
Nas viagens feitas a municípios do interior do Amazonas, percebe-se a crescente insatisfação da população com o Governo Bolsonaro, em função da falta de internet, obras de moradias paradas, abandono dos agricultores, ameaças aos indígenas, falta de segurança, cortes na educação, aumento da pobreza, dentre outras reclamações.
Estive visitando os municípios de Coari, Tefé, Alvarães, Parintins e Barreirinha. Em todos, o serviço de internet é ruim e caríssimo, dificultando os serviços públicos, o comércio, a educação. A presidenta Dilma tinha o Projeto Amazônia Conectada, para levar fibra ótica por cabos subaquáticos ao longo dos rios. Mas o golpe de 2016 acabou com tudo e até hoje nada foi feito. Mês passado, o presidente Bolsonaro vetou projeto que previa internet para todas as escolas.
O Programa Minha Casa Minha Vida foi extinto pelo atual Governo. Prometeram um novo: o Casa Verde e Amarela. Mas nenhuma casa foi construída para os mais pobres. Em Parintins, tem o Residencial Parintins, com quase 1.000 casas inacabadas. Já cobramos da Caixa Econômica e do Ministério do Desenvolvimento Regional a conclusão das obras. Muitas famílias já ocuparam os imóveis e aguardam uma solução. Mas tem obras paradas também em Tefé e vários outros municípios.
Na Vila Amazônia, em Parintins, tem um grande assentamento do Incra. Segundo os agricultores familiares, no Governo Lula, a estrada tinha manutenção periódica, tinha transporte escolar e apoio para escoamento da produção. Mas, agora, os trabalhadores rurais estão abandonados, com a estrada totalmente esburacadas e perigosa. Esta é a situação da maioria das estradas no Estado.
As estruturas de apoio aos povos indígenas estão sucateadas e com reduzida equipes de trabalho. É o caso da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), onde tiveram cortes profundos nos orçamentos e não há aumento de profissionais para atuarem nas áreas indígenas. A Funai parou com os estudos de demarcação de terras indígenas e não enfrenta as atividades ilegais de madeireiros, latifundiários e garimpeiros nestas terras dos povos indígenas.
Não se pode falar em segurança no interior do Amazonas. O contingente de policiais reduz a cada ano. As delegacias de polícia e os alojamentos da Polícia Militar estão funcionando de forma precária. Não há recursos, dizem. Mas o mesmo acontece com a Polícia Federal, que precisaria de mais pessoal e estrutura para atuar no enfrentamento do narcotráfico e à biopirataria.
Na fiscalização ambiental, o quadro não é diferente. O Ibama e o Instituto Chico Mendes (ICMBIO) tiveram severos cortes de recursos e sem aumento de técnicos. A fiscalização consegue impedir os crimes ambientais que ocorrem em lagos, áreas preservadas, reservas ambientais e áreas protegidas, causando intenso impacto ambiental e social, na vida dos povos tradicionais e ribeirinhos.
Estes cortes orçamentários ocorreram nas entidades de pesquisas, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), bem como na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e no Instituto Federal do Amazonas (Ifam), que tiveram obras e atividades paralisadas nos diversos campus no interior do Amazonas.
Chama atenção o aumento da pobreza e a necessidade crescente dos auxílios públicos para alimentação. O pagamento do Bolsa Família movimenta o comércio local. O aumento do desemprego e das atividades econômicas aumentaram a pobreza. Em 2020, cerca de 1,5 milhão de pessoas receberam o auxílio emergencial de R$ 600. Mas, este ano, não chega a 500 mil pessoas recebendo em média R$ 250. Aumento da miséria e da fome.
Apesar da Lei Aldir Blanc ter sido aprovada em 2020 e 2021, com meu apoio, ainda tem artistas e trabalhadores da arte e da cultura que não receberam esse benefício. Em Parintins, há dois anos sem o Festival Folclórico, as agremiações de bois buscaram apoio para os artistas. Mas a burocracia ainda é grande e a pandemia impede a liberação dos eventos.
Não menos danoso para a população está sendo a privatização do setor de energia. O Programa Luz para Todos parou. Inúmeras comunidades que não têm recursos para pagar as contas de energia. A Amazonas Energia está totalmente privatizada. A conta de energia aumentou muito e, devido à inadimplência, os cortes são diários. Estamos voltando ao tempo da lamparina.
Com o Governo Bolsonaro, o Amazonas está abandonado. Mas em todos os lugares o povo lembra do Lula e anseia por sua volta. Vamos ver.
José Ricardo Wendling é formado em Economia e em Direito. Pós-graduado em Gerência Financeira Empresarial e em Metodologia de Ensino Superior. Atuou como consultor econômico e professor universitário. Foi vereador de Manaus (2005 a 2010), deputado estadual (2011 a 2018) e deputado federal (2019 a 2022). Atualmente está concluindo mestrado em Estado, Governo e Políticas Públicas, pela escola Latina-Americana de Ciências Sociais.
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