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Política

Direita cresce na Amazônia e pressiona políticas públicas e direitos sociais

18 de outubro de 2026 Política
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Assembleia Legislativa de Rondônia terá o maior número de deputados do PL no Norte (Foto: ALRO/Secom/Divulgação)
Assembleia Legislativa de Rondônia terá o maior número de deputados do PL no Norte (Foto: ALRO/Secom/Divulgação)
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL 

MANAUS – Os nove estados da Amazônia Legal ampliaram a representação do PL (Partido Liberal) nas assembleias legislativas para o mandato de 2027 a 2035. Na região, o número de deputados estaduais eleitos pelo partido saltou de 24 para 43. O maior crescimento ocorreu em Rondônia, com cinco deputados a mais, e em Roraima e no Pará, onde cada assembleia receberá mais quatro representantes da legenda. 

O crescimento também é observado no Senado, para o qual foram eleitos seis senadores do PL na região amazônica: dois de Rondônia e um de cada um dos seguintes estados: Roraima, Acre, Mato Grosso e Tocantins. O partido terá a maioria das cadeiras tanto no Senado, com 28 representantes, quanto na Câmara dos Deputados, com 121. 

O resultado mostra o avanço do partido alinhado às principais pautas da direita brasileira. É a mesma legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República, e de integrantes de sua família eleitos em 2026, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal; os filhos Carlos Bolsonaro, eleito senador por Santa Catarina, e Jair Renan Bolsonaro, eleito deputado federal pelo mesmo estado; e o irmão Renato Bolsonaro, eleito deputado federal por São Paulo. Também concorre pela legenda, no segundo turno, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro. 

Perfil do partido 

Em seu programa nacional, o PL defende o liberalismo econômico, a propriedade privada, o empreendedorismo, a menor intervenção do Estado na economia, a desestatização e as concessões na área de infraestrutura. Afirma, também, que valoriza a família e os costumes.

No entanto, a ala de representantes do partido em todo o país vai além: reforça pautas associadas à extrema direita, como a ampliação do acesso a armas, a oposição a propostas identificadas com o debate sobre gênero e sexualidade, o apoio ao agronegócio e à exploração de recursos naturais e o questionamento sobre a atuação da imprensa e do Judiciário.

Com as casas legislativas da Amazônia e a representação política federal mais alinhadas à direita, analistas afirmam que, nos últimos anos, essa corrente ampliou espaço por diferentes meios. “Dentre eles, podemos sublinhar as igrejas, as redes sociais, as emendas secretas, os meios de comunicação de massa, etc”, disse o cientista político e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Marcelo Seráfico.

Apesar de reconhecer o avanço da direita, ele afirma que não é possível relacionar o resultado das eleições em 2026 com a mudança ideológica dos eleitores na Amazônia.

“No Amazonas e no Pará, diferentemente dos demais estados amazônicos, o presidente Lula obteve mais votos do que seu adversário imediato, Flávio. Ao mesmo tempo, as bancadas de um e outro se dividem entre candidatos de extrema direita e uma direita democrática. Logo, é improvável que as escolhas exprimam uma consciência ideológica, talvez estejamos diante de escolhas politicamente inconscientes, no sentido de que se dão sem uma criteriosa avaliação sobre as implicações práticas da própria escolha”, afirma Seráfico. 

Crescimento eleitoral da direita 

Em relação a 2022, todos os nove estados amazônicos aumentaram a porcentagem de votos para candidatos de direita à Presidência da República. No Amazonas, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro obteve 42,80% dos votos válidos em 2022, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 45% no primeiro turno em 2026.

Dentre os estados, a diferença mais significativa ocorreu no Tocantins (de 44% para 50,44%), em Mato Grosso (de 59,84% para 65,15%) e Maranhão (de 26,02% para 30,90%). Os maiores percentuais de votação para candidatos à direita estão em Roraima, que concentrou 71,06% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, e em Rondônia, onde o candidato do PL obteve 67,45% dos votos.

No último caso, ocorre o que o cientista social e professor da Universidade Federal de Rondônia, Vinícius Miguel, chama de “antipetismo estruturante”. Ele cita alguns fatores que favorecem a direita no estado. 

“A explicação passa menos por adesão ideológica do que por sedimentação histórica. [Rondônia] é um estado formado por colonização dirigida, com titulação incompleta, produziu um eleitorado que associa prosperidade à posse da terra e descreve, sem necessariamente acreditar ou esperar isso, o Estado como entrave”, avalia.

“A clivagem centro-periferia se soma ao realinhamento cultural e religioso: 41,2% de evangélicos (Censo 2022) e antipetismo estruturante. A hegemonia, porém, é acomodada por disputas internas no próprio campo da direita: em 2022, dois bolsonaristas disputaram o governo, e Marcos Rocha venceu por 52,47% a 47,53%”, explicou Vinícius. 

No Amapá, onde as maiores bancadas da Assembleia Legislativa são de partidos de direita, como União Brasil e Republicanos, o favorecimento dessa corrente política ocorre, entre outros fatores, pela corrosão de dinastia políticas. E também pela valorização do agronegócio como lógica socioeconômica.

O Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, formado por pesquisadores de universidades amazônicas, estuda o comportamento do eleitorado e observa a existência de novas direitas. 

“Uma das coisas que a gente já identificou é um padrão de conversão do voto na Amazônia Legal. E vamos precisar olhar com mais calma agora, em 2026, porque me parece que até no Pará e no Maranhão, que não mantinham esse padrão, essa conversão se verifica mais à direita. Isso ocorre pelo menos desde 2024, com um ponto alto em 2018, um leve recuo em 2022 e um avanço em 2026”, disse o professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) e vice-coordenador-geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, Ivan Silva. 

O pesquisador explica que as eleições de 2026 mostraram um alinhamento de ideias que resultaram em um “padrão de voto”. “A gente sempre teve no Brasil o cenário de dissociação do padrão de voto. A pessoa votava, por exemplo, para presidente da república num candidato de perfil ideológico, num governador de outro perfil, assim como para a assembleia. Mas as novas direitas criaram um padrão de voto. Ou seja, a pessoa vota para governador em um partido, vota para candidatos para a assembleia ligados a esse partido, replica esse voto para o presidente da República e para o Senado [no mesmo partido]”, disse Ivan Silva.

Padrão ideológico

Cada estado se identifica com os ideais à direta por um motivo diferente, seja pela valorização do agronegócio, seja pela promessa de combate ao crime organizado com armamento ou pela facilitação para exploradores de recursos naturais. Ainda assim, nos últimos anos, o Laboratório de Estudos Geopolíticos identificou que o discurso nacional da direita e as propostas dos candidatos em diferentes regiões brasileiras têm características em comum. 

“Nas eleições municipais, por exemplo, a gente entrevistou candidatos e observou que eles replicavam as mesmas matrizes lógico-discursivas. Se a gente pegasse o discurso do Jair Bolsonaro e os discursos das candidaturas à prefeitura de Macapá, havia um padrão de coesão ideológica muito profunda. Às vezes, a gente percebia até um certo esforço de adequação discursiva para se vincular ao campo”, disse Ivan Silva. 

Como ficam os direitos e as políticas públicas? Analistas avaliam que o predomínio de partidos de centro-direita e direita nas esferas local e nacional pode influenciar a formulação e a execução de políticas públicas na região, inclusive nas áreas de redução das desigualdades sociais e de proteção dos povos da Amazônia.

Segundo essas análises, a composição dos legislativos tende a ampliar o espaço para agendas associadas aos grupos políticos e econômicos representados pelos parlamentares eleitos. Mas no Estado Democrático de Direito, as ações do poder público devem incluir a manutenção de medidas inclusivas para populações desfavorecidas em áreas como educação, saúde, meio ambiente e assistência social, além de iniciativas voltadas a preservação do bem comum, como a fauna e flora, e ao combate às mudanças climáticas.

“É pouca ou nenhuma a preocupação com o tema da distribuição da riqueza e da renda, relativo à questão agrária, às altas taxas de lucratividade, ao baixo custo da força de trabalho, ao volume de investimento nos serviços públicos e a projetos que ultrapassem os mandatos dos eleitos. Ou seja, os eleitos ocupamse do curtíssimo prazo e da manutenção e do aprofundamento de relações de produção e de apropriação econômica altamente concentradoras de riqueza, renda e poder político”, disse o cientista político Marcelo Seráfico. 

“Pautas relativas a conquistas trabalhistas, à proteção do meio ambiente, à definição relativamente autônoma de parte da política econômica, ao combate ao crime organizado, de garantia dos direitos das pessoas LGBTQIA+, ao investimento na educação e na saúde pública, ao aumento do salário mínimo, à proteção dos idosos etc. tendem a experimentar fortíssimo retrocesso e isso levará ao agravamento de problemas que não foram superados pelas políticas governamentais adotadas nos últimos quatro anos”, acrescentou Seráfico. 

Respeito às conquistas sociais 

Independentemente das decisões que serão tomadas em casas legislativas majoritariamente voltadas para um lado ou polarizadas, a prioridade ainda deve ser observar e respeitar as normas sociais vigentes. É o que defende o cientista político Ermício Sena, professor da UFAC (Universidade Federal do Acre). 

“Para mim, o grande desafio é impedir que as maiorias políticas momentâneas queiram tirar direitos sociais, políticas públicas fundamentais, e transformar isso em instrumento de disputas ideológicas. Nós devemos prezar para que seja respeitada a Constituição Federal de 1988”, disse Ermício. 

“Um problema é deixar de reconhecer as diferenças e passar a tratar adversário como inimigo. Temos que, inclusive, distinguir o conservadorismo da radicalização. Aliás, o brasileiro médio se diz conservador, mas, muitas vezes, não sabe o que é conservadorismo. Ser conservador é defender valores e apresentar críticas a determinadas políticas públicas. O problema é quando isso é utilizado para deslegitimar grupos sociais, negar direitos e estimular preconceitos”, completou o professor. 

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Assuntos agronegócio, Amazônia, Assembleia Legislativa, direita, ideologia, manchete, propriedade privada
Cleber Oliveira 18 de outubro de 2026
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