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Variedades

Betty Milan usa exemplo da mãe para questionar prolongamento da vida

15 de abril de 2022 Variedades
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Escritora e psicanalista Betty Milan lança novo livro (Foto: vejapontocom/YouTube/Reprodução)
Escritora e psicanalista Betty Milan lança novo livro (Foto: vejapontocom/YouTube/Reprodução)
Por Naief Haddad, da Folhapress

SÃO PAULO – A escritora e psicanalista Betty Milan lançou seu primeiro livro, “O Jogo do Esconderijo”, uma obra ensaística, em 1976. É “um discurso corajoso, que envereda pelas sendas perdidas do esconderijo, a fim de obrigar o ato de esconder-se a falar de si e por si mesmo”, escreveu a filósofa Marilena Chaui no posfácio.

No novo “Heresia”, seu 27º livro, não existem jogos nem dissimulações, tudo está rigorosamente às claras. “Com o passar do tempo, vamos ficando menos ligados aos artifícios”, diz Milan, para quem só se alcança a verdade por meio da ficção.

Quando tinha 97 anos, a mãe da escritora sofreu uma queda e quebrou um antebraço, o que a debilitou sensivelmente, inclusive com a perda gradual da memória. Neste momento, Milan começou a fazer anotações sobre a rotina da genitora quase centenária sem saber aonde aqueles escritos a levariam.

Sempre acompanhada por uma cuidadora, sua mãe viveu mais sete anos em meio a um coquetel de dores, remédios, delírios e passagens por hospitais, uma jornada exaustiva que agora resulta em “Heresia”, o décimo romance da autora de 77 anos.

Como observa o crítico Manuel da Costa Pinto na orelha, prevalece, como em grande parte da bibliografia de Milan, uma “tensão entre real e ficcional” – talvez seja esse o livro dela no qual essa fricção é mais acentuada e exposta. “Vou atribuir o que escrevo a uma outra narradora. Com ela, eu vou em frente sem medo de dizer o que sinto”, diz logo nas primeiras de 112 páginas.

Nesse sentido, “Heresia” forma um díptico com “A Mãe Eterna” (2016), que já tratava dos dramas da velhice com uma franqueza incomum.

No novo romance, no entanto, a narradora é especialmente aguda na crítica aos meios utilizados pela medicina para prolongar uma vida que deixou de fazer sentido. Por que, ela questiona, a morte assistida se mantém como um tabu mesmo quando nenhuma droga é capaz de amenizar um sofrimento brutal cujo fim não se vislumbra?

A mãe é descrita como um “totem”, um desses idosos centenários que passam a ser reverenciados, mesmo que já não tenham consciência daquilo que os cerca. E a filha se vê cada vez mais enredada em ambiguidades diante de uma existência que se esvai. ‘Eu queria, apesar da decrepitude, eu queria, mas não desejava realmente a sua morte”.

Muito próxima da obra de Jacques Lacan, com quem fez análise em Paris durante cinco anos na década de 1970, a escritora se vale da vivência de psicanalista. ‘Tenho uma escuta profunda, que impregna minha literatura”, afirma ela, a mais nova integrante da Academia Paulista de Letras (APL).

“Heresia” não é o seu primeiro romance com a presença de Lacan, ainda que de modo indireto. Em “O Papagaio e o Doutor”, Seriema, neta de imigrantes libaneses radicados no Brasil (como a autora), vai ao encontro de um analista na França (como a autora) para tentar entender melhor seu passado familiar.

Aliás, esse livro de 1998 deu origem recentemente a um filme, “Adieu, Lacan”, dirigido pelo americano Richard Ledes. Exibida nos últimos meses em eventos de psicanálise em países da América e da Europa, a produção tem previsão de estreia em serviços de streaming em maio.

Graças a Betty Milan, a psicanálise lacaniana de olhar brasileiro estendeu uma mão para a literatura e outra para o cinema.

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Assuntos Betty Milan, psicanálise
Cleber Oliveira 15 de abril de 2022
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