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Política

Política de ‘narrativa ambientalista’ pode causar colapso do agronegócio, diz especialista

29 de maio de 2019 Política
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Ricardo Felício (à direita, de frente) alertou sobre política ambiental (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

Da Agência Senado

BRASÍLIA – O Brasil corre risco de ver seu modelo de agronegócio entrar em colapso, aprofundar o processo de desindustrialização e prejudicar o desenvolvimento energético nos próximos anos, caso mantenha seu “atrelamento a uma narrativa ambientalista” pautada por órgãos de governança global. Essa foi a tônica da apresentação do geógrafo e climatologista Ricardo Felício, da Universidade de São Paulo (USP), durante audiência pública conjunta das comissões de Relações Exteriores (CRE) e de Meio Ambiente (CMA) do Senado nessa terça-feira, 28.

Felício disse que tem passado desapercebida a iniciativa do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) de criar, em seu âmbito, uma subagência voltada ao controle mundial da emissão de dióxido de carbono (CO2), o gás considerado causador do aquecimento global. Para ele, caso essa iniciativa do IPCC, que atua na órbita da Organização das Nações Unidas (ONU), seja bem-sucedida, países como o Brasil tendem a ser prejudicados.

“A criação dessa nova agência já vem sendo trabalhada oficialmente. Assim como a ONU monitora a produção mundial de urânio, intenta fazer o mesmo com o CO2. Esse órgão poderá controlar todas as formas de produção dos países. Eles correlacionam uma narrativa de ‘mudanças climáticas’ a todas as esferas de desenvolvimento, como os setores industriais e de energia, entre outros. Esse sistema de controle gerará o encarecimento da energia, diminuição da produção, desindustrialização, além de recuos do agronegócio e na mineração. Nossa conta de energia só sobe porque investimos apenas em eólica, biomassa e solar, as três mais caras. Como o país vai se industrializar e atrair investimentos se a energia é extremamente cara?”, criticou.

Soberania

Felício também criticou a legislação brasileira que, a seu ver, impede investimentos em áreas sob proteção ambiental. Ele destacou que 66,3% do território já estaria ‘bloqueado’, ou seja, não poderiam adotar o que chamou de políticas soberanas de desenvolvimento. O pesquisador citou que dentro dessa parte do território, 30,2% estão intocados por serem reservas indígenas e unidades de conservação, o maior percentual verificado no mundo.

“Austrália, China, EUA, Russia e Canadá também têm áreas protegidas, mas são completamente diferentes das nossas. A Austrália protege áreas desérticas, a China protege o Tibet, onde só tem neve. Os EUA protegem o Alaska e um ou outro parque. Já Brasil e Argélia, por exemplo, protegem a floresta. Relatórios do próprio IPCC mostram que a cobertura mais ampla se dá na America Latina, com metade das terras protegidas no Brasil. Coincidentemente, cabe sempre aos países pobres proteger as florestas”,   ironizou.

Para Felício, muito do que se decide nos fóruns ambientalistas atende a interesses ligados à disputa de mercado. Citou legislações europeias e norte-americanas bem mais liberais no que tange à exploração agrícola, permitindo um usufruto territorial bem superior ao verificado no Brasil. Hoje, com só 7,6% de seu território ligado ao agronegócio, a produção brasileira alimenta 1,5 bilhão de pessoas no mundo.

“O Brasil hoje alimenta 21% do mundo. Se nossa área produtiva for dobrada, ainda assim teremos menos território com esta finalidade que os EUA, mas alcançaremos metade do mercado mundial. No entanto, qual é nosso cenário hoje? Dívida pública em grande crescimento, privatizações estratégicas e inúmeros problemas sociais. Se continuarmos nesta toada, vamos ficar sem energia, sem produção, sem dinheiro, sem pagar a dívida e atingiremos a insolvência”, criticou.

Outro grande risco para o Brasil, segundo Felício, está na atuação da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), outro organismo que atua no âmbito da ONU. “A riqueza da Amazônia vai muito além da madeira e do agronegócio. O IPBES quer pagar 4% de royalties pela biodiversidade. Isso está passando batido, mas nossa riqueza em termos de biodiversidade é simplesmente impossível de ser calculada”, alerta.

Erros do IPCC

Durante sua fala, o professor ainda fez inúmeras críticas aos protocolos científicos divulgados pelo IPCC e à tese de que o ser humano é o principal responsável pelas mudanças climáticas. “Alegam que há consenso científico, mas isso é mais uma fraude. O tal consenso é fruto de financiamento das pesquisas. Só 0,37% entre mais de 12 mil artigos publicados de fato afirmam que o homem seria o principal causador do aquecimento global, segundo um levantamento norte-americano. O resto não põe a mão no fogo, mas conclui que outras pesquisas são necessárias, ou seja, é necessário um novo financiamento”, disse.

Felício ainda denunciou que em 31 anos de atuação, o IPCC jamais realizou qualquer prognóstico acertado relacionado, por exemplo, a períodos de seca no Nordeste brasileiro, a quedas abruptas de temperaturas sazonais na Europa e na Ásia ‘por anos seguidos’ ou às temperaturas baixas inter-sazonais verificadas nos EUA.

“A temperatura do ar global média significa alguma coisa dentro de um macroclima, que é algo extremamente complexo. Basta estabelecer um valor de temperatura, e eles então dizem quantos ciclones vão ter, quanto vai nevar, chover ou quanto os mares vão congelar. Isso é um total absurdo, qualquer climatólogo acha isso ridículo, pueril e infantil. Como isso é tão forte há mais de 30 anos? O macroclima do planeta é extremamente complexo, não faz sentido analisá-lo com base num termômetro médio, pueril, num planeta onde as temperaturas variam de 89ºC negativos a 58ºC positivos”, afirmou.

Homem X clima

Felício afirma que, em seus relatórios, o IPCC diz não ter como comprovar se o CO2 é o principal agente das mudanças climáticas. Citando também um estudo norueguês, demonstrou que a emissão do dióxido de carbono acompanha as temperaturas dos oceanos e dos continentes.

“Quando você coleta esses dados, fica claro que quando as temperaturas de oceanos e continentes sobem, o CO2 vai atrás. E vice-versa. Os relatórios do IPCC, que ninguém lê porque tem mais de 3.000 páginas, só se lê um resumo de 25 páginas que serve a interesses políticos. Se alguém lesse o relatório completo saberia disso. O próprio IPCC afirma que as variações do dióxido de carbono seguiram a temperatura nos últimos séculos. Na página 446 do mais recente relatório, o órgão admite que as emissões permanecem ‘um difícil problema de atribuição’. Ou seja, eles já reconhecem que até hoje não tem nenhuma prova”, garantiu.

Por fim, Felício criticou a banalização da expressão ‘mudanças climáticas’, algo que considera ‘um verdadeiro pleonasmo’, pois alterações naturais marcaram e sempre marcarão o planeta. Para ele, as chamadas ‘mudanças climáticas’ viraram um coringa também a serviço de interesses geopolíticos poderosos.

O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) elogiou a palestra do geógrafo, criticando especialmente o modo como o país negligencia sua biodiversidade, servindo como “um quintal explorado ao bel-prazer de potências estrangeiras”, que extraem lucros bilionários de nosso território sem destinar nada à população brasileira.

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Assuntos agronegócio, mudança climática
Cleber Oliveira 29 de maio de 2019
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