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Política

Casas em balsas substituiriam palafitas da orla de Manaus, diz arquiteto

1 de novembro de 2021 Política
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Orla de Educandos antes do incêndio: palafitas dominam a paisagem da ocupação habitacional precária (Foto: Valter Calheiros)
Arquiteto sergipano apresentou sugestão para acabar com as palafitas na orla de Manaus (Foto: Valter Calheiros)
Por Teófilo Benarrós de Mesquita, da Redação

MANAUS – Uma Indicação apresentada à prefeitura de Manaus sugere a demolição das palafitas existentes na orla da cidade, com a transferência das moradias para balsas. A proposta é do arquiteto sergipano Fábio José Sobral, 51 anos, apresentada ao Executivo pela vereadora Thaysa Lippy (Progressista). O autor defende a ideia como solução para resolver a “questão da miserabilidade das pessoas que moram em palafitas”.

O engenheiro civil amazonense Valderino Pereira da Silva, 72 anos, que durante 40 anos fez as medições da cota do rio Negro, acredita que a ideia é possível mas enxerga muitas dificuldades para implantação e enumera pelo menos 4 cuidados básicos no estudo para a implantação da proposta: local onde serão fixadas as balsas, ancoragem, variação do nível do rio entre os períodos de cheia e seca, e segurança da balsas.

Tanto a vereadora quanto o arquiteto ressaltam que o projeto para implantação de “casas populares flutuantes” foi sugerido à prefeitura como proposta a ser analisada, como um estudo de viabilidade técnica e financeira para sua realização.

Fábio Sobral disse que o projeto surgiu a partir de vídeos que ele sempre assistiu sobre os efeitos da cheia e da vazante no Amazonas. “Faz alguns anos que eu venho observando através de documentários e reportagens aí de Manaus a questão da miserabilidade das pessoas que moram em palafitas à margem dos rios e igarapés. Não é salutar você observar pessoas vivendo em extrema miséria dessa forma, morando em palafitas onde você não tem conforto nenhum, você não tem infraestrutura nenhuma”, opinou.

Diante desse quadro, o arquiteto teve a ideia, envolvendo um sistema de ancoragem para as balsas em parceria com os estaleiros da cidade, em troca de descontos em impostos municipais.

“Eu observei que nas margens desse rio existem muitas balsas abandonadas seja ela por ter sua vida útil para navegação já extinta ou mesmo obsoleta. Então, os estaleiros passariam essas balsas para o município, que através de recursos próprios ou emendas parlamentares construiria as casas em cima dessas balsas revisadas” indica Fábio.

O projeto piloto sugere modelo de balsa de 70 por 20 metros, com capacidade para construção de 20 moradias com 62 metros quadrados, cada. As residências seriam geminadas, popularmente classificadas como “parede com parede”.

Modelo da casa geminada, com 62 metros quadrados (Desenho: Fábio José Sobral)

“Tem balsas de outros tamanhos, maiores e menores”, completa, afirmando que o número de moradias por balsa pode variar de acordo com o tamanho das balsas doadas.

Como contrapartida, de acordo com a quantidade e tamanho das balsas sem uso doadas, os proprietários de estaleiros poderiam usufruir de descontos em ISS (Imposto Sobre Serviços), IPTU (Imposto Predial e Territorial Urban0) e alvará de funcionamento, cuja cobranças são de responsabilidade do município.

Na prática, após a doação das balsas, a prefeitura promoveria a demolição da palafita, transferindo os moradores para as residências flutuantes, sem que saíssem de seu ‘cantinho’.

“O Executivo tem dificuldade de retirar essas pessoas dessas palafitas porque são pessoas que gostam da localidade. Estão aí há mais de 20, 30 anos, ou mais”, observa Fábio, que nunca visitou o Amazonas e minimiza esse fato com a questão do avanço digital. “Por tecnologia, a gente conhece todo o mundo sem sair do lugar”, defende.

Pela proposta do sergipano, após a demolição da palafita “as balsas com as casas seriam encostadas no lugar onde haviam as moradias, encravadas em estacas e elas oscilariam com a variável da enchente ou vazante do rio”. Ele aposta tanto na ideia que sugere até um bairro flutuante. “Em outras balsas podem ser instaladas unidades de serviços públicos, como posto de saúde, creche e escola”.

O bairro flutuante sugerido por Fábio seria inédito no Brasil. Mas ele ressalta que se inspirou em exemplos europeus. “É comum na Europa: Dinamarca, Holanda e Inglaterra. Porém, lá as casas são em monoblocos, cada uma em seu flutuante”, explica, garantindo que “esse conceito de várias casas é meu”.

Perspectiva das 20 casas populares no espaço de uma balsa de 70 por 20 metros (Desenho: Fábio José Sobral)

As balsas contariam com sistema de recolhimento de dejetos, com tanque séptico no convés. “Nenhum dejeto cairia no rio. E os tanques teriam limpeza periódica. A estrutura de eletricidade viria por debaixo, de dentro do convés da balsa”.

Questionado sobre custos, Fábio José Sobral disse que é uma outra etapa, a ser apresentada somente se houver interesse da prefeitura, ressaltando que não vislumbra “dificuldade nenhuma desse projeto ser implantado e dar certo”. A vereador Thaysa, autora da indicação, disse que a prefeitura ainda não respondeu sobre a proposta.

Dificuldades

Consultado pelo ATUAL sobre a proposta, o engenheiro civil amazonense Valderino Pereira, 72 anos, disse que é possível executar a ideia, mas apontou algumas dificuldades com relação ao sistema de ancoragem sugerido. E também demonstrou preocupação com outros aspectos, como local, ancoragem, variação do nível do rio e segurança da balsas.

“Temos que observar o fenômeno da enchente e da vazante. Como fazer estacas para segurar [as balsas]? Isso exige um sistema de poitas ou âncoras, ou até como é no Roadway, que funciona por molinetes elétricos”, opinou Valderino, que trabalhou no Porto de Manaus durante 52 anos, dos quais 40 fazendo a mediação diária das cotas do rio Negro. O sistema de poitas consiste na adoção de peso em concreto, entre 40 e 45 toneladas.

O engenheiro civil aponta alguns cuidados que precisam ser tomados (Foto: Porto de Manaus/Arquivo)

Ele explica que o uso de ancoragem dá muito trabalho, em razão da diferença existente entre os períodos de cheia e vazante, que pode chegar a 15 metros, e questiona como manter a balsa estável com estacas quando houver essa diferença, ou metragens próximas.

Valderino explica que pelo sistema de ancoragem, “quando o rio enche, as correntes precisam ser afrouxadas, e quando o rio seca, elas precisam ser apertadas. Dá muito trabalho”.

“Também é necessário ter cuidado com o local onde a balsa vai ser instalada, a variação do nível do rio em caso de uso de estacas, e a segurança da balsa, inclusive do convés”, alerta.

Sobre a questão da segurança, o arquiteto sergipano Fábio Sobral admite que as balsas graneleiras abandonas e que poderiam ser reutilizadas para o projeto são mais adequadas que as balsas tanques.

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Assuntos Casas em balsas, manchete, moradia popular, palafitas, Prefeitura de Manaus
Redação 1 de novembro de 2021
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