
Por Daniel Rocha, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – A fraqueza do dólar não se limita a um movimento pontual de 2026. Desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a moeda norte-americana vem se depreciando em função da escalada das tensões geopolíticas e do aumento das expectativas de corte nos juros nos EUA. A combinação desses dois fatores tem levado os investidores estrangeiros a diversificar o portfólio, tanto em ativos de proteção quanto em mercados emergentes, como o Brasil.
Dados da Economatica mostram que, em janeiro de 2026, o dólar acumula uma depreciação de 4,78% frente ao real. No acumulado dos últimos 12 meses, a queda chega a 14%. O enfraquecimento da moeda americana também é observado no cenário internacional. Oíndice DXY, que compara o desempenho do dólar contra outras seis divisas fortes, recua 12,76% no mesmo período.
Essa depreciação tem relação direta com as ações do novo governo de Donald Trump. Logo no início do seu mandato, o republicano anunciou um amplo pacote detarifas de importação que atingiu mais de 90 países. A medida elevou a incerteza sobre o comércio global e desencadeou disputas da Casa Branca com diversos parceiros comerciais, como o Brasil.
Agora em 2026, novosriscos geopolíticos entraram no radar do mercado. No último dia 3, tropas americanas bombardearam Caracas, capital do país, e capturaram o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, sob a justificativa de que o líder venezuelano teria conspirado para o narcoterrorismo. A ação desencadeou uma série de dúvidas no mercado quanto aos desdobramentos da ofensiva e seus impactos sobre a oferta global de petróleo.
Na sequência, o republicano voltou a defender publicamente a compra da Groelândia ao classificá-la como prioridade para a segurança nacional dos EUA. O presidente até cogitou o uso da força militar para tomar a região e ameaçou impor tarifas contra os países da União Europeia contrários à proposta.
Ainda em janeiro, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) recebeu uma intimação do Departamento de Justiça (DoJ, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Segundo Jerome Powell, presidente do órgão, a ameaça de acusação criminal diz respeito ao seu testemunho prestado no Senado dos EUA em julho passado, sobre o projeto de renovação do edifício do Fed. No entanto, para ele, a ação faz parte de uma campanha contínua de Trump contra sua gestão, que não tem cedido às pressões por cortes mais intensos de juros.
Nesta quarta (28), o Fed decidiu manter as taxas no intervalo entre 3,5% e 3,75%, após três cortes seguidos e em meio à pressão de Trump por mais reduções.
Gringo derruba dólar e faz bolsa subir
A sucessão desses eventos, aliada à imprevisibilidade dos seus desfechos, desencadeou um movimento de rotação de portfólio, com os investidores reduzindo suas alocações nos Estados Unidos e redirecionando para mercados emergentes, como o Brasil. Até o dia 23 de janeiro, os estrangeiros aportaram R$ 17,728 bilhões na Bolsa brasileira neste ano, segundo dados da B3. Para efeito de comparação, eles haviam ingressado com R$ 25,473 bilhões em 2025.
Na bolsa brasileira, o reflexo desse movimento tem sido imediato. Em 2026, o índice sobe 12,91%, ampliando os ganhos dos últimos 12 meses para 45,70%. Na terça-feira (27), enquanto o dólar fechou no seu menor nível desde maio de 2024, o Ibovespa renovou o seu recorde histórico e fechou acima dos 181 mil pontos pela primeira vez.
