
Do ATUAL
MANAUS – A BR-319 recebeu, na última quinta-feira (27), uma ponte suspensa para a passagem de animais de um lado a outro da floresta amazônica. A passagem foi instalada na altura da copa das árvores e foi planejada para permitir o acesso de animais que só se locomovem pelo alto como os primatas. Na região vivem os macacos barrigudo (Lagothrix lagotricha) e o aranha-da-cara-preta (Ateles chamek), considerados em risco de extinção.
“É uma área que ainda tem florestas bem preservadas, mas além dos impactos diretos da obra, só a perspectiva da pavimentação da estrada já gera uma pressão pela ocupação e, junto com essa ocupação, vem o desmatamento, grilagem de terra. Na Amazônia, precisamos nos preparar para proteger áreas que não estão isoladas”, explicou Marcos Amend, diretor de conservação da Wildlife Conservation Society, ONG (Organização Não Governamental) responsável pela criação da estrutura.
A passagem superior também facilita a travessia de espécies como o macaco zogue-zogue, macaco-prego, bugios, mico-de-cheiro, sauim-da-boca-branca, marsupiais, roedores como ouriços cacheiros e, eventualmente, répteis arborícolas.
Segundo a ONG, é a primeira vez que uma rodovia na Amazônia recebe uma estrutura desse tipo antes da pavimentação. O projeto é financiado pela Fundação Segré e tem apoio do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).
“Muitas espécies que são mais sensíveis à mudança do habitat não atravessam mais de um lado para o outro, especialmente a fauna arborícola, que precisa de conectividade florestal para se locomover. Isso é o que a gente chama de fragmentação de habitat. Por isso, é essencial que a gente reconecte esses fragmentos florestais”, ressaltou Fernanda Abra, da ViaFAUNA, uma das financiadoras do projeto.
Conforme a ONG, outras 70 estruturas serão instaladas para passagem da fauna no ‘trecho do meio’ da BR-319, que compreende 400 quilômetros da estrada que ainda não tem asfaltamento.
“É uma necessidade, não só para a rodovia como um todo, mas para a RDS Igapó-Açu. Temos um plano piloto e estamos na expectativa de que a gente consiga expandir isso em torno de toda a RDS e também, quem sabe, para o Parque Estadual Matupiri, que também faz parte do nosso trecho e sofre pressões do desmatamento, caça e pesca ilegal”, disse Ádila Mattos, gestora da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Igapó-Açu, unidade de conservação estadual que é cortada pela BR-319.
