
MANAUS – O Amazonas está em meio a uma condição de respiração inaceitável. Há vários incêndios no entorno de Manaus. Cidades como: Autazes, Borba, Codajás, Manicoré e Nova Olinda do Norte estão com o Índice de Qualidade do Ar insalubre ou muito insalubre.
Não parece haver ações contundentes para sanar a condição. O recurso que aparece dá a impressão de ser insuficiente e muito distante do que é necessário. Parece que não temos ambientalistas quando mais precisamos deles. Não percebo a ampliação de suas vozes neste momento alarmante.
Se não conseguimos ficar tristes com esta condição de respiração, se estamos estáticos neste momento, há algo muito errado na estrutura social. Perdemos a capacidade de dialogar e enfrentar um problema que afeta o ponto mais básico do chamado “pulmão do mundo”: o ar que se respira. A poluição das queimadas não pode ser normalizada. Estamos em meio à várias grandes queimadas.
O território somado destes municípios é de 136.651 quilômetros quadrados. Esta área é praticamente a mesma da Grécia inteira, maior que a Islândia e Bélgica somadas. Temos um território equivalente a um ou mais países sendo tragado pelo ar sem qualidade para respiração humana e estamos assistindo a isso sem transformar o fato numa operação de guerra no combate das queimadas.
A dessensibilização é uma das características mais danosas de corrosão do tecido democrático. Boaventura de Souza Santos analisa esta crise do contrato social, quando o coletivo deixa de ter importância. É como se respirar um ar puro fosse um privilégio indevido. Respirar um ar saudável é uma necessidade e todo os esforços deveriam estar voltados para isso. Mas não vemos um movimento amplo e determinado nesta direção. Jason Stanley também discute isso, quando ampliamos a tolerância para estes temas intoleráveis.
Não faz sentido normalizar a queimada. Não faz sentido aceitarmos passivamente esta situação. Já passou da hora, mas nunca é tarde. É necessário enfrentar esta crise. Falta dar o nome de crise para uma condição inaceitável que temos. Um pré-requisito para a barbárie é a remoção da sensibilização social. Não podemos tolerar esta condição de quietude em meio este cenário de destruição, cheio de focos de incêndio, de fumaça e de fogo.
O alarme local é tímido. O alarme nacional menos ainda. Todavia, olho pela janela e só vejo fumaça. Faz dias que estamos assim. A cidade toda. Sem trégua. É inaceitável que este assunto não ganhe um enfrentamento apropriado. Por onde andam os jornalistas e ambientalistas com drones. Cobrimos eventos de incêndio nos EUA ou Europa, mas somos incapazes de dar importância para o território brasileiro pegando fogo. Quem são os interessados nestes incêndios? Por que eles acontecem? Qual a dificuldade dos órgãos competentes? O Ministério Público já considerou analisar a questão?
Há uma emergência. Esta dessensibilização das mídias e das massas é um dos elementos mais danosos para uma democracia. Precisamos colocar luz nesta questão e dar importância, porque o Brasil é mais do que o litoral.
As queimadas que temos estão distantes das pequenas preparações de pasto ou de área para plantio. Enquanto não houver um entendimento das causas das queimadas e um conjunto de ações para evitar que elas voltem a acontecer, ficaremos destruindo a floresta e a saúde de milhões de pessoas. Qual a razão da paralisia?
Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
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