
MANAUS – A Teoria de Sistemas não é mais uma novidade. Mesmo assim, os debates públicos sobre clima, guerra, eleição, políticas públicas, infraestrutura, trânsito, transporte, saúde e tantos outros assuntos seguem capturando uma ou outra variável, sem uma interrelação ampla nas análises. Quando muito, pega-se uma segunda variável para debater o problema.
A infraestrutura de transportes é uma das questões onde isso é muito relevante, em especial quando se insere em um horizonte de tempo maior, pois as obras são complexas, caras e complexas.
Todos os dias milhões de pessoas consomem seus tempos de vida em transportes públicos ineficientes, caros, lentos e desconfortáveis. Quase não lidamos com o assunto. É como se não houvesse tecnologias mais avançadas para enfrentar o problema. É como se houvesse um amplo desconhecimento do problema. Todavia, já se conhece profundamente as soluções, mas elas estão distantes de serem óbvias, fáceis ou baratas. Em geral, o conjunto de propostas de não especialistas sobre soluções estão muito distantes do que é mais apropriado a esta natureza de problema.
As conexões intermunicipais e interestaduais também possuem esta característica. Entretanto, coloca-se uma enorme superficialidade nas discussões e os focos ficam normalmente numa obra isolada e, eventualmente, sobre os custos envolvidos. Quase nada se debate sobre eficiência, redução do problema para grandes massas. Normaliza-se a perda de tempo de milhões de pessoas num deslocamento diário ineficiente, ineficaz e caro.
Enquanto o mundo visa a Cidade de 15 Minutos (livro do colombiano Carlos Moreno, que teve seus conceitos implantados em vários países), onde se aproxima a origem do destino. Ao contrário, estamos criando feudos mais distantes das cidades. Enquanto o mundo aumenta os investimentos em infraestrutura, reduzimos investimentos por conta de um Teto de Gastos ou simplesmente para conter gastos, sem entender se isso ajuda ou atrapalha a economia. Sem contrapontos, reduz-se o dinamismo ou impede-se o dinamismo.
Com o pensamento sempre simplificado, olhamos a opção da eleição do nós contra eles, mas não se comparam os projetos de política pública. Vale para todos os níveis. E aí, aceita-se “vou melhorar o transporte” ou “investiremos em segurança”, sem serem comparados os projetos detalhadamente. Nas eleições para governadores e presidência da república as propostas são normalmente muito diferentes, mas pouco ou nada se debate sobre as diferenças, salvo em fóruns e grupos muito especializados.
Não seria impossível ou difícil comparar as propostas dos projetos de governo. Focam-se os debates em temas de alta complexidade, tratados como se fossem simples. E este problema não é da “imprensa”. É também das campanhas e ainda da sociedade que não clama por estas comparações.
Enquanto seguirmos nas superficialidades, não poderemos reclamar dos governos, porque eles entregam superficialidade. Ou, de fato, entregam os interesses para aqueles que demandaram e dialogaram sobre os interesses. Mas isso faz com que as grandes pautas que efetivamente importam às massas fiquem muito fora das pautas e dos debates.
Não é de se estranhar que uma boa parte da população crie repulsa pela política e políticos, pois o que se debate e o que se conversa foca nos afetos e não nos interesses. Foca-se na fofoca e não nas causas. Foca-se em poucos efeitos e não nos problemas e possíveis soluções. Reduz-se a discussão e não são enfrentados os problemas totais ou reais.
Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
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