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Dia a Dia

Ensaio – A permanente degradação ambiental do Igarapé do São Raimundo

27 de maio de 2017 Dia a Dia
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Por Valter Calheiros*, especial para o ATUAL

A cheia dos rios da região amazônica nos proporciona apreciar as belezas das águas negras e barrentas e também registrar a degradação ambiental presente nos igarapés que cortam a cidade de Manaus. Para tanto, registramos em fotografia a entrada da Bacia Hidrográfica de São Raimundo na orla do bairro da Glória, zona centro-oeste de Manaus.

Na manhã do sábado 20 de maio de 2017, acompanhado da jornalista Elza Souza, embarcamos na tradicional canoa de madeira com remo de faia, meio de transporte raro nos dias de hoje, tendo ao comando o senhor Vanildo Andrade da Costa, de 69 anos de idade, nascido no bairro da Glória no ano de 1947, conhecido como seu Bebé.

Quem viaja com o senhor Bebé tem a garantia da experiência e conhecimento das águas, pois desde dezembro de 2004 ele transporta em sua catraia trabalhadores do bairro da Glória até o bairro de Aparecida. A travessia dura apenas 10 minutos ao preço de R$ 1,00 e ao final do dia o apurado chega a até R$ 20,00, dinheiro que ajuda no sustento da família.

No percurso da viagem se visualiza os investimentos do governo do estado em obras na orla do bairro da Glória realizada pelo Prosamim (Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus). O programa retirou casas que há décadas foram construídas à margem do rio sem o menor cuidado ambiental, arquitetônico ou paisagístico. Mas, nem tudo mudou na orla do igarapé. A degradação ambiental do lugar é visível.

Navegando na catraia, percorremos o igarapé por três horas, num trajeto que compreendeu do bairro da Glória de um porto onde atracam barcos ao lado da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), tendo à frente o bairro de Aparecida, próximo do Centro de Convivência do Idoso, fomos até a Avenida Constantino Nery, nas proximidades da Catedral da Igreja Universal do Reino de Deus.

No percurso encontramos pássaros como o gavião panema, garça, piaçoca, socó-boi e o pássaro carão, aquele que costumamos ver representado na dança da ciranda. Pequenos pássaros pousam em um frondoso pé de jenipapo e outros caminham sobre a vegetação nativa, onde predomina o mureru, tipo de planta aquática que naturalmente faz a limpeza do igarapé.

Diante de tanto lixo no leito do igarapé há de se afirmar que os recursos públicos utilizados na orla da Glória e São Raimundo faltaram-lhes maior investimento nas áreas de educação ambiental e saneamento básico. Por todo o igarapé se encontra garrafas PET, sofás e camas, mala e bolsas, caixas de isopor, carcaças de aparelhos eletrônicos, sacolas plásticas, vasilhames de todas as espécies, copos e recipientes descartáveis.  Joga-se todo tipo de lixo e esgoto no leito do igarapé, e há poucos dias o corpo de um homem foi encontrado boiando nas águas.

Para retirar tanto lixo e diminuir a poluição, a Prefeitura de Manaus mantém duas balsas que semanalmente retiram toneladas de lixo que se encontram espalhadas por toda extensão do igarapé. E assim, o dinheiro do contribuinte, fruto do pagamento de impostos, que deveria melhorar a vida dos cidadãos de Manaus, também viram lixo.

Como proposta para enfrentarmos tamanha degradação ambiental, a igreja católica trás para discussão junto à sociedade a Campanha da Fraternidade (CF-2017), que tem como lema “Cultivar e guardar a criação (Gn 2,15)” e tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. Esperamos que a campanha possa despertar nas universidades, acadêmicos, movimentos sociais, poder público e demais organizações da sociedade para a realização de fóruns de debates sobre a realidade das águas dos igarapés, viabilizando o surgimento de ações práticas nas áreas da educação, cidadania, políticas públicas e legislação ambiental.

Enquanto isso, ao “caboco” manauara resta sonhar que um dia ele possa voltar a tomar banho e mergulhar em águas limpas nos igarapés de Manaus.

*Valter Calheiros é educador atuante em projetos sociais na defesa e promoção dos direitos de criança e adolescente / Pesquisador e fotografo do Movimento Socioambiental SOS Encontro das Águas / Graduado em Teologia pela Universidade Católica Santa Úrsula e Centro de Estudos do Comportamento Humano - CENESC-AM. / Pós-Graduado em Pesquisa e Ação Social pela Faculdade Tahirih – Manaus - Amazonas

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Assuntos Amazonas, Amazônia, igarapés, Lixo, Meio Ambiente, poluição
Valmir Lima 27 de maio de 2017
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