fontes gratuitas, podem ser simplesmente uma forma de vender uma ideia ou ideal que seja do interesse de quem as produziu e distribui, mas não daquele que consome.
Notícias gratuitas tipicamente defendem causas. Em política, o conceito de inundar o campo (do termo em inglês “flood the zone”), onde uma corrente adota a estratégia de chamar a atenção da mídia, desorientando opositores e a opinião pública, por meio de reportagens indesejadas e conteúdo fajuto ou acintoso. Esta estratégia foi vitoriosa em vários ambientes mundo afora, em especial pela extrema direita, em vários países.
No aspecto econômico, a China tem inundado o mercado de veículos, saindo de 103 fabricantes em 2018 para 143 marcas em 2025, segundo a Barron’s, ocupando cerca de 50% de sua capacidade. Atualmente é o país dominante também nesta indústria, exportando cerca de 10 milhões de veículos. Com base na sua capacidade ociosa, o mercado global tem experimentado a mais básica das concorrências: menor preço.
As transformações nos mercados acontecem continuamente, mas algumas levam anos para se dar, podendo gerar impacto de gerações. Da mesma forma, isso se dá nas transformações políticas. Mas há algumas coisas que não mudam: um país não ajuda outro.
Países normalmente se aproveitam dos outros. A construção democrática, industrial ou de políticas públicas, depende deste complexo equilíbrio entre demanda e oferta, empresas e governos.
As mensagens falsas e erradas de unguentos que atendem a tudo e todos é recorrente, assim como os movimentos do capital, do comando e do controle, da liberdade e da falsa liberdade. Caminhar em meio a tudo isso faz parte da complexidade de viver e de compreender as causas e efeitos dos acontecimentos. O ressurgimento e o crescimento da indústria brasileira não terão apoio estrangeiro ou das pessoas que dependem de mão de obra barata ou quase escrava. O progresso das indústrias depende de tecnologia própria, demanda interna e demanda externa. Fora disso, seremos eterna colônia agrícolas, de aplicativos ou de qualquer outra coisa.
Acreditar que o trabalho no Brasil é caro ou complexo é para aqueles que preferem um modelo do passado, com total dependência ao ambiente estrangeiro. O caminho para a retomada da indústria também vai depender de uma mudança nas mentes das lideranças empresariais e políticas. Enquanto os modelos forem para subordinação, será difícil reconstruir a indústria nacional.
Autonomia e independência, com demanda interna e externa, somado ao trabalho qualificado e bem remunerado. Fora disso, não haverá indústria forte. Preço baixo depende de abundância. Custo baixo também.
Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
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