Tribo dos assobiadores felizes

Ao contrário do que sugerem os resultados de eleições, o povo mais feliz do mundo mora no Amazonas, lá no município de Humaitá, às margens do Rio Maici. Esse título do troféu da felicidade foi dado ao povo indígena Pirahã por cientistas que os estudaram e conviveram com eles.

Há mais de 300 anos, os pirahãs mantiveram contato com os brancos. No entanto, jamais aderiram aos costumes, hábitos, crenças ou linguagem dos colonizadores. A tribo resistiu também a várias tentativas de catequização. Numa das mais ambiciosas delas, idealizada pelo Instituto de Linguística Summer (SIL), os pirahãs conseguiram ‘desconverter’ um fervoroso missionário cristão.

Em 1977, o linguista e missionário Daniel Everett saiu dos EUA com sua família com a missão de evangelizar a tribo amazônica e traduzir a Bíblia para a língua Pirahã. A primeira estratégia dele foi utilizar o Evangelho de Lucas. A tribo se assustou com a história da decapitação de João Batista. Depois, os indígenas perderam completamente o interesse em Jesus e nos milagres relatados quando Everett admitiu que nunca os viu de fato.

Uma das principais características dos pirahãs é justamente não acreditarem em nada que eles não possam ver, sentir ou que não possa ser provado ou presenciado. Por esse motivo, a tribo não acredita em espírito supremo ou divindade criadora. Para eles, a terra e o céu sempre existiram, ninguém os criou. O mundo é como sempre foi.  Além disso, não existem quaisquer mitos da criação, ou súplicas em sua cultura. Eles não demonstraram qualquer necessidade de religião ou autoridade política ou religiosa para viverem suas vidas. O constante contato com este tipo de pensamento acabou transformando o missionário cristão em ateu.

Apaitsiiso (‘aquilo que sai da cabeça’) é como os pirahãs se referem à sua língua, a última pertencente à família Mura. O pirarrã foi considerado a língua mais difícil do mundo pelo professor de linguística da Universidade de Oslo (Rolf Theil).  Os especialistas calculam que uma pessoa com memória média levaria dez anos para aprendê-la.

Trata-se de uma língua tonal. Sua entonação é crucial para o entendimento e a comunicação. Por exemplo, as palavras ‘amigo’ e ‘inimigo’ são as mesmas, diferindo apenas na entonação. Por essa razão, a comunicação pode ser falada, cantada e também assobiada. Os assobios, por exemplo, são bastante usados nas atividades de caça.

O fato mais polêmico envolvendo a linguagem pirahã é que ela contraria os preceitos da gramática universal, de que as estruturas básicas da linguagem nascem com o ser humano, sem ser aprendidas. Conforme Everett, hoje reitor do Centro de Artes e Ciências da Universidade de Bentley, em Massachusetts (EUA), a gramática pirahã não contém um conceito básico da gramática universal: a possibilidade de recursividade, que consiste em colocar uma frase dentro da outra indefinidamente, combinando pensamentos distintos.  Exemplo: “Marquezine disse que Neymar disse que Messi disse que Cristiano Ronaldo é feio”.

Com apenas três vogais e oito consoantes, o idioma não possui substantivos no singular ou plural. Os verbos podem ser conjugados de 65 mil maneiras diferentes, mas todas no tempo presente. Não há verbos nos tempos do passado e do futuro.

Outra singularidade da língua é a ausência de palavras para designar cálculos. Até há alguns anos, acreditava-se que eles só tinham denominação numérica de um até o número três. Alguns experimentos mais sistemáticos, entretanto, revelaram que não há palavras específicas para nenhum algarismo. Apenas termos genéricos como ‘poucos’ e ‘muitos’ para quantificar as coisas. Além dos números, eles também não têm palavras para discriminar cores.

Sem noção de números também ficou muita gente com a transferência de Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain (PSG). O valor recorde de 222 milhões de euros é tão abstrato que as mentes de nós mortais comuns só conseguem dizer que é ‘muito’. O montante foi estipulado para ser impagável, mas quando os donos do PSG o bancaram sem esforço, diretores do clube espanhol acabaram achando que a cifra era até ‘pouca’.

A decisão do brasileiro foi criticada por torcedores catalães, que recriminaram o jogador afirmando que ele não sabia diferenciar as cores azul e vermelho de um time tradicional do vermelho e azul do clube de ‘novos ricos’.

A justificativa de Neymar para a mudança foi a sua pessoal busca da felicidade. Se a mentalidade da tribo mais feliz de todas for seguida, ninguém precisa de medidas drásticas para alcançar os mais altos níveis de contentamento e satisfação.

Bastaria apenas adotar algumas atitudes como: não se preocupar tanto com números, saber diferenciar amigos de inimigos, ocupar-se totalmente com o tempo presente e, de vez em quando, assoviar sossegado.

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