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Variedades

‘Gossip Girl’ deixa para trás elite branca e alienada ao expor segredos dos ricos

13 de julho de 2021 Variedades
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Cena de Gossip Girl (Foto: Divulgação)
Carolina Moraes, da Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quando as rainhas da escola Constance, em Nova York, eram Blair Waldorf e Serena van der Woodsen, as intrigas entre as jovens super-ricas de “Gossip Girl” eram expostas num blog, e as fofocas chegavam como mensagens em celulares flip, abertos aos montes durante festas glamorosas.

Nove anos se passaram desde o fim da série, e a garota do blog está de volta com a mesma voz de Kristen Bell narrando os boatos da elite de Manhattan numa atmosfera exclusiva e fashion de 2021.

Mas o retorno de “Gossip Girl” parece apontar mais para diferenças do que para semelhanças com o original –movimento que é esperado e parece obrigatório em séries que retornam após mudanças vertiginosas entre gerações.

A começar pelo elenco. O núcleo central dessa história não é mais formado por brancos, cisgênero e heterossexuais. Agora, as duas protagonistas, Julien, interpretada por Jordan Alexander, e Zoya, papel de Whitney Peak, são negras. Max, interpretado por Thomas Doherty, que parece importar o trejeito garanhão de Chuck, beija homens e mulheres. Luna, papel de Zión Moreno, é uma mulher trans.

“Nós nos tornamos conscientes disso, mas quando eu assistia a ‘Gossip Girl’, ou a ‘Friends’, ou a qualquer outra série, eu não percebia que o que eu estava vendo era um elenco exclusivamente branco”, afirma Jordan Alexander, sobre a turma mais diversa da Constance de 2021.

“Quando aparecia uma pessoa negra, apontava-se que era uma pessoa negra. Mas quando uma pessoa branca aparecia na tela, era apenas um humano. Acho que é importante começar a quebrar isso e ir abrindo portas para outras pessoas.”

É de se imaginar que o retrato da elite de Manhattan da vida real seja mesmo branco, mas quase tudo na nova “Gossip Girl” se distancia da tela homogênea da turma da Queen B com muita naturalidade. Para Whitney Peak, é como se nem fosse algo fora do ordinário ter mais representatividade na tela.

A naturalidade apontada pela atriz é mais um sinal de que essa é uma tônica incontornável nas tramas e que deve atravessar outros seriados, como “Sex and the City”, que vai ganhar uma continuação de dez episódios batizada “And Just Like That…”.

Enquanto “Friends: The Reunion” parece ter se apoiado numa nostalgia sem grandes revisões, espera-se que o quarteto de “Sex and the City”, que agora será um trio com a ausência da atriz Kim Cattrall, volte embalado por mudanças mais estruturais.

Alguns trechos dos episódios do final da década de 1990, vistos hoje, parecem ter envelhecido mal. Afinal, é um grupo de mulheres brancas que passam a maior parte de seu tempo atrás de um bom partido pelas ruas de Nova York, apesar dos ares de liberdade brindados com cosmopolitan.

O icônico Mr. Big, que abala Carrie Bradshaw, era apontado positivamente na trama como o próximo Donald Trump -algo que hoje não soa mais como um bom termômetro desde que ele virou presidente.

Outro sinal dos tempos apontado no novo “Gossip Girl” é que essa geração foi atravessada por movimentos sociais emblemáticos, como o Black Lives Matter, o MeToo e o Occupy Wall Street e se engaja com problemas sociais.

Obie, papel de Eli Brown, por exemplo, expurga sua culpa de rica ajudando uma Aliança do Direito à Cidade, que orgulhosamente define como uma organização que tenta “parar o deslocamento de comunidades marginalizadas e de bairros históricos”. Para o ator, trata-se do retrato de uma geração que é, de fato, mais consciente.

A nova queen do grupo de adolescentes, muito mais high-tech que a da última geração, é Julien, uma influenciadora que conta com as amigas Monet, vivida por Savannah Lee Smith, e Luna para fazer cliques no horário perfeito da iluminação natural e postar retratos de uma vida quase perfeita com seu namorado, Obie. É nesse espaço criado pela profusão das redes sociais que está a nova garota do blog, como mais uma arroba no Instagram.

Jordan Alexander acredita que essa ida para a plataforma amplifica a trama da primeira fase da série, que começou em 2007. “No original, toda a ideia era de uma vigilância das mídias sociais, mas antes delas existirem”, afirma a atriz.

Isso porque o objetivo desse blog, com um autor que viveu no anonimato até o último episódio da série, era justamente expor a vida escandalosa dos adolescentes numa época em que eles mesmos nem expunham suas selfies na internet e que ainda eram surpreendidos por paparazzi nas esquinas da metrópole.

“Ter essa plataforma que é mesmo para compartilhar fotos e histórias faz com que a Gossip Girl agora esteja numa rede em que é muito fácil de mirar as vítimas”, diz Alexander.

Dessa vez, o mistério de quem é a Gossip Girl já acaba no primeiro episódio, o que Eli considera uma artifício interessante para o público acompanhar a trama. É uma garota do blog, inclusive, que chega para criar disputas que nem sequer existem, enquanto a geração anterior girava em torno da rivalidade de duas mulheres -mais uma disputa que ficou para trás, já que as duas protagonistas se gostam no início da trama.

A dúvida que fica é se a nova série vai se engajar com o que fez de “Gossip Girl” a “Gossip Girl” -um editorial fashion ambulante e um barraco de estremecer as famílias mais ricas da cidade a cada episódio. O primeiro está lá, com nomes clássicos e grifes mais novas desfilando na tela.

O segundo, nem tanto. O que temos como grande escândalo da nova “Gossip Girl” envolve uma bolsa de estudos de uma meia-irmã rica para sua outra meia-irmã pobre e, a julgar pelo primeiro episódio, esse enredo não parece ser suficiente para levar o público até os próximos capítulos da vida nem tão escandalosa da elite de Manhattan.

A discussão sobre esse novo perfil de fofoca no Instagram, aliás, poderia se aprofundar num reboot que acontece à luz de um uso excessivo das redes sociais como espelho do real e até guiar os dramas dessa nova geração, o que, por ora, não acontece.

Mas é certo que esses novos adolescentes estão conscientes de que problemas sociais estão aí, e que não há volta para os arroubos fantasiosos e um tanto alienados do começo dos anos 2000.

Whitney Peak avalia que não há mais desculpa para não se educar sobre questões em pauta, como racismo, feminismo e homofobia. E caso não saiba sobre algo, bom, “procure no Google”, diz Jordan Alexander.

GOSSIP GIRL

Onde Na HBO Max, com novos episódios toda semana

Elenco Kristen Bell, Evan Mock, Whitney Peak e Jordan Alexander

Produção EUA, 2021

Direção Joshua Safran

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Assuntos Gossip Girl, Netflix, Série
Redação 13 de julho de 2021
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