
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – A Amazônia sofre “dupla exclusão”, territorial e estrutural, que limita a produção sustentável de alimentos. A restrição ao acesso a serviços básicos dificulta oportunidades de desenvolvimento econômico na região, diz Pedro Boareto, coordenador de projetos da FAO (Organização das Nações Unidades para a Agricultura e Alimentação) para a América Latina e o Caribe.
Entre os principais obstáculos estão a falta de acesso à terra, de assistência técnica diferenciada, de crédito e a escassez de investimentos. A questão fundiária, segundo Pedro Boareto, é central pois a agricultura precisa de espaço físico.
“O que a gente tem visto é que onde tem agricultura familiar, onde tem povos indígenas, existe preservação ambiental, existe o processo de reflorestamento, não há uma contradição entre produção e conservação quando políticas aterrizam nesses setores”, afirma Boareto.
“Então, o que a gente tem visto aqui é que essa discussão de produção e conservação, ao olhar para a realidade do que são os agricultores familiares, do que são os povos indígenas, ela deixa de existir porque aí é onde a gente vê que tem soluções, que tem conteúdos que nos permitam seguir avançando na produção de alimentos saudáveis e ao mesmo tempo conservando a floresta amazônica”, explicou Boareto.
Os desafios para a produção sustentável de alimentos na região são debatidos em Manaus na “Semana da Amazônia: Desenvolvimento Rural Sustentável e Sistemas Agroalimentares”. O evento reúne representantes de países do Mercosul e termina nesta quinta-feira (4).

Entre os temas está o conceito de desenvolvimento rural sustentável, que, segundo os especialistas, envolve a valorização de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais como protagonistas da produção de alimentos e da preservação ambiental.
O consenso no evento é que transformar o potencial da sociobiodiversidade amazônica em oportunidades concretas de desenvolvimento inclusivo ainda é um desafio. Produtos típicos da região, como o açaí, o tambaqui, o pirarucu e os bagres migratórios, têm grande valor econômico e ambiental, mas precisam de investimentos estruturantes para gerar inclusão socioeconômica em larga escala.
A proposta central é avançar em políticas de desenvolvimento rural sustentável que valorizem a agricultura familiar, incluam povos indígenas e comunidades tradicionais e reconheçam a contribuição desses setores para a conservação da floresta.
“O núcleo comum é diálogo e política diferenciada que canaliza investimento, que canaliza oportunidades e que reconheça e escute as vozes que vêm da população amazônica”, afirmou Boareto.
O evento em Manaus, escolhido por ser o “coração da Amazônia” e aproveitar o impulso do governo brasileiro na agenda de transformação rural sustentável, reúne representantes de nove países: Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Equador, Peru, Suriname e Bolívia. Também participam representantes de universidades, organizações indígenas e movimentos sociais.
Os debates envolvem a governança fundiária na Amazônia; o fórum “Habitar a Amazônia e Alimentar o Futuro”, sobre o papel das cidades amazônicas; e os diálogos de bioeconomia e transformação rural inclusiva, vinculados à Declaração de Belém de 2003.
“O objetivo principal é que exista um movimento de integração entre povos e países, um processo de integração regional que fortaleça a capacidade inovadora existente na Amazônia”, concluiu Boareto.
