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Variedades

Em ‘Roda do Destino’, Hamaguchi explora diferentes faces do desejo

5 de janeiro de 2022 Variedades
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Cena de Roda do Destino: filme explora desejos em três histórias curtas (Foto: Trailer/Reprodução)
Cena de Roda do Destino: filme explora desejos em três histórias curtas (Foto: Trailer/Reprodução)
Por Henrique Artuni, da Folhapress

SÃO PAULO – Uma mulher conta a sua amiga sobre uma nova paixão, um homem sensual, mas não atirado. Nos poucos encontros que tiveram, ela descobre que ele ainda está na ressaca de uma paixão recente, violenta. E a mulher segue contando todos os detalhes para a companheira, no banco traseiro de um táxi.

As escolas de roteiro vão desaconselhar que a interlocutora seja o tal embuste, a menos que seja um melodrama, uma comédia romântica pastelão. Mas o cinema de Ryusuke Hamaguchi, que mistura vários gêneros, prefere deixar se surpreender.

“Trabalhar com o acaso é criar a partir do real e do irreal, com aquilo que acontece, mas que você não pensa que vai ocorrer”, conta o cineasta em entrevista. A cena em questão abre “Roda do Destino”, que estreia agora nos cinemas do país, e é só uma das coincidências que povoam as histórias do filme.

O longa reúne três histórias curtas, todas versando sobre como o acaso impacta e pode radicalmente mudar a vida das pessoas. A estrutura de vários contos lembra declaradamente a de “Rendezvous em Paris”, do francês Éric Rohmer, influência evidente, bem como a do americano John Cassavetes ou mesmo de Jacques Rivette.

Para trabalhar com a sorte sem parecer artifical, Hamaguchi diz que sua estratégia foi abraçar essas situações e deixar tudo claro desde o começo. “O título, na tradução direta do japonês, seria acaso e imaginação”, conta. “Quando alguma coincidência surge em um filme qualquer, as pessoas costumam estranhar. Mas como eu já deixei claro no nome, surpreendentemente, deu certo”.

Na primeira história, “Magia (Ou Algo Parecido)”, a amiga é, de fato, a ex-namorada que, depois do papo, vai tirar satisfação com o rapagão – que continua, óbvio, de quatro por ela.

Já em “Porta Escancarada”, uma mulher não consegue vingar um amigo porque fica encantada pelo livro do professor que humilhou o rapaz. Aqui, uma cena resume a visão do cineasta sobre erotismo e desejo por meio da palavra.

“Trabalho com a expressão do desejo porque é algo que as pessoas conseguem identificar”, conta Hamaguchi, que se tornou mais reconhecido a partir de 2015, com o épico “Happy Hour”, em que acompanha dramas cotidianos de quatro amigas por mais de cinco horas. “Mesmo que um filme seja difícil de entender à primeira vista, elementos como amor e sexo nos aproximam”.

Seus últimos trabalhos têm se debruçado com maior atenção sobre personagens femininas, como em “Asako 1 & 2”, de 2018, sobre uma menina que se apaixona por dois rapazes idênticos em momentos diferentes. “As diferenças sociais entre homem e mulher no Japão impactam a sociedade, mas, quando escrevo, trabalho os gêneros de forma igual”, diz o diretor.

Em “Drive My Car”, de 2021 –que concorre agora ao Globo de Ouro, está na corrida pelo Oscar de melhor filme internacional e povoou listas de melhores filmes do ano –, o protagonista é um diretor de teatro que ensaia uma montagem de “Tio Vânia”, de Anton Tchékhov. Porém, é “assombrado” – de uma maneira peculiar, que cabe não revelar– pela sua esfíngica mulher.

“’Parasita e trabalhos de diretores excelentes, como Hirokazu Kore-eda, realmente abriram caminho para os cineastas asiáticos serem mais reconhecidos”, ele comenta, lembrando as indicações.

Mas, apesar das referências mais evidentes, Hamaguchi lembra a importância do documentário na sua carreira. Em 2011, ele fez uma série de filmes com sobreviventes do grande terremoto no leste do Japão, que matou quase 16 mil pessoas. “Foi um momento decisivo na minha carreira. Eu me interessei em saber quem eram aquelas pessoas antes da tragédia. Fiquei com vontade de levar aquelas pessoas reais para a ficção, e experimentei no ‘’Happy Hour’”, lembra.

Esse conflito entre a verdade e o imaginado está, por fim, em “Mais uma Vez”, que encerra “Roda do Destino” com o reencontro de amigas de longa data na escada rolante do metrô. Mas ambas descobrem estar cometendo um engano e têm de confiar em suas memórias e no poder da imaginação para preencher uma distância incerta, já que a internet nesse mundo foi abolida depois de um vírus global.

“Estamos num mundo em que todos falam a toda hora, e fica difícil saber quem devemos ouvir. Esporadicamente poderíamos parar de usar as redes e explorar outras formas de comunicação”, recomenda.

Nesse sentido, o japonês parece evocar, involuntariamente, alguma afinidade com o brasileiro Eduardo Coutinho – paralelo citado primeiro pelo crítico Filipe Furtado. “Todas as conversas são negociações de desejos”, dizia o mestre por trás de “Edifício Master” e “Santo Forte”, para quem um relato convicto era mais potente do que qualquer recriação cênica. Essa relação se aprofunda em “Moscou”, de 2007, em que o diretor, assim como o protagonista de “Drive My Car”, reúne atores para ensaiar uma peça de Tchékhov.

À parte a paixão pelo russo, o brasileiro e o japonês compartilham o amor pela palavra bem dita, as conversas e o imprevisível. Os diálogos em Hamaguchi podem ser extensos, mas hipnotizam o espectador com uma espontaneidade ímpar.

“Talvez para os falantes nativos de japonês, possa parecer que não é tão natural assim”, diz o cineasta. “Uma das coisas que eu faço é pedir que eles leiam as falas, sem nenhuma emoção, e, na filmagem, se eles sentirem alguma coisa, isso pode ser expressado. Talvez isso traga alguma naturalidade, afinal”.

É a mesma técnica que o protagonista do longa aplica no seu elenco. No filme-ensaio “Moscou”, Coutinho deixa claro que, seja entrevistando moradores de um lixão da periferia do Rio de Janeiro, seja encenando um texto de 1901, importa o ato de contar histórias e capturar a verdade da filmagem – considerando que a verdade crua não existe.

Morto em 2014, Coutinho nunca deixou seus espectadores saírem das salas sem uma pulga atrás da orelha sobre o que era a vida em cena e a verdade fora dela. Por enquanto, Hamaguchi também não.

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Assuntos Ryusuke Hamaguchi
Cleber Oliveira 5 de janeiro de 2022
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