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Dia a Dia

Texto literário sobre suicídio em livro didático gera impasse no Amazonas

14 de setembro de 2021 Dia a Dia
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Atividade em livro didático em Manaus usa texto com diálogo de suicidas (Foto Reprodução)
Atividade em livro didático em Manaus usa texto com diálogo de suicidas. (Foto: Reprodução/Assessoria)
Teófilo Benarrós de Mesquita, da Redação

MANAUS – O conto ‘Dois Corpos Que Caem’, do escritor João Silvério Trevisan, gerou impasse no Amazonas. O texto consta em livro didático de Língua Portuguesa da coleção Avalia Brasil, adotado em escolas da rede pública estadual para o 6º ano, no qual os alunos têm, em média, 12 anos. Para o vereador Raiff Matos (DC), a abordagem é uma “banalização do suicídio”. O parlamentar acionou o MEC (Ministério da Educação) para analisar o conteúdo do livro.

A escolha de livros didáticos é feita por professores e pedagogos após análise de conteúdos. No caso em questão, o livro foi adotado pela Seduc (Secretaria de Educação do Amazonas). Raiff Matos pediu explicação ao MEC sobre os critérios para a seleção do material disponibilizado aos estudantes nas escolas públicas.

“Apesar do valor literário, o texto não tem o tratamento pedagógico adequado para estudantes de 12 anos. Pela forma romantizada como trata um tema tão sensível, deveria ser no mínimo impróprio para estudantes dessa idade”, alegou o vereador. Raiff disse que diante das reclamações de pais de alunos do Colégio Militar da Polícia Militar V foi conversar com a direção sobre o uso do livro e do texto em sala de aula.

“A direção da escola e a coordenação pedagógica me informaram que conteúdos sensíveis são discutidos em sala de aula adotando uma abordagem mais conscientizadora, como é o exemplo do Setembro Amarelo, com relação às ações de prevenção ao suicídio”.

O vereador afirmou também que sua preocupação é “saber se as escolas e os professores estão alertas para percerber os riscos em textos como esse, um tema que pode servir de gatilho para jovens com tendência depressiva e outras perturbações de saúde mental”.

Capacidade de reflexão

A psicóloga Nália de Paula alerta que o texto exige uma capacidade reflexiva que um aluno de 12 anos está longe de alcançar. “Por se referir a um modo bastante habitual de escolha de suicídio, vejo como bastante perigoso, especialmente pela forma como será conduzida pelo professor”, alerta Nália, que é especialista em Neuropsicologia infantil e mestra em Saúde Coletiva. “Não sei se o professor tem formação e tempo suficientes para entrar nesse campo tão complexo. É um tema tão complicado, e isso numa sala de aula com diversas realidades afetivas e de suporte familiar, pode ser um perigo”, completou.

Para a psicóloga, “se o aluno já tiver enfrentando questões depressiva pode sim funcionar como um ponto de abertura para a temática suicida. Mas acredito que a maturidade no entendimento que o conto exige não é possível para aluno de 12 anos”.

livros usados
Livros escolares são escolhidos por professores e pedagogos (Foto: Altemar Alcantara/Semcom)
Linguagem adequada

A pedagoga e consultora educacional Mercy Soares, avalia que o conto tem linguagem forte, mas adequada em termos pedagógicos, uma vez que desperta no aluno a pesquisa e o conhecimento por vocábulos novos, não comuns em sua linguagem.

“O conto é forte, imaginar a cena de um diálogo em meio a um suicídio. Porém, o conto traz ao debate o assunto que já é um mistério em si, suicídio, fazendo uma analogia sobre os valores da vida, mostrando como a vida acaba sendo frágil perto dos acasos que a rodeiam, pensamentos, dores, sentimentos, amores, amizades. Traz à luz do debate também sobre de que a vida é regada: fé, amor, relações, perdas, existência, causas de vida e de luta”, analisa.

Na opinião de Mercy, o texto apresenta uma estrutura moderna de conto, “uma vez que contos não são só contos de fada ou com final feliz”. Além do estudo estrutural da Literatura da Língua Portuguesa, o texto possibilita o debate de um tema que preocupa a sociedade. “Nesse cenário, as práticas de bullying e os problemas familiares, são fatores importantes no desenvolvimento da conversa em sala de aula”, opina.

“É importante falar sobre o assunto, uma vez que já se mostrou ao longo da história que quanto mais se esconde o tema mas aumentam os casos no silêncio interior de cada um. O texto vem corroborar com o Setembro Amarelo que foi pensado para incentivar a sociedade a falar e tratar melhor esse tema”, disse a pedagoga.

Em junho deste ano a OMS (Organização Mundial de Saúde) divulgou o relatório “Suicide Worldwide in 2019” apontando que uma em cada 100 mortes no mundo ocorre por suicídio. Todos os anos, mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que HIV, malária ou câncer de mama – ou guerras e homicídios.

Raiff Matos com o diretor da Colégio da PM, Tenente Coronel Eyderson Prado (Foto: Ney Fábio/Assessoria)
Posição da Seduc

A Seduc (Secretaria de Estado de Educação e Desporto) informa que o texto citado pelo vereador faz parte do livro “Dois corpos que caem”, de João Silvério Trevisan, e não é de domínio da pasta.  O texto faz parte de uma atividade de interpretação de texto onde há diálogo sobre a temática e não se trata de um posicionamento específico.

O departamento pedagógico da Secretaria de Educação trabalha com a orientação aos profissionais para a exploração dos conteúdos, como a interpretação de texto e adaptações de discursos da voz ativa e passiva, como é sugerido na atividade que traz o texto retirado do livro.

Por fim, a secretaria reforça que incentiva a prática da valorização da vida e prevenção à violência, prezando pelo diálogo nas mais diversas situações cotidianas, e buscando incentivar os estudantes a sempre se relacionarem com respeito.

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Assuntos livro didático, manchete, Seduc-AM, Suicídio
Redação 14 de setembro de 2021
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