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Esporte

Mulheres enfrentam machismo no caminho para a elite dos eSports

10 de julho de 2019 Esporte
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Rainbow Six é uma das principais competições de eSportes do Brasil (Foto: Emilson Mendes/Photo Press/Folhapress)
Da Folhapress

SÃO PAULO – “Só colocaram porque é mulher”. “Querem pôr goela abaixo uma mina entre os melhores”. As frases são uma amostra de mensagens machistas escritas em redes sociais e direcionadas a Danielle “Cherna” Andrade, 19.

A jovem é a única mulher indicada à categoria melhor atleta de Rainbow Six: Siege do prêmio eSports Brasil, realizado em dezembro do ano passado.

Rainbow Six: Siege é um jogo de tiro tático entre duas equipes, com perspectiva em primeira pessoa. De acordo com a Ubisoft, produtora do game, no Brasil existem dois milhões de jogadores ativos. No mundo, 45 milhões.

O caso de Cherna não é exceção. Assim como a atleta, diversas outras garotas gamers, profissionais ou não, são alvos constantes de comentários “tóxicos”, como são chamadas as ofensas dentro do mundo dos games, que vão da misoginia ao racismo e passam por todo tipo de assédio.

“Quando eu recebi a informação de que eu havia sido indicada ao prêmio, eu fiquei muito feliz, mas já imaginava que eu sofreria com comentários de ódio”, conta Cherna.

Além de mensagens com questionamentos sobre suas habilidades no game, a jogadora, que é negra, também foi vítima de comentários racistas.

Ela faz parte de uma minoria no cenário profissional competitivo, dominado por homens. Por outro lado, as mulheres são maioria entre os jogadores de videogame no Brasil. Segundo números da pesquisa Game Brasil 2019, elas representam 53% dos gamers do país.

Cherna começou a gostar de games quando ainda era criança, incentivada por um primo, que a presenteou com um computador quando ela completou 12 anos. Foi ele, também, que desde o início a alertou sobre os problemas que ela enfrentaria. Mesmo assim, seguiu em frente e decidiu se tornar uma jogadora profissional.

“Quis entrar no cenário competitivo porque minha família sempre me disse ‘você não pode deixar de mostrar seu talento’. As competições eram fascinantes para mim, então, pensei: eu já tenho o ‘não’, por que que eu não posso correr atrás do ‘sim’?”, conta a cyber atleta, que treina online sozinha e com suas colegas de equipe todos os dias da semana.

Ainda que seja considerada uma das principais jogadoras profissionais do país, Cherna reclama da falta de oportunidades para as mulheres nas equipes que disputam os principais campeonatos. Para ela, existe uma “panela” de jogadores, na qual sempre os mesmos têm espaço.

“Meu sonho é entrar na Pro League. O que falta para isso é colocar na mente desse pessoal [do meio] que mulher joga bem. Independente de TPM e outras coisas. Muitas pessoas não acreditam. Muitas meninas jogam bem. Está faltando visibilidade e muito respeito”, afirma.

A Brazilian Crusaders, equipe da qual Cherna fazia parte, anunciou no último dia 1º seu fim, por falta de patrocínio.

As principais competições de Rainbow Six: Siege, como o Brasileirão de R6, a Pro League (torneio com etapas regional e global) e o Six Invitational (uma espécie de Copa do Mundo) são mistas. Não há campeonatos só para homens no game. No entanto, um circuito para mulheres foi criado no Brasil pela empresa dona do jogo, no ano passado, com o intuito de atrair mais jogadoras.

Colega e capitã do time de Cherna, a bicampeã do Circuito Feminino Myllena “Myss” Almeida, 20, vê a criação de torneios femininos de maneira positiva. Uma forma de incentivar garotas que têm medo ou receio de entrar no mundo das disputas eletrônicas.

“Eu apoio muito isso. Como estou desde o começo acompanhando o cenário feminino, eu vi um grupo de seis meninas virarem 100, 200. A Ubisoft sempre estendeu as mãos para nós, mulheres”, disse ela.

Ela afirma que as disputas exclusivas para mulheres não tiraram de seu time e de outras garotas o desejo de concorrer nas principais competições de R6. “Antes era só o nosso time que disputava vaga para a elite do cenário. Hoje, muitas meninas tentam e demonstram vontade de tentar.”

Myss tem a paixão pelos games desde quando era criança, graças aos pais, jogadores casuais e donos de uma lan house, onde ela trabalha todas as manhãs antes de ir para seu curso de enfermagem, no período da tarde.

Além dos ataques sofridos, a jovem destaca outras dificuldades para as mulheres: os olhares de reprovação e o fato de, segundo ela, receberem salários menores do que os dos homens, o que impossibilita muitas delas de se dedicarem exclusivamente aos eSports.

“De manhã, eu trabalho. De tarde, tenho que estudar. Então, chego correndo às 18h30 em casa para começar a treinar às 19h. Infelizmente tem aquele preconceito na sociedade. ‘Garota vai ganhar a vida jogando videogame?’ É mais fácil o menino que terminou o colégio entrar nessa e ter o apoio dos pais do que uma garota”, lamenta.

Em janeiro deste ano, um outro episódio de machismo e assédio teve grande repercussão no meio. A jogadora profissional Camila “Kalera” Vieira compartilhou um vídeo no qual uma colega da sua equipe, a Medusa Players, é xingada e assediada por outro jogador durante partida.

Após a denúncia, a produtora do game baniu o responsável pelas ofensas. “Como forma de tentar combater esse preconceito, a Ubisoft passou a banir jogadores com discursos de ódio. Eles são detectados por meio de feedbacks da própria comunidade e encaminhados para os responsáveis internos”, diz Marcio Canosa, diretor de eSports da Ubisoft na América Latina.

Para o diretor, o objetivo da criação de uma liga feminina é, além de conscientizar o público sobre a atuação das mulheres no mercado de games, o circuito funcionar como uma vitrine para as atletas.

Um dos maiores nomes dos esportes eletrônicos no Brasil, a ex-jogadora profissional e atual CEO da Black Dragons Nicolle “Cherrygumms” Merhy, 22, tem uma visão diferente.

“Acho que a curto prazo é algo que irá incentivar. Há muitas meninas que jogam e outras que não sabem que as meninas também jogam. Eu sei que separaram para que tenha um ambiente melhor. Mas a longo prazo eu vejo que isso pode tornar as coisas piores, a ponto de os jogadores mesmos falarem: ‘tem os campeonatos femininos, então teu lugar não é aqui”, afirma.

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Assuntos eSports, machismo, mulheres
Redação 10 de julho de 2019
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