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Variedades

Fotógrafo Raphael Alves, do AM, tem obras na Biblioteca Nacional da França

20 de julho de 2025 Variedades
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Umas das obras do trabalho “Quando as águas”, expostas em Paris (Foto: Raphael Alves)
Do ATUAL

MANAUS — Obras do fotógrafo amazonense Raphael Alves, de 42 anos, foram incluídas no acervo permanente da BNF (Biblioteca Nacional da França), instituição pública que abriga o maior acervo de fotografia brasileira no mundo. São oito imagens de dois projetos do fotógrafo: cinco do Riversick — lançado em livro no ano passado e premiado em editais — e três do Quando as Águas, também publicado em livro, mas ainda inédito no Brasil.

Raphael explicou ao ATUAL que o livro Riversick, que integra o acervo da BNF, foi lançado no ano passado e já está na segunda edição. A obra aborda como pessoas, natureza e espaço urbano interagem em Manaus e seus arredores, refletindo também sobre as diversas possíveis — e impossíveis — cidades que habitam no inconsciente do autor. “Não somente aquela em que eu habito, mas as inúmeras possibilidades de cidades que habitam em mim”, descreve Raphael.

Fotografia da coleação Riversick (Foto: Raphael Alves)

Raphael contou que após a seleção das obras foi convidado no mês passado para participar da conferência “A Fotografia Brasileira Contemporânea”, promovida pela BNF, em Paris. O processo, segundo ele, começou quando curadores da biblioteca buscaram trabalhos no Brasil, conheceram a produção dele e fizeram uma proposta de aquisição, aceita prontamente.

“Eu fico muito feliz, muito alegre e satisfeito. Quando comecei, ainda estudante, há praticamente 25 anos, eu só queria fazer fotografias, interpretar o mundo ao meu redor por meio de imagens. Então, saber que meu trabalho chegou a uma instituição tão importante assim é muito lisonjeiro. Estou muito lisonjeado, muito feliz e satisfeito, sem dúvida”, disse o fotógrafo.

Raphael também falou sobre a essência do seu trabalho e como vê cada imagem que produz. Para ele, a fotografia não deve entregar uma mensagem pronta, mas abrir espaço para perguntas e reflexões. “Eu não tenho intenção de dizer alguma coisa, passar uma mensagem fechada, afinal, quem sou eu para dizer alguma coisa? Eu sou um fotógrafo, tenho impressões pessoais sobre o meu mundo e costumo dizer que cada fotografia que faço é uma pergunta”.

Segundo ele, o objetivo é estabelecer um processo de comunicação com quem observa suas imagens, convidando o público a refletir sobre o que está ao redor e dentro de si. Raphael diz que se questiona constantemente sobre a região onde vive, sobre Manaus, seus costumes e a forma de vida local, e espera que quem vê seu trabalho também se questione.

Amazônia

Na conferência em Paris, Raphael conta que esteve ao lado de fotógrafos e fotógrafas como Isis Medeiros, Rogério Reis e Ana Mendes, entre outros nomes que integram a coleção da BNF. Ele foi o único representante do Amazonas no evento, o que, para ele, carrega um peso simbólico.

“O que mais me marcou nessa experiência, além do contato com outros fotógrafos e fotógrafas, foi apresentar o nosso pedaço de mundo. Poder falar sobre as pessoas que fotografei, as histórias que tentei contar através da fotografia, sobre o meu projeto, me deixou muito satisfeito. Eram vozes, imagens dessas pessoas — não a minha. A minha também, porque eu tinha vontade de falar”, relata.

Raphael (centro) na conferência em Paris (Foto: Arquivo pessoal)

Raphael acrescenta que, além das apresentações, a viagem proporcionou uma intensa troca de conhecimento com outros profissionais e o aprendizado de vivenciar outra cultura. Segundo ele, a volta a Manaus veio acompanhada de novas ideias e projetos com ainda mais motivação para continuar. “Participar de um evento assim mostra que estamos fazendo um bom trabalho”.

Reconhecimento

Apesar do reconhecimento internacional, O fotógrafo diz que ainda faltam oportunidades para fotógrafos da Amazônia no próprio país e cita que falta reconhecimento também na própria região. Segundo Alves, mesmo sendo manauara e tendo produzido grande parte do trabalho na região, ele nunca conseguiu fazer uma exposição individual do próprio acervo.

“Eu nunca consegui fazer uma exposição somente minha aqui em Manaus, por exemplo, e nunca fui aprovado em um edital local para realizar algum projeto meu. No geral, há pouquíssimas oportunidades para os autores locais. Eu não encontrei oportunidades na região”, relatou, acrescentando que os livros dele foram lançados por meio de convites, todos de fora.

Livro Riversick, onde estão as obras (Imagem: Divulgação)

Raphael Alves afirma que o Brasil precisa avançar na valorização de profissionais, principalmente da Região Norte. Segundo Raphael, na maioria dos eventos que premiam fotógrafos é difícil encontrar participantes dos estados do Norte.

Segundo ele, os prêmios precisam valorizar a diversidade de olhares e narrativas que existem em todas as regiões. Ele diz que tem muita gente boa no Norte, mas ainda são invisibilizados, muitas vezes por questões de regionalismo.

“Poderia haver mais equidade entre as regiões”, disse Raphael, acrescentando que o próprio Amazonas poderia abrir mais espaço para novos trabalhos. Para ele, há um excesso de repetição de autores do passado, enquanto existem talentos atuais esperando oportunidade.

Ele cita nomes como Luiz Braga, Miguel Chicaoka e Elza Lima, além de movimentos como o Fotoativa, no Pará, e lembra que há uma geração inteira de fotógrafos amazônicos buscando espaço, mas que ainda enfrenta limitações.

Raphael conta que participará, em agosto, do Festival de Fotografia de Medellín, na Colômbia, como integrante do Laboratório Latino-Americano de Fotografia Documental. Ele será o único brasileiro entre cerca de 40 selecionados de diversos países da região.

“Estou muito feliz de estar participando disso também. Vou poder apresentar meu trabalho lá e concluir o curso que estou fazendo por meio desse laboratório. Vai ser uma troca muito boa com fotógrafos e curadores de outras partes da América Latina”, disse.

Raphael ressaltou que considera a região latino-americana “riquíssima” e que o laboratório estimula um movimento de retomada de narrativas próprias. Ele lembra que, historicamente, a fotografia documental e o fotojornalismo foram dominados por grandes veículos e, em sua maioria, por homens enviados a outros países para registrar as histórias.

Agora, iniciativas como o laboratório, segundo ele, estão abrindo espaço para que profissionais locais contem as próprias histórias e reforcem novas perspectivas.

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Assuntos Biblioteca Nacional da França, destaque, fotografia, Raphael Alves
Feifiane Ramos 20 de julho de 2025
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