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Esporte

‘Maracanazo’ gerou estigma para goleiro negro na Seleção, diz escritora

16 de julho de 2020 Esporte
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Barbosa cai e tenta evitar o segundo gol do Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 (Fifa/Divulgação)
Da Folhapress

SÃO PAULO – A filósofa e escritora Djamila Ribeiro cresceu ouvindo o pai, Joaquim, falar sobre o Maracanazo. Ele, um militante do movimento negro, ficava indignado com a atribuição da culpa pela derrota na Copa do Mundo de 1950 à atuação do goleiro Barbosa.
Djamila, além da militância, herdou também essa indignação particular de Joaquim. Em 2015, ela escreveu uma coluna na revista Carta Capital dedicada ao tema.

Na ocasião, questionou os motivos pelos quais o 7 a 1 sofrido para a Alemanha, no Mundial do ano anterior, teve a sua culpa compartilhada, enquanto o revés no Maracanã, que completa 70 anos nesta quinta-feira, 16, recaiu quase que exclusivamente sobre Barbosa, um negro.

“Depois do 7 a 1, ninguém falou que goleiro branco não servia. Quando um indivíduo branco comete um erro, o indivíduo é discriminado. Mas quando o indivíduo marginalizado erra, o grupo todo é discriminado. É a lógica de não olhar a individualidade do negro. Quantos goleiros negros não tiveram seus sonhos atravessados porque essa questão foi sendo naturalizada no Brasil?”, questiona a filósofa, hoje colunista da Folha de S. Paulo.

Na segunda edição do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, publicada em 1964 com atualizações à obra original de 1947, o jornalista Mário Filho escreveu sobre a reação brasileira à derrota para o Uruguai.

“Uns acusavam (o técnico) Flávio Costa. Mas quase todos se viravam era contra os pretos do escrete. Assim três pretos foram escolhidos como bodes expiatórios: Barbosa, Juvenal e Bigode. Ao mesmo tempo que se observava esse recrudescimento de racismo, o brasileiro escolhia um ídolo às avessas: Obdulio Varela, mulato uruguaio, de cabelo ruim”, apontou o homem que dá nome ao Maracanã.

Os três foram responsabilizados especialmente pelo gol de Ghiggia, o do 2 a 1. O ponta direita uruguaio correu livre às costas de Bigode, e Juvenal não chegou a tempo na cobertura. Ghiggia chutou, e a bola entrou entre a trave esquerda e o corpo de Barbosa.

A Copa do Mundo de 1950 recuperou uma teoria do Estado Novo (1937-1945), da inferioridade do brasileiro como raça. A derrota no campo era, portanto, a derrota do brasileiro como povo, fruto da miscigenação. Um processo que o antropólogo Roberto DaMatta analisou como a ressuscitação “das velhas teorias racistas que são parte dominante da ideologia brasileira”.

“Essas teorias, como as teorias biologizantes do século 19, tentaram justificar uma suposta inferioridade do negro. A gente tem mais tempo de escravidão do que de não escravidão. Precisamos continuar a falar mais disso, porque durante muitos anos se negou a existência do racismo, que não era tratado como um problema”, afirma Djamila.

Repetido por décadas, o discurso da fragilidade do negro criou uma mística negativa para os goleiros e ainda habita o imaginário do brasileiro.

De Barbosa até a Copa do Mundo de 2018, só houve dois goleiros negros titulares da seleção brasileira em Mundiais. Manga, em 1966, e Dida, reserva em 1998 e 2002, que foi o dono da camisa 1 em 2006.

De lá para cá, apenas Jefferson ocupou a posição em breve período após o Mundial de 2014, com Dunga no comando.

Chico Anysio, às vésperas da Copa de 2006, afirmou ao Diário LANCE!: “Não tenho confiança em goleiro negro. O último foi Barbosa, de triste memória na Seleção Brasileira”.

O humorista era vascaíno, clube pelo qual Barbosa conquistou cinco estaduais do Rio nas décadas de 1940 e 1950, no time que ganhou a alcunha de “Expresso da Vitória”.

Mais recentemente, o ex-atacante Edílson, pentacampeão do mundo, afirmou que goleiros negros são mais propensos a falhar. O contexto da declaração era a titularidade de Jailson, campeão brasileiro pelo Palmeiras em 2016.

Edílson, campeão com Dida no Corinthians e na seleção, afirmou que não se tratava de racismo, mas de uma brincadeira comum no futebol.

“Havia uma piada racista que eu ouvia na minha infância, que negro ‘se não caga na entrada, caga na saída’. Isso está muito dentro do imaginário brasileiro de culpar o negro por seus fracassos”, diz Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

“Jailson saiu de cena sem que se apontasse um problema. Aranha saiu de cena após brigar contra o racismo. Jefferson disse que um dirigente da CBF não o convocou (para a seleção sub-20) por ser negro. O futebol brasileiro alimenta essas histórias racistas, que vão se reproduzindo”.

Carvalho acredita que a estrutura diretiva dos clubes do país, forjada ainda na herança de dirigentes que assumem cargos ocupados no passado por seus pais ou parentes, contribui para esse racismo travestido de folclore, reproduzido por diferentes gerações de quem comanda o futebol.

Em 2020, o observatório recebeu dez denúncias de casos de racismo no futebol brasileiro, mesmo com a interrupção da pandemia. Em 2019, foram 63 denúncias, número maior que o do ano anterior, 44.

Para o diretor executivo, o debate sobre racismo evoluiu, mas ainda está na superfície. A discussão sobre racismo estrutural, que é o que tolheu parte importante das carreiras de gerações de goleiros negros desde Barbosa, inclusive o próprio goleiro de 1950, ainda precisa ser aprofundada.

“É difícil fazer alguém entender o porquê de não ter goleiros, técnicos ou dirigentes negros. Aí falam sobre meritocracia, toda a balela de defesa ao sistema”, diz Carvalho, que encontra concordância nas palavras de Djamila Ribeiro.

“Houve uma cobertura muito grande por parte da mídia brasileira dos movimentos nos Estados Unidos, como o “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”), mas não há a mesma repercussão quando esses movimentos são aqui no Brasil. Porque ainda não se discute o sistema. O empregador vai nas redes sociais e mostra o repúdio ao racismo, mas não entende que o ambiente dele é todo branco”, completa a filósofa.

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Assuntos Escritora, Goleiro, Maracanazo, Racismo, seleção
Redação 16 de julho de 2020
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