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© 2022 Amazonas Atual
Dia a Dia

Jornalista mostra semelhanças espantosas sobre a Amazônia

17 de junho de 2022 Dia a Dia
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Ribeirinhos na Floresta Amazônia próximo a Atalaia do Norte: fonte de reportagens (Foto: Polícia Federal/Divulgação)
Por Naief Haddad, da Folhapress

SÃO PAULO – Impossível nestes dias falar sobre o jornalismo praticado fora do seu país de origem sem citar o britânico Dom Phillips, repórter assassinado no Amazonas ao lado do indigenista Bruno Pereira. É uma coincidência triste que tenham chegado às lojas nos últimos meses livros de jornalistas que dedicaram boa parte de suas carreiras às coberturas longe da terra natal.

A inglesa Jan Rocha, que vive no Brasil desde o final da década de 1960, lança “Nossa Correspondente Informa”, e o brasileiro Antonio Carlos Seidl, que morou em Londres de 1978 a 1992, publica “O Beijo na Calçada”. Há, porém, pouco em comum entre esses lançamentos além da autoria de ex-correspondentes e da conexão Brasil-Inglaterra.

O livro de Rocha reúne algumas das principais reportagens feitas por ela durante parte da ditadura brasileira, de 1973 a 1985, para o serviço de rádio da BBC de Londres.

Já Seidl apresenta crônicas baseadas em situações que viveu principalmente no Reino Unido, onde foi correspondente da Folha, entre outras atividades.

Emissoras estrangeiras que transmitiam em português para o Brasil, caso da BBC, tinham uma vantagem quando comparadas aos veículos locais: não estavam submetidas à censura. Eram, portanto, valiosas fontes de notícias, sobretudo em relação àquilo que a ditadura não gostaria que viesse à tona.

Uma reportagem de Jan de abril de 1974, por exemplo, descrevia a prisão de cerca de 40 pessoas, entre funcionários e estudantes de universidades, sem que os motivos fossem divulgados.

Detenções arbitrárias, indica ela, aconteciam com regularidade, mas nem de longe eram a ação do poder público que mais assustava a oposição, a imprensa e as entidades da sociedade civil.

Jan esteve atenta a um episódio tragicamente simbólico, ocorrido em outubro de 1975. O jornalista Vladimir Herzog tinha sido assassinado nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, um crime que o Exército insistiu em alardear como suicídio.

Pouco mais de três anos depois, ela noticiou que um tribunal federal em São Paulo havia considerado o governo como culpado pela morte de Herzog. “O juiz não encontrou provas para o suicídio e rejeitou as conclusões da autópsia oficial, dado que um dos médicos que a assinou sequer viu o corpo”, escreveu.

Pela primeira vez na ditadura até então, apontou a repórter, autoridades foram consideradas responsáveis pelas barbaridades praticadas em nome do regime.

A Amazônia era assunto recorrente no trabalho de Jan, e são espantosas as semelhanças dos fatos observados naquela época e o que se vê atualmente.

“Na Amazônia, o gado tem preferência”, ela registrou em 1974. Três anos depois, “Funai ignora índios”. Cinco anos depois, “Amazônia ameaçada”. Dez anos depois, “Governo quer mineração em terras indígenas”. São quatro exemplos entre dezenas veiculados pela BBC nesse período.

O penúltimo texto do livro, de agosto de 1985, é particularmente assombroso nessa rede de ligações perigosas entre o passado e o presente.

Segundo Jan, Carlos Alberto Brilhante Ustra, notório torturador na década de 1970 tido como “herói” por Bolsonaro, atuava como adido militar no Uruguai até que, em viagem a Montevidéu, uma vítima das suas torturas reconheceu o coronel e o denunciou. O então presidente José Sarney decidiu trazer Ustra de volta ao Brasil. “O Beijo na Calçada”, de Seidl, pode cumprir um papel de descanso encerradas as quase 500 páginas repletas de tensão de “Nossa Correspondente Informa”.

Ele praticamente deixa de lado os grandes temas para lembrar, de um ponto de vista bastante pessoal, curiosidades britânicas ligadas ao futebol, à monarquia, ao fotojornalismo, ao trânsito, entre outros.

Importam mais as miudezas do cotidiano de Londres, tratadas de modo leve e descontraído. Em suma, um livro de crônicas.

Em “Cheers”, Seidl comenta as regras de etiqueta seguidas pelos frequentadores dos pubs. Narra em “Na Contramão” a saga aflitiva ao dirigir pela primeira vez um carro de mão inglesa. Em “Estados de Alma”, rememora um erro grave de previsão de um famoso meteorologista da TV britânica.

O tom divertido dessas memórias não se contrapõe ao rigor jornalístico. Seidl vai ao encontro da crônica sem deixar de ser repórter.

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Assuntos Amazônia, Antonio Carlos Seidl, Dom Phillips, indigenista e jornalista desaparecidos, Jan Rocha
Cleber Oliveira 17 de junho de 2022
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