
Por Alessandra Taveira e Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – Feirantes da Feira Manaus Moderna, a maior da capital, no Centro, alegam que o surto de rabdomiólise, síndrome associada à ‘doença da urina preta’, derrubou a venda de peixes. O faturamento caiu de R$ 800 para R$ 20 por dia, em média. O ATUAL conversou com vendedores de peixes na manhã desta quinta-feira (2). Eles reclamaram da repercussão negativa que a doença causou sobre os negócios.
Edmar de Oliveira Marques, de 44 anos, disse que na quarta-feira (1º) saiu da feira sem vender nada. “A média do apurado de quem vende peixe miúdo era de R$ 600 a R$ 800 por dia. Hoje tem gente apurando R$ 20, só o da merenda, do gelo e vai embora sem nada”.
O feirante conta que antes, por volta das 9h, o estoque de peixe já estava esgotado. “Caiu mais de 90%. Nesse horário eu fiz duas vendas, (antes) nesse horário eu estava terminando o meu peixe”, disse. Para não ter prejuízo, Edmar tira parte do pescado da exposição na banca. “Ele (peixe) ‘tá’ guardado na caixa porque a gente ‘tá’ com receio de não guardar e perder a qualidade”.
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Emanuel da Silva vende pirarucu e passa pela mesma situação. “Estamos aí lutando, pedindo para o pessoal vir comprar peixe porque ninguém sabe, essa doença não tem resposta ainda”, lamentou. “Eu fazia R$ 500 por dia, hoje eu não apurei nada ainda”, relata.
O feirante Leandro Mascarenhas, de 36 anos, lamenta que não tenha sido informada se a doença veio de peixe de rio ou viveiro. “Hoje 90% dos tambaquis que aparecem nas feiras é de Porto Velho (RO) ou de Boa Vista (RR). Poucos peixes vêm do rio agora. Então, se realmente o problema está com peixe do rio, são poucos peixes do rio que tem aqui na feira”, disse.
Leandro vende tambaqui e matrinxã e alega prejuízos. “Se você vendia 20 peixes, hoje vende 14 ou 15”.

Edmar Marques reclama da forma como o surto da doença está sendo noticiado. “Estão espalhando que é quase todas as espécies que estão com essa doença, quando na verdade nem mesmo os profissionais (de saúde) estão sabendo explicar a origem e que espécie está afetada. Eles estão falando que é do pacu, tambaqui, pirapitinga, mas não dão uma informação concreta para a população”.
Nesta quarta-feira (1º), a FVS (Fundação de Vigilância em Saúde) orientou à população de Itacoatiara (a 176 quilômetros de Manaus), um dos pontos com mais casos da doença (36), a não consumir peixes por 15 dias das espécies Pirapitinga, Pacu e Tambaqui, capturados em rios e lagos.
No comunicado, a FVS esclarece que o pescado com origem de criadores em tanques de piscicultura não está associado aos casos da doença, além de outras espécies de peixes encontrados nas bacias de rios e lagos da região.
De acordo com Edmar, o pescado da feira não vem de um só local. “De Itacoatiara para cá não vem peixe. Pelo contrário, os feirantes que moram lá vêm comprar aqui. E quando começou a propagação dessa notícia desse peixe foi segundo a pesca que eles fazem para lá, o rio subindo”, afirma.
Como alternativa, alguns consumidores buscam peixes fornecidos de outros estados. “Eu estou dando preferência para o peixe que vem de fora, de Boa Vista (RR). Eu já fui atrás dos fornecedores”, conta Ana Maria, de 70 anos, que frequenta a Feira Manaus Moderna toda semana.

Carne vermelha
Mesmo com a redução na venda de peixes, o setor de carnes da Manaus Moderna não foi muito procurado. O açougueiro Marion Roque, de 54 anos, conta que até o momento não sentiu a mudança. “Talvez esteja migrando, mas bem pouco”. Marion afirma que a média diária de venda é de R$ 100 a R$ 150. “O poder de compra caiu muito, então a gente vai sobrevivendo”.
O açougueiro José Roque, de 52 anos, está há mais de 20 anos trabalhando na Manaus Moderna. Ele afirma que os últimos acontecimentos estão afetando o sustento. “A feira teve uma queda, teve o tempo da enchente. Não recuperamos o que era antes, porque veio a pandemia. Nós ficamos trabalhando em horário restrito. O governador botou a gente para trabalhar até 11 horas da manhã, enquanto o supermercado trabalhava até 10, 11 horas da noite”, comparou.
José também disse que o movimento permanece o mesmo no setor de carnes, mesmo após o surto da ‘doença da urina preta’.
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(Colaborou Murilo Rodrigues)
