
Por José Maria Tomazela, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – Um menino de 9 anos sofreu ferimentos leves ao saltar de rope jump com a mesma equipe envolvida no salto que resultou na morte da jovem Maria Eduarda de Freitas, de 21 anos, em Limeira, no interior de São Paulo.
Segundo informações da Polícia Civil, a criança é filha de um homem que prestava serviços à “Entre Cordas”, empresa que realizou o salto de Maria Eduarda na Ponte do Esqueleto, sem que ela estivesse presa à corda de segurança.
No salto, realizado em março deste ano, três meses antes da morte da jovem, ocorrida no dia 13 de junho, o menino teve a corda de sustentação retirada antes da conclusão do salto. Isso fez com que o corpo da criança, que ainda fazia o pêndulo, batesse contra o chão, resultando em escoriações de natureza leve.
A empresa tem como responsável Evelyne dos Santos Gonçalves, de 43 anos, que está presa em razão da morte da jovem. Sobre o salto do menino, o advogado Maurício Marchiori, que defende Evelyne, disse que ainda vai conversar com ela a respeito. “Não ouvi nada dela sobre isso e vamos avaliar a partir dessa conversa”, diz.
O relato do ocorrido foi feito pelo pai do menino, que teve a identidade preservada por ser testemunha no processo que apura a morte de Maria Eduarda. Ele contou que prestava serviços eventuais à equipe da empresa, trabalhando como segurança nos finais de semana. Sua função era ajudar no suporte à equipe e, na condição de prestador de serviços informais, chegou a participar de quatro eventos realizados na Ponte do Esqueleto.
Entre as suas atribuições estavam fazer o lançamento de corda auxiliar após o salto, recolher equipamentos, transportar câmeras de filmagem e organizar a chegada dos participantes à área de saltos.
O convite para que o menino fizesse o salto ocorreu depois de dois anos de convivência com a equipe. O salto com a criança foi feito em dia comum, fora de um evento organizado, mas ele não informou a data exata.
Segundo o pai, o menino ainda estava em movimento pendular quando a corda foi solta. Com isso, seu corpo raspou no solo, causando escoriações, principalmente no joelho. O menino relatou ter batido levemente a cabeça, mas sem provocar contusão. Como o ferimento no joelho era leve, constando apenas de arranhões, o genitor não considerou necessário levar o filho a uma unidade médica e ele mesmo tratou as escoriações.
Salto com criança não é recomendado
Um dos presos pela morte de Maria Eduarda, o instrutor Luís Felipe Feliciano Egoroff já publicou em suas redes sociais ao menos cinco fotos ou vídeos em saltos com crianças. Nas imagens, Luís pula com os menores de idade em seu colo, presos a ele por meio de cordas e equipamentos. Todos estão de capacete.
A Associação Brasileira de Rope Jump e Pêndulo Humano recomenda que os saltos não sejam realizados por menores de 12 anos. Entre 12 e 18 anos, orienta-se a autorização e presença obrigatória dos responsáveis no local.
Indiciamento
A Polícia Civil concluiu, na quarta-feira (1º), o segundo inquérito instaurado para apurar as circunstâncias da morte de Maria Eduarda e indiciou a organizadora do evento, Evelyne Rodrigues de Freitas, de 43 anos, por homicídio qualificado. A investigação prossegue quanto à apuração do paradeiro da câmera que a vítima usava no corpo. O equipamento desapareceu após a queda da jovem.
O defensor de Evelyne disse que discorda do indiciamento e que as teses defensivas serão apresentadas no momento oportuno. “O relatório final ainda será enviado ao Ministério Público, que vai avaliar se oferta denúncia. Se ofertar, o Judiciário pode acolher ou não a denúncia. Só então, caso seja acolhida, vamos fazer a defesa técnica”, disse ao Estadão.
No primeiro inquérito, concluído em 22 de junho, a polícia já havia indiciado por homicídio com dolo eventual – quando não há intenção, mas se assume o risco de matar – os três instrutores que aparecem no vídeo lançando Maria Eduarda sem cordas de cima da Ponte do Esqueleto. Luís Felipe Feliciano Egoroff, de 32 anos, Maicon Fernandes Cintra, de 42 anos, e Vitor de Freitas Gonçalves, de 27 anos, estão presos preventivamente em Guarulhos.
A defesa deles disse discordar do indiciamento por dolo eventual, pois não houve intenção de causar a morte da jovem. Um pedido de habeas corpus para que os presos respondessem em liberdade foi negado pela Justiça.
