Um novo ano velho

Já é de senso comum que o ano 2016 insiste em não terminar. No fundamental, os atores em cena continuam os mesmos em 2017, nos três poderes da República. Qualquer mudança, na área do Legislativo, terá pouca ou nenhuma importância, uma vez que os cordéis continuarão a ser movidos pelas mesmas figuras carimbadas. No Supremo Tribunal Federal, após a decisão esdrúxula no caso Renan Calheiros, que o manteve na presidência do Senado, embora o reconhecesse impedido de permanecer como substituto eventual do presidente da República, tudo é possível.

No Senado, salvo improvável surpresa de última hora, dá-se como certa a eleição do cearense Eunício Oliveira, que vem sendo orquestrada pelo alagoano de Renan Calheiros. É o Brasil profundo. Na Câmara, com alguma margem de segurança, segue-se com Rodrigo Maia, cuja reeleição é questionada e deverá chegar ao Supremo Tribunal Federal. Há a ameaça com candidatos alternativos do Centrão, que não deverá prosperar, com apoio de um conjunto de deputados que obedecia as ordens de Eduardo Cunha, preso em Curitiba.

É o Congresso que temos, paciência, com todos os seus membros ungidos pelo voto do povo brasileiro, exatamente como agora acabam de ser eleitos os prefeitos de 5.570 municípios pelo país afora. Tudo, com milhares e milhares de vereadores, somados à nomeação de milhares e milhares de secretários e um sem número ainda maior de designações para cargos comissionados, todos regiamente pagos pelos cofres vazios da crise.

Como se não bastasse, um retrato expressivo da agonia da representação política, com a posse de alguns prefeitos saídos diretamente da prisão, enquanto outros têm questionados os mandatos sob suspeita de fraudes eleitorais. É a democracia brasileira que claudica, arrastada pelo peso da corrupção endêmica, como muito bem haverá de revelar a delação do fim do mundo da Odebrecht, projetada para ser conhecida em detalhes ainda neste primeiro semestre de 2017.

Neste ponto, também somos campeões, campeões em tudo. Temos a maior “máquina de propina e suborno” do mundo, na maior empreiteira da América Latina, segundo reportagem do jornal britânico Financial Times. Há mais de 200 políticos envolvidos até o pescoço no balcão da empresa líder da corrupção no planeta, com nomes dos mais expressivos aos mais insignificantes, no Congresso e fora dele.

No Executivo, o comportamento vacilante do presidente Temer, que avança e recua, prisioneiro do fisiologismo visceral de sua base na Câmara e no Senado. Suas decisões são sempre recebidas como provisórias. Geram insegurança permanente no mercado e inibem o investimento produtivo, único capaz de fazer com que o país reencontre-se com o desenvolvimento econômico. Até hoje não entendeu ou faz questão de ignorar as circunstâncias que o conduziram à Presidência da República, com ações que o distanciam no dia a dia ainda mais da sociedade brasileira, que o vê com desâ nimo e desesperança, como revelam os mais recentes índices de avaliação de seu governo.

As incertezas e desequilíbrios macroeconômicos projetam-se sobre o novo ano, tornando-o desde logo bem mais velho, incapaz de renovar-se efetivamente, com remédios que não debelam as enfermidades crônicas que assaltam a Nação, a mercantilização da política, fundada no toma lá dá cá e na irresponsabilidade fiscal. Ao presidente Temer, refém desse quadro de insensatez histórica, falta pulso e visão de estadista, que muito bem poderia estruturar-se num grande pacto a ser celebrado com a população, que já disse o que quer e exige nas grandes e recentes manifesta&ccedil ;ões populares.

paulofigueiredo@uol.com.br

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