
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS — A vida urbana tem causado estresse e esgotamento físico. Estudiosos do tema afirmam que além de transtornos mentais, as cidades têm gerado distanciamento social e alterado também as relações de trabalho e lazer.
“Muita gente já não está vivendo. Está apenas funcionando. É no modo piloto automático, sobrevivendo e chamando isso de vida”, diz a médica psiquiatra Alessandra Pereira.
“As pessoas estão tentando fazer o que é possível da melhor forma que conseguem: trabalhando, cuidando da família, usando telas para se distrair, buscando sua espiritualidade, atividade física, terapia, medicação prescrita e também por conta própria, ou simplesmente deixando a vida levar”, diz a psiquiatra.
Os problemas emocionais são diversos. “Cansaço persistente, irritabilidade, ansiedade, insônia, dificuldade de atenção, esgotamento físico e mental, impaciência, crises de choro, queda da produtividade e sensação de estar sempre atrasado, de não ter calor e ser incapaz”, enumera Alessandra Pereira.
Segundo a profissional, em Manaus o calor é estafante, o trânsito consome horas no deslocamento, a insegurança nas ruas e o excesso de estímulos vindos das telas têm efeito direto sobre o sistema nervoso. “O cérebro não foi projetado para ser multitarefa dessa forma. Ele interpreta tudo isso como ameaça ou sobrecarga. A pessoa fica mais tensa, mais reativa, dorme pior, se alimenta pior e perde capacidade de descanso real. Não é frescura”, alerta.

Efeitos na mente e no corpo
A psicóloga Alcilene Moreira, responsável técnica da Clínica-Escola de Psicologia do UniNorte, descreve o mesmo processo. “É um acúmulo sem descanso. O trânsito tira o controle emocional, o barulho impede o cérebro de se recuperar, a grana curta mantém o alerta ligado com as preocupações com os boletos”, cita Alcilene. O resultado aparece no corpo, de acordo com ela. “Crises de pânico, dores sem causa, insônia, ansiedade são alguns dos principais sinais desse esgotamento”, acrescenta.
Para Alessandra Pereira, existe uma linha entre o desgaste natural e o adoecimento. “O cansaço deixa de ser normal quando ele não melhora com descanso, quando começa a prejudicar o sono, a pessoa fica de mal humor, sem memória, prejudica o trabalho, os relacionamentos e até o prazer de viver”, explica.
O efeito da pressão urbana ocorre, segundo a psiquiatra, ocorre logo pela manhã. “Quando a pessoa acorda e já está cansada, vive irritada, perde interesse pelas coisas e sente que está sempre no limite, já existe sinal de adoecimento”, afirma.
Antes de qualquer diagnóstico formal, o corpo costuma dar avisos, diz Alessandra Pereira. “O corpo sussurra, mas se ninguém escuta, depois ele grita pelo socorro”, diz a profissional.
Os sinais incluem dores musculares, dor de cabeça, gastrite, alteração intestinal, palpitações, falta de ar, queda de imunidade, compulsão alimentar, tensão na mandíbula, bruxismo e insônia, enumera ela. Nos casos mais graves, acrescenta a psiquiatra, há ainda queda de cabelo e doenças reumatológicas.
Há uma cena que se repete, relata Alessandra Pereira. “Muitas vezes a pessoa diz: meus exames estão normais, mas eu não estou bem. Vai no médico, faz um monte de exame e não encontra nada de errado”.

Sozinho na multidão
A solidão é outro sintoma da vida urbana acelerada em Manaus, segundo as especialistas. A capital tem mais de dois milhões de pessoas e muitas se sentem completamente sozinhas. Para Alcilene Moreira, a explicação está no tipo de contato que a vida urbana produz.
“Proximidade não é vínculo. Andamos de fone no ouvido, resolvemos tudo por mensagem. Você esbarra em centenas de pessoas, mas não conversa de verdade com nenhuma. Sem vínculo, não há segurança emocional e sem segurança emocional acabamos não criando conexões verdadeiras”, diz a psicóloga.
Entre as queixas que chegam ao consultório da psicóloga estão ansiedade, burnout e luto mal elaborado. Há também queixa sobre medo do futuro.
O sociólogo e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Marcelo Seráfico, analisa o desgaste urbano de outra forma. “Ao mesmo tempo que você está nessa agitação da vida na cidade, de que participam milhares de pessoas, ao mesmo tempo você está isolado. Os contatos são fragmentados, são breves, e o tempo de compartilhamento de uma vida comum é cada vez menor”, diz Marcelo Seráfico.
O sociólogo traça o perfil de um trabalhador médio de Manaus. “Se a gente imagina que um trabalhador precisa sair de madrugada de casa e volta do trabalho sendo otimista no início da noite, ou às oito horas da noite, depois de uma jornada de oito, dez, doze horas de trabalho, tendo gasto de uma, duas horas, ou quatro horas de trânsito, em transporte, sem contatos substantivos que não sejam aqueles vinculados ao trabalho, essa é uma vida quase que toda ela esgotada pelo trabalho. É uma vida que implica cansaço, alienação de si e alienação do produto do próprio trabalho”, afirma.
Espaços privados
O problema começa no modo como a cidade foi pensada. “A cidade vem sendo pensada e organizada de modo a privilegiar os espaços privados, com bairros dotados de serviços, saneamento, água, eletricidade, e aqueles bairros em que todos esses serviços são precários ou precaríssimos. O que tem a ver com essa imagem de Manaus como a segunda capital mais favelizada do país, perdendo apenas para Belém”, diz Marcelo Seráfico.
O professor menciona o que chama ‘lógica da aceleração’ que organiza a vida dentro desse espaço. “Se combinamos um espaço público com serviços públicos precários, combinado a uma aceleração da vida vinculada ao estímulo próprio das sociedades capitalistas, a aceleração do tempo, ao aumento da produtividade, à quantificação do desempenho, ao ranqueamento das pessoas, nós temos uma situação que não é apenas de adoecimento, mas é de enlouquecimento das pessoas”, afirma.

Até que ponto o sofrimento é da própria pessoa e até que ponto é causado pelo ambiente? “Existe sim aumento real dos transtornos mentais, mas também existe uma reação humana, uma falha de adaptação a ambientes cada vez mais estressantes. O problema não está só dentro da pessoa. Muitas vezes, o ambiente urbano está adoecendo pessoas que tentam funcionar como se fossem máquinas”, diz Alessandra Pereira.
Alcilene Moreira concorda: “A pessoa não ficou doente do nada. Está reagindo ao caos. É sofrimento adaptativo crônico e se persistir, pode acabar virando transtorno. Precisamos de cidades mais saudáveis, não só de terapia”, afirma a psicóloga.
Causa e efeito
Marcelo Seráfico alerta para o risco de reduzir tudo a uma questão individual. “Há uma tendência a tratar o sofrimento psíquico através da medicamentalização, dos usos de medicamentos, e não através de terapias que ajudem o sujeito a descobrir quais são as fontes do seu sofrimento. Ao invés de superar esses nós que atam o indivíduo no seu próprio sofrimento, nós oferecemos como solução as mercadorias comercializadas pela indústria farmacêutica, como se isso fosse suficiente”, diz o professor.
Ele lembra que não é a primeira vez que a vida urbana produz uma doença predominante. “Se no século 20 ou no início do século 20 a neurose era a grande doença, hoje é a depressão”, diz Marcelo Seráfico.
Desacelerar para desestressar
Quanto ao que é possível fazer para viver bem no espaço urbano, Alcilene Moreira propõe ações práticas para o dia a dia. “Desacelerar de propósito, fazer exercício de respiração diafragmática, criar rituais de transição entre trabalho e casa, fazer caminhada e tomar um banho demorado. Também se deve reconstruir microvínculos: cumprimentar o porteiro, conversar na feira. São pequenas ilhas de calma ativas”.
Alessandra Pereira compartilha das sugestões. “A solução começa por você reconhecer seus limites, criar pausas reais, reduzir excesso de estímulos, cuidar do sono, do corpo, dos vínculos e buscar ajuda quando necessário”, afirma a psiquiatra. Ela menciona ainda uma iniciativa que cresce justamente por conta desse problema. “Existe uma área da arquitetura chamada design biofílico para pensar nos ambientes com elementos naturais que acalmem a mente”, diz a psiquiatra.
No campo estrutural, Marcelo Seráfico defende mudanças que mexem na base. “Jornadas de trabalho mais curtas e melhorias na remuneração do trabalho permitem aos sujeitos despender mais tempo com outras atividades que não apenas aquelas laborais e, portanto, usufruir da vida em ambientes outros”, afirma o sociólogo.
O professor vai além. “Já seria possível reduzir essa jornada para quatro dias de trabalho e três de descansos, sabendo que a produtividade do trabalho aumenta muito mais quando o descanso e a possibilidade de desfrutar desse tempo de não trabalho fazendo outras coisas aumenta a produtividade naquele dia de trabalho”.
Ele cita ainda os rios, os igarapés e as matas da Amazônia como espaços que poderiam ser recuperados para outro tipo de convivência. “Novos usos dos rios, dos igarapés, das matas, atividades nesses espaços de vínculo ou de retomada de um certo tipo de vínculo e convivência com a natureza. Museus, teatros, exposições de arte. Seria mais do que necessário estimular a nossa sensibilidade e dispor do nosso tempo para atividades outras que não aquelas que estimulam ou provocam o estresse”.
O professor é realista sobre a resistência que essa agenda encontra em muitas pessoas. “Parece que é pedir muito ou sugerir muito à classe dominante, que já apresenta enorme resistência para uma medida mínima como essa de redução da jornada de trabalho”, afirma Marcelo Seráfico.
“Saúde mental não é luxo. É necessidade. É estratégia de sobrevivência emocional”, concorda Alessandra Pereira.
