
Da Agência Gov
BRASÍLIA – No Dia do Trabalhador, nesta sexta-feira (1º), o debate sobre o futuro do trabalho ganha novos contornos à luz de evidências recentes. Estudos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ajudam a qualificar discussões que vão da possível redução da jornada 6×1 aos custos do transporte coletivo no orçamento das famílias, passando por lacunas na produção de dados sobre a população trans e pelas transformações em curso no mercado de trabalho.
Em comum, as análises mostram a necessidade de políticas públicas baseadas em evidências, capazes de equilibrar eficiência econômica, inclusão social e proteção ao trabalhador em um cenário de mudanças estruturais.
Fim da jornada 6×1
Referência no debate sobre a redução da jornada de trabalho, o Ipea analisou os efeitos econômicos da eventual redução da jornada hoje predominante de 44 horas semanais, associada à escala 6×1. Os custos de uma eventual redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais seriam similares aos impactos observados em reajustes históricos do salário-mínimo no Brasil, o que indica uma capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho.
Considerando os grandes setores, como indústria e comércio, nos quais estão mais de 13 milhões de trabalhadores, o impacto direto de uma redução da jornada para 40 horas seria inferior a 1% do custo operacional. Os resultados indicam que a maioria dos setores produtivos apresenta capacidade de absorver aumentos nos custos do trabalho, ainda que alguns segmentos demandem atenção específica.
A análise feita pelos técnicos de planejamento e pesquisa Felipe Pateo e Joana Melo e pela bolsista Juliane Círiaco trata a redução da jornada de trabalho como um aumento do custo da hora trabalhada, adotando uma abordagem distinta de parte da literatura acadêmica, que tende a associar a redução da jornada a uma queda automática do PIB.
Os autores argumentam que não necessariamente o aumento do custo do trabalho implica redução da produção ou aumento de desemprego. Segundo eles, o Brasil já enfrentou choques relevantes no custo do trabalho, como os associados a aumentos do salário-mínimo. Aumentos reais, que chegaram a 12% em 2001, 7,6% em 2012 e 5,6% em 2024, não causaram efeitos negativos sobre o nível de emprego. A redução da jornada de trabalho prevista na Constituição de 1988 também não teve impacto negativo sobre o emprego.

Peso do transporte
A criação de uma contribuição social sobre a folha de pagamento para financiar o transporte coletivo e seus efeitos distributivos potenciais também foi foco de um estudo recente. A proposta tem ganhado força no debate público e tem grande importância para o trabalho brasileiro: os gastos com transporte podem comprometer até 20% do orçamento dos trabalhadores de baixa renda.
O estudo indica que o instrumento apresenta potencial para ampliar o financiamento do setor e reduzir tarifas, bem como produz um efeito distributivo que potencialmente beneficiaria a população de baixa renda, que é a maior usuária do transporte coletivo.
As simulações indicam que mesmo alíquotas abaixo de 1% poderiam gerar receitas expressivas. Em cenários analisados, uma contribuição entre 0,5% e 1% sobre a folha de pagamento seria suficiente para ampliar de forma significativa o volume atual de subsídios ao setor em diversas cidades.
Lacunas sobre população trans
Um estudo do Ipea mapeou sistematicamente as bases de dados oficiais que registram informações relacionadas a pessoas trans no Brasil , inclusive sobre mercado de trabalho. Intitulado ‘A representação de pessoas trans nas bases de dados oficiais do Brasil’, o estudo identificou doze fontes federais, distribuídas em seis eixos de políticas públicas: registros de identidade; assistência social; educação; saúde; trabalho e previdência; e vitimização e direitos humanos.
Mas nos registros ligados ao trabalho e à previdência, como Rais e CNIS, o estudo mostrou que a inclusão do nome social ocorreu de forma tardia e incompleta. Embora o eSocial tenha incorporado esse campo, os dados continuam sendo majoritariamente sigilosos e pouco acessíveis para fins analíticos.

Mercado de trabalho
O Ipea também produz o Boletim Mercado de Trabalho. A última edição trouxe reflexões sobre os caminhos para proteger o trabalhador brasileiro, dos jovens em busca do primeiro emprego às pessoas que enfrentam o desemprego. Fatores que condicionam a trajetória do egresso de programas de aprendizagem no mercado de trabalho foram analisados em um dos artigos.
O levantamento, com base na RAIS (2008–2018), mostra que a intensidade da aprendizagem é o principal determinante da trajetória pós-programa. Jovens que permanecem mais tempo como aprendizes (3º tercil de duração) têm 36,8% mais chance de conseguir o primeiro emprego formal e risco 4,2% menor de desligamento desse primeiro emprego, em comparação aos que ficam menos tempo (1º tercil).
Entre os demais fatores, homens ingressam um pouco mais rápido no primeiro emprego (chance 4,3% maior) e jovens de 19 a 24 anos apresentam 40,1% mais probabilidade de admissão do que os mais novos. Durante o contrato de aprendizagem, homens e indivíduos mais velhos têm menor risco de desligamento, enquanto ocupações industriais exibem maior chance de encerramento do vínculo.
A edição nº 80 do BMT também mostra o cenário do mercado de trabalho no país. A força de trabalho (total de pessoas acima de 14 anos que estão empregadas ou procurando emprego) alcançou 108,6 milhões de pessoas, o equivalente a 62,4% da população em idade ativa, enquanto o número de ocupados chegou a 102,3 milhões, correspondendo a 94,2% da força de trabalho.
A taxa de ocupação — proporção de pessoas empregadas em relação à população em idade ativa — atingiu 58,8% no segundo trimestre de 2025, o maior nível para o período em toda a série histórica e três pontos percentuais acima do patamar pré-pandemia. A taxa de participação – parcela da força de trabalho na população em idade ativa – também cresceu, registrando 62,4%, com alta de 0,3 ponto percentual na comparação anual.
A próxima edição do BMT será lançada no dia 6 de maio, das 15h30 às 17h30, com debates sobre inteligência artificial e mais, em Brasília (sala Ana Bete) e na Gerência Regional no Rio de Janeiro.
Projetos sobre o trabalho
Além de estudos recentes sobre trabalho e emprego, o Ipea tem projetos que geram dados sobre o tema de forma contínua. O Atlas do Estado Brasileiro, por exemplo, é uma plataforma de dados integrados sobre o funcionalismo público, em seus três níveis federativos (federal, estadual e municipal) e dos três Poderes.
Além do trabalho de integrar dados, o propósito da plataforma é detalhar, analisar e disponibilizar as informações, de forma estruturada, ao público interessado.
O projeto Acesso a Oportunidades traz estimativas de acesso a postos de emprego, saúde e educação por modo de transporte para as maiores cidades do Brasil. A pesquisa utiliza diferentes indicadores para estimar as condições de acessibilidade urbana desagregadas por grupos socioeconômicos e em alta resolução espacial.
Enquanto isso, o Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça visa disponibilizar informações sobre a situação de mulheres, homens, negros e brancos no Brasil. Para tanto, apresenta indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, sobre diferentes campos da vida social, de forma a oferecer um panorama atual das desigualdades de gênero e raça no país e suas interseccionalidades.
