
Do ATUAL
MANAUS – A apreensão de 700 quilos de maconha skunk na madrugada desta quinta-feira (23) no Rio Negro, próximo da Comunidade do Tupé, em Manaus, chamou atenção por um detalhe nos pacotes: a imagem de duas freiras estilizadas, usando óculos escuros, correntes douradas e roupa com estampa similar a de uma grife. É um logotipo gerado por inteligência artificial e utilizado pelo crime organizado para identificar e dividir a droga entre as facções.
Segundo o secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Anézio Brito de Paiva, essas estampas funcionam como uma espécie de “nota fiscal” informal: como grupos diferentes se associam para dividir custos e riscos do transporte fluvial, o ‘selo’ indica a qual consórcio pertence cada lote, facilitando a separação da carga no destino final.
“É justamente para identificar o consórcio, a quem pertence esse entorpecente. Eles fazem consórcios para trazer essas cargas pesadas e dividir os custos e os riscos de atravessar os nossos rios. Ao chegar ao destino, cada grupo recolhe exatamente o lote que lhe pertence”, explicou o secretário.

A prática é comum na rota amazônica: os ‘selos’ atestam a pureza do produto, identificam financiadores e ajudam a rastrear destinos. Foram usados símbolos de marcas de luxo (Louis Vuitton, Gucci, Ferrari) para cocaína, personagens pop (Coringa, Simpsons) para maconha, além de animais e ícones religiosos.
Ironicamente, essa “marca registrada” do tráfico virou ferramenta de inteligência policial: ao identificar o mesmo ‘selo’ em apreensões de diferentes estados, as polícias conseguem cruzar informações e mapear rotas fluviais ativas e as facções ligadas a cartéis internacionais.
Quando um pacote com o mesmo ‘selo’ — como o da “freira de grife” — é apreendido em Manaus e, semanas depois, outro lote idêntico é localizado em São Paulo, no Rio de Janeiro ou no Nordeste, os peritos conseguem cruzar dados de DNA do material, estilo de prensagem e fornecedor.
