Y, a letra que vive uma ‘crise de identidade’

O Y, o W e o K foram incorporados ao alfabeto português em 1990, pelo Acordo Ortográfico. (Foto:Divulgação)

 

Do Estadão Conteúdo

SÃO PAULO – Vogal ou consoante? O exercício, comum nas lições de casa de antigamente, parece fácil até chegar à 25.ª letra do alfabeto. A classificação do Y, que depende de sua função em cada palavra, desperta a curiosidade de crianças e dúvidas nos pais.

O questionamento surgiu na casa da protética Alessandra Cerqueira, de 37 anos, quando ajudava o filho Matheus, de 6, com a lição de casa. “Ele tinha de circular as vogais nos nomes dos coleguinhas e marcou a letra Y, de Yasmin. Achei que estivesse errado porque aprendi que temos cinco vogais.”

Nem Matheus nem a mãe estão errados. O gramático Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras, explica que o Y, importado do inglês, representa geralmente uma semivogal (como em yoga) ou a vogal I (hobby, spray). E, em casos mais raros, atua como consoante: o J na palavra de origem inglesa yarda (jarda).

“É uma letra que não pertencia ao alfabeto latino, por isso seu comportamento é diferente”, diz Bechara.

O mesmo ocorre com o W, que pode ter som da consoante V (em Wagner) ou da vogal U (Washington).

O Y, o W e o K foram incorporados ao alfabeto português em 1990, pelo Acordo Ortográfico.

Seja pela dificuldade na classificação ou pelo desuso desse tipo de exercício na alfabetização, as escolas não costumam mais ensinar o conceito de vogal e consoante nessa etapa.

“Introduzimos as letras pelos sons que elas têm nas palavras usadas pelas crianças. O Y, por exemplo, aparece em Youtube. Os alunos se apropriam dos sons e os usam como referência para escrever outras palavras”, diz Katia Rascio, coordenadora do Colégio Rio Branco, na região central.

É só ao final do 2.º ano do ensino fundamental que conceitos gramáticos começam a ser ensinados. “É nesse momento que as próprias crianças trazem dúvidas, já que começam a refletir sobre a escrita. Partimos dos questionamentos deles e não da memorização como antes.”

A professora Maria José Nóbrega, do Instituto Vera Cruz, concorda. “O importante é a criança saber que podemos falar de um jeito e escrever de outro. Se os estudiosos não definiram a classificação do Y, não tem sentido a escola querer fazer isso.”

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