
Do ATUAL, com Ascom Ufam
MANAUS – Gordura gerada por restaurantes e empresas do Polo Industrial de Manaus é transformada em combustível como biogasolina, bioquerosene, diesel verde e até um combustível equivalente ao bunker usado em navios.
A transformação química ocorre em laboratório da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) pelo Grupo de Pesquisa em Tecnologias Biossustentáveis da Amazônia. A matéria-prima é a gordura coletada nas caixas de gordura do polo industrial, um resíduo que termina, em grande parte, em incineradores.
O responsável pela pesquisa é o professor Douglas Alberto Rocha de Castro, doutor em Engenharia de Recursos Naturais da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e docente do Departamento de Engenharia Química da Faculdade de Tecnologia da Ufam desde 2024. Ele também integra os programas de pós-graduação em Engenharia Civil e em Engenharia Mecânica da Ufam.
Antes de entrar no reator, o material passa por um pré-tratamento para retirar água, areia e, principalmente, os saponificáveis, substâncias que formam sabão e que, nos testes iniciais, faziam a gordura se expandir dentro do equipamento e comprometer o desempenho do catalisador.
“A gente realiza o processo de desaponificação da gordura, retira os sabões solúveis, faz lavagens com água para tirar o excesso de ácido e aí insere ela no reator de craqueamento”, explica o professor.
Dentro do reator, ocorre o craqueamento termocatalítico: a gordura é aquecida até que suas as cadeias de carbono sejam quebradas em fragmentos menores. Esse processo de quebra molecular é o que transforma um material com baixo poder calorífico em compostos semelhantes aos derivados do petróleo.
No segundo estágio, com um catalisador em leito fixo desenvolvido pela equipe, é que se aperfeiçoa o resultado obtido naquela primeira etapa: os gases gerados passam por esse material e saem com menos compostos oxigenados e maior concentração de hidrocarbonetos, e é isso que interessa para a produção de combustíveis.
“Quando eu não uso o catalisador, eu tenho em torno de 50% de hidrocarboneto. Quando eu uso, vou para 90%”, explica o professor. O rendimento do produto bruto para os biocombustíveis é considerado promissor pelo próprio pesquisador: de cada 1 kg de gordura processada, o grupo obtém cerca de 700 gramas de bio-óleo, o que representa uma taxa de conversão de aproximadamente 70%.
“O processo mimetiza com perfeição uma refinaria de petróleo tradicional, mas ele tem duas grandes vantagens: utiliza um catalisador próprio e uma matéria-prima 100% renovável e residual”, comemora Douglas Castro.
Da gordura ao combustível
Depois do craqueamento, o bio-óleo ainda não está pronto para uso. Ele passa por um processo de destilação fracionada, o mesmo princípio usado nas refinarias convencionais: o material é aquecido em colunas e separado por faixas de temperatura. Cada faixa corresponde a um produto diferente.
Bionafta: a fração mais leve, usada como matéria-prima na petroquímica para produção de plásticos. A composição obtida em laboratório ficou próxima à da nafta convencional.
Biogasolina: já apresenta parâmetros físico-químicos dentro das especificações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A equipe planeja testes com misturas a partir de 5% de biogasolina na gasolina comum, que devem ser realizados no Laboratório de Termociências da própria Ufam.
Bioquerosene: O ponto de congelamento medido foi de -20°C, enquanto o querosene de aviação comercial exige no mínimo -40°C. O produto já atende a faixas menos exigentes de aviação de pequeno porte, mas ainda não pode ser chamado de SAF (Combustível Sustentável de Aviação) por questões regulatórias. Esse produto ainda está em ajuste.
Diesel verde: entre os produtos mais próximos da especificação convencional. Viscosidade cinemática e outros parâmetros já estão dentro dos limites exigidos.
Bio HFO (biobunker): obtido numa segunda etapa de destilação a vácuo, é o combustível equivalente ao usado em motores de navios. O produto foi obtido recentemente e ainda aguarda análises completas.
O material que sobra no fundo da destilação a vácuo tem potencial como ligante asfáltico, um insumo usado na pavimentação de estradas. Ele já vem sendo testado no laboratório de pavimentação da Universidade e vem passando por ajustes para chegar ao ponto ideal.
No presente estágio, o projeto de pesquisa é financiado pela Fapeam (Fundação de Ampara à Pesquisa do Estado do Amazonas).
