Alunos, pais e professores, ainda se recuperam da maratona que todos os anos é o Enem. Este ano a prova foi marcada por uma exigência técnica maior nas habilidades avaliadas em cada item (questão) das quatro provas que compõe o exame. Desta forma, pode-se dizer que na hora que se tentou avaliar alguma das 120 habilidades que o Enem se dispõe a testar, o aluno teve que mobilizar mais conhecimento para poder resolver as situações-problemas expostas através de: textos, gráficos, tabelas, infográficos, diagramas, charges, tirinhas entre outras formas de linguagem.
Com todos esses recursos linguísticos é correto dizer que em grande medida tivemos, como sempre temos, uma prova contextualizada o que não coincide com a visão equivocada de alguns “especialistas” que insistem na ideia de uma prova “conteudista”. Vale ressaltar que este termo se refere aquilo que se encerra no próprio conteúdo, sem atenção ao contexto da informação. Definitivamente este não é o caso da grande maioria das questões presentes no ENEM.
Em 2014, um amigo coordenador de uma rede de ensino me fez um desafio: “Eu consigo identificar para você, na prova deste ano, questões puramente conteudistas, sem contextualização alguma”. Minha resposta foi também em tom de desafio: “Aguardarei o seu levantamento”. Algumas semanas depois ele me disse que seus professores haviam identificado um total de 16 questões assim, sem contexto algum. Já acostumado com esse tipo de observação, minha resposta já estava pronta desde o início do primeiro diálogo: “Estamos falando de 16 de 180 questões, nesse caso são menos de 10% da prova. Tomaremos este exame pelos mais de 90% que ele tem de coerente ou pela outra parte, os menos de 10% que você identificou?”.
Após um tempo refletindo meu caro amigo desabafou em um tom sincero: “eu ainda não tinha pensado desse jeito”. E assim como ele muitos outros não pensam desta forma na hora de emitir sua opinião sobre qualquer coisa, este é inclusive um erro comum de avaliação onde se faz da parte o todo, em uma clara generalização descabida.
Da mesma forma há uma insistência na análise de alguns professores em querer assemelhar o Enem as provas de vestibulares. Avaliações assim em essência testam o conteúdo acumulado pelo aluno, tanto assim que seus editais têm sempre o que se chama de conteúdo programático, um conjunto de assuntos a ser seguido à risca por professores e alunos. O Enem por sua vez possui uma matriz de referência em que antes de tudo são definidas as habilidades a serem desenvolvidas nos educandos em cada área de conhecimento.
No entanto, dentre todas as análises equivocadas que se ouviu durante a semana a mais absurda de todas é a do uso do Enem como instrumento de doutrinação. Para início de conversa não se doutrina ninguém no momento de uma prova, é muito otimismo (para não dizer loucura) achar que o indivíduo por resolver duas, três, quatro, vá lá que seja cinco, questões com viés Marxista sairá de lá gritando: “Viva la revolucion!”.
Análises assim chegam a ser ingênuas, tolas, para não dizer patéticas. Se o Enem tiver toda essa influência mesmo, é presumível que teremos diminuído e muito a violência contra mulher no Brasil, uma vez que o tema da redação levou milhões de homens a refletir e escrever sobre isso.
Em entrevista ao Jornal “O globo”, o professor de História, Marcus Dezemone, docente da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), disse que essa discussão é fruto do ambiente de radicalização política do país. Quando criticam, esquecem que a prova traz autores das mais variadas tradições, como São Thomás de Aquino, Thomas Hobbes e David Hume”. Ele completa dizendo que a caça às bruxas está incluindo até (Karl) Manheim como marxista e pensador de esquerda.
Contrariando toda e qualquer expectativa dos mais radicais a ex-presidente do Inep, Maria Helena Guimarães Castro, que presidiu o Instituto entre 1995 e 2002, na era Fernando Henrique Cardoso, saiu em defesa da atual gestão do Ministério da Educação, dizendo não acreditar nessa escolha das questões presentes no exame. Outro ex-presidente do Inep, entre 2005 e 2007, Reynaldo Fernandes, também se manifestou dizendo haver muito exagero nas críticas, e disparou: “O que se pode fazer? Criar um comitê ideológico para avaliar a prova? ”.
Pelo que se nota é necessário que avancemos muito na compreensão deste exame, só assim será possível se fazer análises mais lúcidas que possam contribuir com o processo e não tentar desconstruí-lo a partir de pontos de vista restritos em que a parte, mesmo sem ter sido bem interpretada, toma lugar do todo criando rótulos desnecessários.
