

Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – Os debates eleitorais na televisão estão cada vez mais distantes do propósito original: confrontar propostas de governo. A avaliação é da pesquisadora Catharina Vale, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, em entrevista ao ATUAL.
“Esta é uma questão que tem dividido opinião de especialistas, pois há quem acredite que os debates ainda são importantes, dão oportunidades para quem não tem muito tempo de TV. Por outro lado, há quem compreenda que os debates estão reféns dos cortes e do uso fragmentado, dada a baixa audiência que têm”, explica. “Eu alinho-me mais com o grupo que compreende que os debates precisam ser repensados para que o objetivo de confrontar ideias e propostas seja resgatado”.
Segundo Catharina Vale, o modelo criado há 37 anos no Brasil não acompanhou as transformações na relação entre eleitorado, partidos e candidatos. “Não é tanto o tempo. Considerando a transformação da tecnologia de comunicação e as relações entre eleitorado, partidos e eleitores, compreendemos que mudou muita coisa”, diz.
Fragmentação do debate
Catharina Vale cita dois exemplos para ilustrar a mudança. O primeiro é a entrevista do então candidato Jair Bolsonaro à Rede Globo dois meses antes da eleição de 2018.
“A emissora proibia que os candidatos levassem qualquer material para a entrevista, mas foi exatamente o que o então candidato fez. Mostrou um livro, fez acusações infundadas e usou os cortes em suas redes sociais, principalmente no Facebook, o então Twitter e o WhatsApp”, relembra.
O segundo é o caso de Pablo Marçal, na campanha municipal de 2024, que promoveu os chamados “campeonatos de cortes”, estratégia que levou à abertura de um processo contra ele ainda em andamento.
Para a pesquisadora, esses fragmentos retiram as falas de contexto e prejudicam a compreensão dos eleitores.
“Os cortes publicados, ou seja, os fragmentos nas redes sociais dos candidatos, retiram falas de contexto para apresentar conteúdos considerados dinâmicos e que engajem nas redes. Não há espaço para apresentar posicionamentos e programas de governos na integridade e isso prejudica a capacidade de interpretação dos eleitores, que consomem a política pelas redes sociais. Esse formato alimenta e reforça vieses de apoiadores, fecha as pessoas em um ‘feed’ menos plural. E sem pluralidade, debate e interpretação, a democracia fica ameaçada”, avalia.
Ela chama atenção ainda para uma mudança de linguagem. “Na execução e circulação desses cortes, os eleitores são, com frequência, referidos como ‘usuários’ ou ‘seguidores’. A gente percebe já daí que há uma transformação na relação e nos valores. O eleitor quer saber das propostas, mas e o usuário, e o seguidor?”, questiona.

Segundo Catharina Vale, esses trechos virais são uma estratégia política que reflete o momento atual, no qual as redes sociais se tornaram protagonistas da arena pública, e também respondem a um comportamento crescente, sobretudo entre jovens, de autoproteção emocional diante da hostilidade digital.
Quem escolhe quem
Questionada se o eleitor ainda escolhe o candidato ou se é escolhido por algoritmos, Catharina evita resposta simples. Ela lembra que uma democracia saudável depende de três pilares: partidos, eleitores e mídia livre.
“Quando a gente mexe em um desses três elementos, o jogo fica desequilibrado. Ora, hoje estamos falando cada vez menos dos partidos e mais das personalidades políticas, ou seja, temos uma política cada vez mais personalizada”, afirma.
Para ela, os eleitores são tratados, confundidos e colocados no papel de usuário ou seguidor, enquanto a mídia livre, além de sofrer ataques constantes, compete com empresas privadas que dominam algoritmos e dados sobre políticos, eleitores e a própria imprensa.
Segundo a pesquisadora, o resultado é um jogo político alterado. “O político tem a impressão de estar mais próximo do seu eleitor-usuário e o usuário acha que está mais próximo da personalidade política, mas afastada do coletivo, do partido, da ideologia partidária”.
Nessa dinâmica, afirma, tanto o político quanto o eleitor acabam alimentando algoritmos de empresas com interesses comerciais.
Catharina Vale questiona ainda o papel de cada plataforma, pois os algoritmos variam entre redes sociais.
“Que opções de escolha tem um usuário que tomado por medo, cansaço e ansiedade, acredita fazer uma curadoria e prefere viver em bolhas digitais, com forte atuação dos algoritmos? Esses usuários não têm uma visão plural das campanhas, mas, cada vez mais, uma visão homogênea”, diz. “Não conseguimos saber por completo, pois não há transparência suficiente, tampouco política pública que alcance isso. Então, segue a reflexão conjunta: quem está selecionando quem?”
Emoção e polarização
Para a pesquisadora, o apelo emocional sempre existiu na política, mas hoje há um desequilíbrio. “Não podemos responsabilizar as redes sociais sozinhas pela transformação do pleito eleitoral e a percepção da política. Há muito mais nesse contexto além da acelerada transformação comunicacional”, pondera.
Ela cita crises institucionais, o enfraquecimento de partidos e instituições, ataques à mídia profissional e a polarização acirrada como fatores que esvaziam as emoções na política, reduzindo tudo a “gosto ou não gosto”, “amigo ou inimigo”. “Na política não podemos balizar nossas emoções em ‘amigo ou inimigo’, estamos falando de adversários que respeitamos”, afirma.
Segundo ela, as redes sociais aceleraram processos e deram à política um alcance sem precedentes, criando uma falsa sensação de proximidade, a ideia de que não é mais necessário um ‘gatekeeper’, um filtro tradicional da comunicação. “Essa aparente ideia de proximidade, de não ser necessário um ‘guardião’, permitiu que as regras diplomáticas do jogo político fossem rompidas. Ofensas diretas permitiram que adversários políticos fossem tratados como inimigos e isso transformou a política para além das eleições”, diz.
Individualismo e risco à democracia
Catharina também analisa como o individualismo incentivado pelas redes sociais afeta o campo político. Para ela, os algoritmos de cada plataforma empurram os usuários para uma visão única de mundo, microssegmentada como nenhuma outra mídia havia conseguido antes. “E ver o mundo pelo feed somente traz o risco de abrir mão da pluralidade”, afirma.
Ela reconhece que é legítimo o usuário cansado e com medo de conflito preferir evitar desgastes. “É legítimo que o usuário cansado e com medo de conflito, prefira evitar desgastes ou cancelamentos e prefira acessar e receber só o que lhe faz bem pelas redes. Como dizem os memes: é para ‘evitar fadiga’”, diz.
Mas alerta que, muitas vezes sem perceber, esse usuário abre mão da sua real possibilidade de escolha. “Viram quase que reféns de uma censura interna, passam a vigiar mais a si e aos outros”.
Segundo Catharina Vale, o medo de se expor faz os usuários atuarem como espectadores, sem participar ativamente do debate. “Há ainda uma ausência de espaço para um real debate nas redes sociais. Por receio de se expor, os usuários operam como voyeurs, como vigilantes, e perdem a confiança no outro”.
A ‘Curadoria do Eu’
Catharina relaciona esse cenário a um conceito que desenvolveu durante um estudo com jovens de 18 a 34 anos em metrópoles brasileiras: a “Curadoria do Eu”. Para ela, o usuário acredita estar selecionando conteúdo para se proteger, mas na verdade está sendo selecionado pelas plataformas.
“Nesse processo, pensam conseguir fazer uma curadoria para si, para se proteger, mas acabam por fazer uma curadoria sobre si, para os outros e principalmente para as empresas. A curadoria do eu facilita compreender como é complexa essa relação de usuários e redes sociais”, explica.
Ao unir esse conceito ao campo político, ela afirma: “Quando envolvemos a política nesse contexto, percebemos que a microssegmentação, as bolhas digitais, o cansaço, o desejo de ter maior controle sobre o que acessa e o que vê, a predileção por personalidades políticas ao invés de projetos políticos, essa combinação leva a uma visão mais homogênea. Essa visão mais homogênea do mundo pode contribuir para pensamentos e posicionamentos mais hegemônicos, uma ameaça real à democracia”, conclui.
Ela resume ainda o dilema do eleitor-usuário nos dias de hoje: “O paradoxo é cruel: o eleitor, movido pelo desejo de poupar tempo, abdica de seu dever crítico. Ao consumir apenas o recorte, ele permite que sua pluralidade seja massacrada. Simplifica algo que pela sua natureza é complexo e, sem perceber, abre mão da própria política, preso no mecanismo que é pensado para um consumo fragmentado das relações e da informação”.
Catharina lança em setembro o livro “Curadoria do Eu: quem está selecionando quem?”, com os resultados completos de uma pesquisa qualitativa feita entre 2019 e 2024.
