
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS – A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) investiga se os incêndios florestais no Amazonas são causados de forma coordenada. A investigação foi anunciada nesta quarta-feira (14) em Manaus pelo ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco. Segundo ele, ainda não há provas de uma possível articulação para atear fogo em áreas de floresta.
Capobianco afirmou que a investigação busca identificar se houve uma ação organizada semelhante ao chamado “Dia do Fogo”, ocorrido no Pará, ou aos incêndios registrados em São Paulo em 2024. O ministro disse que as autoridades também avaliam uma possível relação entre os incêndios e o período eleitoral, mas ressaltou que nenhuma dessas hipóteses foi confirmada.
“Existe uma suspeita de ação organizada. Por isso, além de todos que estão aqui, todas as investigações também têm a participação da Abin para verificar se está se repetindo aqui o que ocorreu em outro momento, chamado ‘Dia do Fogo’, no Pará, em que houve uma ação combinada […]. Então, existe, de fato, uma suspeita disso. Está sendo investigada, não é possível afirmar nada até o momento, ainda não encontramos esses dados concretos, mas está sendo identificado”, declarou Capobianco.
A ampliação das investigações foi anunciada após uma reunião no CCPI (Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia) com representantes de órgãos federais e estaduais. Segundo o ministro, a atuação integrada reúne a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Abin e as polícias Civil e Miltar do Amazonas, além das instituições responsáveis pela fiscalização ambiental.

Capobianco relatou que há informações sobre pessoas utilizando caminhonetes para lançar combustível em áreas de floresta e ao longo de estradas. Ele também mencionou relatos de brigadistas que foram ameaçados por pessoas dizendo que voltariam a colocar fogo nos locais assim que as equipes de combate deixassem as áreas atingidas.
Para o ministro, a identificação dos responsáveis precisa avançar paralelamente às operações de combate aos incêndios. Ele afirmou que o trabalho de investigação criminal será intensificado para permitir a responsabilização dos envolvidos.
120 procedimentos criminais
O secretário de Segurança Pública do Amazonas, Anézio Brito de Paiva, informou que a Polícia Civil instaurou 120 procedimentos criminais relacionados aos incêndios no estado. Segundo ele, a força-tarefa também recebeu cerca de 100 denúncias anônimas pelo número 181, encaminhadas para verificação pelas equipes de segurança.
Paiva relatou que a operação utiliza drones com câmeras térmicas e aeronaves para identificar possíveis responsáveis pelo início do fogo. As informações de localização são repassadas às equipes em terra, que atuam principalmente nos municípios do Careiro da Várzea, Careiro Castanho, Autazes e Iranduba.
De acordo com o secretário, as ações incluem apreensão de combustível e condução de suspeitos às delegacias, entre elas a Dema (Delegacia Especializada em Crimes contra o Meio Ambiente). Não houve prisões.
O presidente do Ibama, Jair Schmitt, também apresentou imagens de uma ocorrência registrada durante um sobrevoo na região de Autazes e Careiro da Várzea. Segundo ele, as equipes identificaram pessoas com combustível iniciando um incêndio próximo a uma rodovia.

Schmitt mostrou ainda imagens de satélite de uma área desmatada em uma terra indígena na região de Autazes, que posteriormente foi incendiada. Conforme o presidente do Ibama, o fogo foi utilizado para limpar o terreno, mas acabou se espalhando e dando origem a um incêndio de maiores proporções.
De acordo com os dados apresentados por Schmitt, a operação integrada reúne mais de 112 agentes e 28 viaturas, além de drones e aeronaves. Ele informou ainda que o Ibama já notificou 49 propriedades no Amazonas para verificar o cumprimento de medidas preventivas contra incêndios.
Redução de incêndios
Durante a coletiva, o presidente do Ibama apresentou dados do monitoramento de eventos ativos de fogo, indicador que reúne focos de calor associados a áreas em combustão. Segundo o levantamento, o Amazonas tinha 508 focos em 9 de outubro. O número caiu para 147 no dia 13, embora tenha apresentado oscilações ao longo do período.
Schmitt afirmou que os dados indicam uma tendência de redução, mas citou que fatores climáticos também precisam ser considerados na análise, além do trabalho das equipes de combate.
O presidente do Ibama informou ainda que o Amazonas acumula 674.184 hectares de área queimada em 2026, conforme levantamento do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O resultado representa aumento de quase 62% em relação a 2025 e de 29% na comparação com a mediana histórica.
Segundo Schmitt, entre 70% e 80% das grandes áreas de incêndio identificadas na porção leste do Amazonas estão concentradas em um raio de até 150 quilômetros de Manaus, principalmente nas regiões de Autazes, Careiro da Várzea, Itacoatiara e Parintins.
Apesar da redução recente dos eventos ativos de fogo, Capobianco afirmou que ainda não é possível dizer se o momento mais crítico dos incêndios já passou. Segundo ele, as operações de combate e as investigações continuarão de forma integrada para conter o avanço do fogo e identificar os responsáveis.
