
Do ATUAL
MANAUS – O desmatamento e as queimadas foram os principais fatores das emissões de carbono na Amazônia em dois dos três grupos de anos analisados por um estudo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Publicada nesta quarta-feira (21) na revista científica Nature, a pesquisa reuniu 15 anos de medições aéreas e concluiu que as atividades humanas aumentam as emissões, enquanto as secas intensificam os impactos sobre a floresta.
O estudo analisou dados coletados entre 2010 e 2024 por aviões que mediram as concentrações de dióxido de carbono (CO₂) e monóxido de carbono (CO) em quatro localidades da Amazônia brasileira. Os pesquisadores cruzaram os resultados com informações sobre desmatamento, queimadas, precipitação, temperatura e condições dos oceanos Pacífico e Atlântico.
A análise dividiu os anos em três grupos, conforme as condições climáticas e a pressão humana sobre a floresta. O primeiro reuniu anos mais chuvosos e com menor atividade humana. O segundo, de 2019 a 2022, foi marcado principalmente pelo avanço do desmatamento e da degradação, sem o mesmo nível de estresse climático observado nos anos de seca mais intensa.
Nesse segundo grupo, o desmatamento aumentou 97% e a área queimada, 25%, em comparação com o primeiro período. O balanço médio de carbono chegou a 0,43 petagrama de carbono por ano (PgC), cerca de 1,58 bilhão de toneladas de CO₂ equivalentes. O resultado mostra que as emissões também aumentaram em anos sem condições de seca extrema.
O terceiro grupo incluiu 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, anos marcados por temperaturas mais altas e períodos de seca associados, entre outros fatores, ao El Niño e ao aquecimento do Atlântico tropical norte. Nesse conjunto, a área queimada aumentou 92% e o desmatamento, 22%, em relação ao primeiro grupo.
O balanço médio de carbono chegou a 0,49 PgC por ano, equivalente a aproximadamente 1,80 bilhão de toneladas de CO₂. Foi o maior valor entre os três grupos. A área queimada cresceu 72% em comparação com o primeiro período, e as emissões associadas ao fogo foram 53% superiores às registradas no segundo grupo.
Os pesquisadores registram que o efeito das queimadas foi amplificado pelas condições climáticas. No grupo de anos quentes e secos, a floresta recebeu 13% menos chuva por ano do que no primeiro grupo, enquanto a temperatura média foi mais alta. O estudo também identificou forte influência humana nas queimadas: as ignições provocadas por raios corresponderam a apenas 1,6% dos eventos em 2023 e 1% em 2024.
Capacidade de absorver carbono
Na média dos 15 anos analisados, o balanço de carbono da Amazônia foi de 0,32 PgC por ano, equivalente a cerca de 1,17 bilhão de toneladas de CO₂. As queimadas responderam por um fluxo médio de 0,40 PgC por ano, ou aproximadamente 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ equivalentes. Esse último valor corresponde às emissões brutas associadas ao fogo, enquanto o balanço total considera também a absorção de carbono pela floresta.
A pesquisa também identificou mudanças climáticas de longo prazo na região. Entre 1979 e 2024, a precipitação anual diminuiu 8%, enquanto a redução chegou a 20% entre agosto e outubro, período que concentra o pico da estação seca. No mesmo intervalo, a temperatura média anual subiu 1,13 °C e o aumento chegou a 1,81 °C entre agosto e outubro.
Segundo os pesquisadores, a perda de vegetação reduz as chuvas e eleva as temperaturas, condições que favorecem novas queimadas e tornam a floresta remanescente mais vulnerável. O estudo conclui que desmatamento, degradação, fogo e secas ocorrem com mais intensidade, comprometendo a capacidade da Amazônia de absorver o carbono emitido.
O artigo, intitulado Amazon carbon emissions driven by human actions amplified by droughts (“Emissões de carbono da Amazônia impulsionadas pelas ações humanas e amplificadas pelas secas”, em tradução livre), foi liderado por Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe e coordenadora do projeto Carbam, que estuda as emissões e a absorção de carbono na Amazônia.
