Superar os velhos modelos

Apesar do desgaste no curso do tempo, especialmente por conta das violentas experiências que protagonizaram em diferentes momentos, capitalismo e socialismo ainda persistem como os principais modelos de sistema de organização socioeconômica.

Nos dias atuais, não é difícil chegarmos ao diagnóstico de que o capitalismo é um modelo injusto e predatório. Ele pode explorar e destruir o planeta enquanto barbariza a humanidade rapidamente. Não só por conta das contradições sistêmicas, da avidez pelo consumismo e pela irracional acumulação financeira por parte de tão poucos, mas também por conta da produção em massa de indivíduos desajustados, sobretudo quando vicia as subjetividades e entorpece o entendimento humano. Nesse último aspecto, ao lado do fundamentalismo de mercado, não faltam certas substâncias químicas que debilitam e tornam os indivíduos cada vez mais manietáveis e descartáveis.

Esse entorpecimento geral resulta na perda da qualidade cognitiva e dificulta o desenvolvimento pleno da cidadania, convertendo em coisa ‘natural’ abusivas explorações que podem comprometer o ambiente planetário e justificar a dominação política opressiva. Não há cenário promissor para a democracia nem para o meio ambiente com os ‘tons’ atuais de capitalismo em curso, protagonizados por Trump, Putin, Xi Jinping e outros tiranos que tentam fazer o mundo retroceder aos tempos da última guerra fria.

Por outro lado, não se pode em sã consciência justificar muito menos ter alguma esperança num modelo que concentra a política e a economia nas mãos do Estado, como o faz o socialismo. O modelo socialista gera outras formas de dominação e de injustiças até mais venais que no capitalismo, destruindo a liberdade e o senso crítico enquanto promete o ‘melhor dos mundos’. Tal como outros velhos modelos, o socialismo histórico ainda vê com auspiciosa expectativa o recurso à luta armada e a aniquilação dos adversários. 

O dogmatismo ideológico, propagandeado como “a vigilante busca da igualdade ou da justiça social” chega ao ponto de justificar ditaduras, regimes tirânicos e toda espécie de abuso político às liberdades individuais, tudo supostamente para atender o interesse do proletariado. A manipulação extremamente pragmática dessa receita ideológica de organização econômica e política tem produzido consequências aterradoras desde o século passado.

Ainda neste início de século XXI, aonde quer que persista e tenha alcançado o comando estatal, o socialismo converteu-se num sistema de radical ‘vale tudo’ em nome da ‘classe trabalhadora’, do proletariado ou da maioria.

Não se podem aceitar as justificativas pelas atrocidades que foram e ainda são cometidas pelos desastrosos modelos decorrentes da experiência socialista tanto quanto não se podem desculpar as aberrações praticadas pelas diversas versões de capitalismo, muito embora ambos os sistemas socioeconômicos se esforcem em apresentar a mais perfeita propaganda de seus ideários, ações e resultados sem importar com a deformação da própria verdade histórica. 

Por divergir da tirania do capital e do pensamento único, com maior razão é preciso contrapor-se à ditadura do proletariado, ao concentracionismo da economia estatizadora e ao dogmatismo ideológico socialista. Ambos, capitalismo e socialismo, constituíram-se em versões modernas do perverso obscurantismo socioeconômico e político. Sobretudo as ditas classes revolucionárias, em distintos momentos, fossem as burguesas fossem as proletárias, cujo papel de agente histórico deveria ser libertário e lúcido. Ambas necessitam passar do discurso para a prática de respeito à cidadania e da busca de promover a dignidade humana, o que é fundamental aos direitos humanos, aos direitos sociais, ao ideal de sociedades livres, justas e solidárias. 

Não é possível vislumbrar nos modelos de capitalismo vigentes nem nas distintas versões experimentadas de socialismo vias de solução para a condição social, econômica e política da humanidade, mas apenas compreendê-los como experiências históricas que temos de superar.

É necessário, lícito e urgente buscar novos modelos, destituídos das violências, delinquências e corrupções estruturais que caracterizaram tanto o capitalismo quanto o socialismo, com vistas a proteger o planeta e desenvolver as diferentes humanidades que a terra comporta. E umas das condições para que a terra sirva a todos é libertar-se de inúmeras vicissitudes sociais e de limitações cognitivas, comumente instrumentalizadas em favor dos modelos socioeconômicos e políticos vigentes, que operam em direção contrária à efetiva promoção da dignidade humana. 

Nesse sentido, é essencial persistir na busca de perspectivas mais dignas à humanidade. Não é simples nem fácil, mas é fundamental superar os velhos modelos de liberdade e de justiça dos sistemas econômicos e políticos experimentados até aqui, como o capitalismo e o socialismo. Se as gerações recentes e atuais não alcançaram melhor resultado, é crucial ao menos não dificultar ainda mais o caminho das próximas gerações. 

As universidades e centros de formação e pesquisa, desde que superem o apego à velha lógica da intriga e da conspiração entre partidários desses modelos obscurantistas, poderão superar a “sensação de impotência e a ressaca ideológica”, para voltar a contribuir com perspectivas mais condizentes com a dignidade humana.

Enfim, as novas gerações herdarão o planeta e o que nele edificarmos em termos de liberdade e de justiça nas diferentes sociedades humanas. É preciso que se desenvolva um pacto geracional, desde logo, comprometido em legar perspectivas mais dignas à humanidade, sendo imprescindível aprender e superar velhas fórmulas e modelos, como as versões históricas de capitalismo e de socialismo, contumazes na produção de injustiças, da violência e da corrupção sistêmica. Essa é a irrenunciável missão nesse multifacetário tempo contemporâneo: promover a vida digna – a liberdade e a justiça encarnadas na história humana comum no planeta.


Pontes Filho - Doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia. Mestre em Direito Ambiental. Graduado em Ciências Sociais e em Direito. Servidor público estadual. Docente da UFAM.

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