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Variedades

Violonista amazonense encontra manuscrito perdido de Villa-Lobos

20 de janeiro de 2020 Variedades
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Cópia manuscrita de ‘Canção do poeta do século XVIII’, era dada como perdida há mais de sessenta anos (Foto: UNIRIO/Reprodução)
Da Folhapress

RIO DE JANEIRO – Não é de hoje que o violonista e professor Humberto Amorim, 39, atende pelo apelido Indiana Amorim. Nascido em Manaus e criado em Porto Velho numa família de advogados, abandonou o curso de direito aos 19 anos para estudar violão no Rio de Janeiro e, junto com a paixão pela música, viu surgir um interesse cada vez maior pela pesquisa em acervos brasileiros atrás de raridades.

Amorim calcula ter encontrado 20 mil títulos ou mais, de 1950 para trás, de peças inéditas ou esquecidas. Em 2019, garimpou duas pepitas que vêm a público nesse início de ano em publicações especializadas. 

Ele localizou na biblioteca da Unirio a partitura manuscrita da “Canção do Poeta do Século 18“, de Heitor Villa-Lobos -dada como extraviada nos dois catálogos do Museu Villa-Lobos- e descobriu um periódico brasileiro sobre violão de 1857, O Guitarrista Moderno, numa aventura rocambolesca em Portugal para resgatar os únicos exemplares de que se tem notícia.

São achados que coroam a verdadeira obsessão do pesquisador e explicam a comparação com o arqueólogo do cinema em trabalho majoritariamente solitário e sem financiamento. Amorim estará nessa quinta, 23, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc apresentando o periódico e interpretando algumas das peças, como trechos da ópera ‘La Traviata’, de Verdi.

“É um material raríssimo, do qual tive notícias quando fui pesquisador-residente da Biblioteca Nacional, entre 2015 e 2017”, conta. “Pensava-se que o primeiro periódico brasileiro sobre o violão datasse de 1928, mas, nos jornais, descobri anúncios de partituras desde 1810. São 80 anos de uma história submersa, quando o violão era protagonista nos saraus com transcrições operísticas e danças de salão burguesas.”

O periódico foi publicado pela Imprensa Imperial, a Felippone & Tornaghi, tamanha a força do material à época.

A “submersão” do instrumento como personagem da burguesia e a consolidação da imagem do violão como marca da malandragem se deve, segundo Amorim, a uma “guerra de narrativas”.

No olhar que prevaleceu, o violão de concerto brasileiro só surge nas primeiras décadas do século 19. “A partitura mais antiga que a gente conhecia até três anos atrás é de 1904, a inacabada ‘Valsa de Concerto n° 2’, de Villa-Lobos”, afirma Amorim. 

Ele aplica o termo “reconstrução da musicologia” do instrumento no contexto dessa descoberta, que contradiz a noção tão bem representada pelo personagem Policarpo Quaresma de Lima Barreto (“a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que coisa? Um homem tão sério metido nessas malandragens!”) e pelas histórias de prisões “só pelo sujeito ter calos nos dedos”, lembra o pesquisador.

Os exemplares do Guitarrista foram encontrados em Portugal. “Nas dezenas de acervos aqui, não havia nada”, lembra. “Quando me dei conta de que houvera edições portuguesas reproduzindo o periódico brasileiro, decidi percorrer os sebos de lá.” 

Encontrou no Porto um método oitocentista, de Dionísio Aguado, encadernado com 11 edições da revista brasileira, “exemplares únicos no mundo”, afirma. O preço era de EUR 3.000. Impossível: “Eu estava falido, com duas malas cheias de preciosidades. Abri meu contracheque e chorei. O colecionador acabou deixando por EUR 1.200, que peguei emprestados. Chorei de novo no aeroporto, já que não tinha mais um tostão para a bagagem, que acabou indo na cabine por generosidade da companhia aérea”.

Já a descoberta da partitura para canto e violão de “Canção do Poeta do Século 18”, de 1953, saiu de graça, mas exigiu um mergulho nos arquivos da Fonoteca Pernambuco de Oliveira, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, herdeira do acervo do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico de Villa-Lobos, constituído em 1942 com a finalidade de produzir material para os programas de formação e apresentações na época do Estado Novo. 

“Chegaram partituras impressas e também manuscritos”, explica Bárbara Ribeiro, a bibliotecária da instituição. “Ficamos, em julho, dez horas por dia catalogando o material passivo, ainda guardado; e lá estava.”

O extravio da peça envolve a entrega do único manuscrito por Villa-Lobos à cantora Cristina Maristany, à qual é dedicada, e a perda do original e da cópia feita pelo violonista Jodacil Damaceno. Restou a gravação, de 1967, de Damaceno com a cantora Ludna Biesek. “Cheguei a tirar a peça de ouvido, fiz uma partitura que circulou por aí”, lembra Amorim, mas o original só agora apareceu.

A “Canção” permanece na biblioteca da Unirio. Já os 11 números do periódico estão no estúdio de Amorim no Rio de Janeiro, que tem um sonho: “Assim que me recuperar financeiramente, quero montar um centro cultural no Rio para abrigar meu acervo e promover concertos de violão”. 

“O Guitarrista é talvez o material mais raro da coleção, mas tenho centenas de raridades da primeira metade do século 19”, diz Amorim. Com dois livros publicados, entre eles “Heitor Villa-Lobos e o Violão” (Academia Brasileira de Música), o sonho tem data de validade: se não conseguir o espaço em três anos, vai doar tudo para uma das principais bibliotecas musicais do Rio, as da UFRJ, a da Biblioteca Nacional ou a Fonoteca, na Unirio.

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Assuntos Humberto Amorim, Villa-Lobos
Redação 20 de janeiro de 2020
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