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Negócios

SPFW ecoa tensão política em evento sem patrocínio graúdo e nem grifes poderosas

31 de maio de 2022 Negócios
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Desfile da grife Isaac Silva: moda baiana (Foto: Saulo Dias/Photo Press/Folhapress)
Desfile da grife Isaac Silva: moda baiana (Foto: Saulo Dias/Photo Press/Folhapress)
Por Pedro Diniz, da Folhapress

SÃO PAULO – Foram semanas de incertezas para as 22 marcas que prometem subir às duas passarelas montadas na 53ª São Paulo Fashion Week, que começa nesta terça-feira e se estende até o sábado. Pela primeira vez, a semana de moda terá dois endereços fixos, o prédio do Senac Lapa, na zona oeste, e o galpão Komplexo Tempo, na Mooca, na região leste paulistana. Até duas semanas atrás, porém, ninguém sabia muito bem quando e onde -nem se- as luzes seriam acesas.

Retrato da crise financeira que afugentou patrocinadores graúdos e grifes com poder de difusão, hoje mais interessadas em manter a saúde financeira do que desfilar o trabalho de seus estilistas, a temporada foi uma verdadeira “tour de force” para a organização.

Grifes e estilistas ouvidos em condição de anonimato pela reportagem afirmam que há pouco mais de um mês a edição poderia ser inteiramente digital, formato inviável para algumas delas, e as datas, embora aventadas anteriormente, não estavam confirmadas até três semanas atrás.

O diretor criativo Paulo Borges e sua equipe lidaram ainda com o fim do contrato com um de seus principais patrocinadores, o banco Santander, a impossibilidade de alugar espaço em sua “casa” costumaz, o parque Ibirapuera, e a falta do incentivo por meio de mecanismo fiscal, a Lei Rouanet, que havia facilitado a busca de patrocínio das últimas duas edições do Festival SPFW+.

Ao todo, a IMM Participações, que controla o evento, teria disponíveis para este ano, segundo Borges, R$ 15 milhões para dividir em cada um dos dois eventos anuais. Ainda de acordo com ele, cerca de um terço do valor, ou R$ 5 milhões, foi usado para levantar a temporada que se inicia.

O cenário de incertezas e um calendário majoritariamente formado por grifes minúsculas, parte sem ponto de venda físico ainda que criativamente relevantes no contexto da moda nacional, remonta ao final dos 1990, época do Phytoervas Fashion que serviu de embrião para a São Paulo Fashion Week.

“Estamos num momento de experimentações. Provavelmente, voltaremos ao Ibirapuera [em novembro, na segunda edição do ano]. Mas nosso desejo de ocupação não é de hoje. Obviamente que a pandemia diminuiu o pulso do que queremos fazer, porque minha ideia de festival é muito maior do que está acontecendo, mas temos de nos adequar à realidade”, afirma Borges.

Essa realidade, ele afirma, incluiria lidar com a montanha-russa de casos de Covid-19 que ameaçam a segurança de eventos grandiosos e que, por isso, considerou fazer digitalmente as edições e diminuir o espaço destinado aos desfiles. Borges garante, porém, que o formato híbrido de hoje, que nesta edição compreende 19 desfiles digitais em formato de filme, deve permanecer.

Um deles é o desfile da grife baiana Dendezeiro, que, saída da Casa de Criadores, berço da ala mais relevante da programação, estreia no calendário com um filme a ser exibido no final da tarde desta quarta. Os estilistas Hisan Silva e Pedro Batalha são nomes quentes do novo cenário da moda nacional e agradam ao público jovem com coleções desenhadas com rigor estético.

Um ingrediente já visto nas passarelas de 2019 ganhará destaque nesta temporada. Nomes como Misci, Handred e Isaac Silva, para citar três etiquetas de sucesso criativo e comercial da nova geração, prometem aumentar o volume político das apresentações com temas que discorrem, em menor e maior grau, sobre o ambiente polarizado deste ano eleitoral.

Como parte das comemorações de seus dez anos de marca, o carioca André Namitala mostrará uma coleção em que as roupas são todas vermelhas, referência objetiva à sua posição na esquerda do espectro político. “É uma cartela política, sim. Além de uma comemoração [do aniversário da marca], também se refere ao momento de hoje, passional, num ano que, se Deus quiser, haverá uma mudança de governo”, afirma o estilista.

Já com o filme “Atelier”, ele homenageará o ato de tecer, de costurar e cortar uma roupa. O vídeo, gravado num teatro, explora por meio da dança um momento de festa antecipada ao pleito presidencial. “Ter uma marca, hoje, é um ato político”, resume Namitala.

Não menos estridente será a coleção do mato-grossense Airon Martin. A começar pelo convite do desfile de sua marca Misci, um boné verde e amarelo com o slogan “Mátria Brasil” gravado, ou seja, o avesso do usado pelo governo Bolsonaro, “Pátria Amada, Brasil”.

Além dos brincos em formato de mapa do país, produzidos em parceria com a Bravio Studios, parte das roupas de Martin são feitas com seda paranaense, tida como a melhor do mundo, com o intuito de lembrar o potencial da indústria têxtil esfacelada. Suas ideias também foram construídas em volta da revisão do aspecto patriarcal que moldou a misoginia tão arraigada no convívio social.

Algumas das peças têm abertura em um dos seios, como recado sobre o preconceito da amamentação pública, e remetem às mães solo -ele, inclusive, filho de uma. A top Carol Trentini, que também foi criada só pela mãe, abrirá a apresentação que encerra a quinta-feira de desfiles.

“O mundo não está para estilistas, mas sim para pensadores, marcas que exploram conceitos para além da roupa”, afirma Martin. “É isso que nos diferencia das marcas de blogueira, por exemplo”.

Outro gigante da criação nacional, o estilista baiano Isaac Silva encerrará a temporada com uma leitura política sobre ícones da noite LGBTQIA+. Do Brasil, ele levará a drag queen Márcia Pantera ao centro da passarela, composta também por transexuais, travestis e ativistas, como a designer Neon Cunha, à frente da casa de acolhimento que leva seu nome em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e abriga pessoas vulneráveis da comunidade.

Jeans de cânhamo, cores vivas e uma bandeira gigantesca do orgulho LGBT, que forrará a apresentação, compõem os elementos desta que deve ser uma das coleções mais políticas do evento.

“Vivemos num país que usa a violência de forma rotineira contra toda a sua população. A moda da São Paulo Fashion Week, hoje, não comporta mais tendências, não é o momento disso”, defende Silva. “É hora de levantarmos a voz mais alto”.

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Assuntos GRIFES, São Paulo Fashion Week
Murilo Rodrigues 31 de maio de 2022
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