Rejeição dos corruptos no Amazonas depende da percepção dos danos públicos pelo eleitor, afirmam analistas

Impacto eleitoral da corrupção depende da percepção do eleitor entre a política e serviços públicos (Foto: Divulgação)

Impacto eleitoral da corrupção depende da percepção do eleitor entre a política e serviços públicos (Foto: Divulgação)

Por Henderson Martins, da Redação

MANAUS – Casos de corrupção envolvendo políticos do alto escalão no Amazonas geram divergências entre analistas sobre o impacto eleitoral. Os escândalos podem resultar em rejeição de candidatos nas urnas, mas, também, podem não causar impactos entre o eleitorado.

Para o ex-coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e atual presidente da Conamp (Confederação Nacional dos Membros do Ministério Público) na Região Norte, o procurador de Justiça Lauro Tavares, existe a possibilidade de uma grande renovação na política nas eleições deste ano.

“A sociedade está enfadada com tanto desvio de conduta e corrupção. O povo começa a perceber que há uma relação direta entre os péssimos serviços públicos existentes e os políticos que ele elege. O eleitor começa a entender que se não há médicos nos hospitais, vagas nas escolas e emprego para ele sustentar sua família, isto tem relação com o mau político que ele votou. E este político, após chegar ao poder, virou as costas para ele e passou a olhar apenas para aumentar seu próprio patrimônio, o de sua família e amigos”, analisou.

Conforme Lauro Tavares, o eleitor sabe que se continuar votando nessas pessoas continuará sem trabalho, sem saúde pública e sem escola para seus filhos. Por isso, o promotor de justiça acredita em uma forte renovação política no País na eleição deste ano.

Para o professor do Programa do Pós-graduação de Sociologia da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Marcelo Seráfico, é difícil afirmar que os escândalos políticos no Amazonas podem influenciar no processo eleitoral. Segundo o pesquisador, nas sucessivas eleições, o número de renovação do parlamento não é expressivo.

“Digo que não é expressivo no seguinte sentindo: é até possível que novos candidatos sejam eleitos, nomes novos, ainda que não seja o comum. Não obstante, eles ingressam no jogo da política participando do mesmo sistema daqueles que saíram. O que significa dizer, é que o problema não está exatamente nas pessoas que concorrem, mas sim na engrenagem que articula os partidos e todo o processo de representação”, afirmou o pesquisador.

Marcelo Seráfico disse que é muito improvável que a prisão do ex-governador José Melo (Pros) possa influenciar no processo eleitoral deste ano. O sociólogo disse que José Melo era uma outra figura quando participante do jogo político, dos bastidores.

“Quando José Melo vem para a disputar a vaga no governo do Estado, ele vem com o apoio de parte das lideranças que permanecem no jogo político. José Melo não é estranho ao Amazonino, ao Eduardo Braga (MDB) ou a Omar Aziz (PSD), na verdade, ele sempre esteve próximo deles, numa posição secundária. Então, o peso político dele, ainda mais preso, é muito pequena”, avaliou Seráfico.

José Melo foi preso na Operação Estado de Emergência, desdobramento da Maus Caminhos, em dezembro do ano passado. Anteriormente, cinco ex-secretários de seu governo também foram presos na Operação Custo Político: Evandro Melo (Administração), Raul Zaidan (Casa Civil), Afonso Lobo (Sefaz), Pedro Elias e Wilson Alecrim (Saúde). Todos por envolvimento em esquema de fraudes e propinas na saúde pública que desviou R$ 150 milhões. O esquema envolvia contratos para serviços de saúde com empresas como Total Saúde, Simea, Salvare e INC (Instituto Novos Caminhos), comandas pelo médico Mouhamad Moustafa.

Combate

De acordo com o procurador-chefe do MPF (Ministério Público Federal), Edmilson Barreiros, a corrupção é um crime de difícil apuração e de difícil prova. No Brasil, apenas de alguns anos para cá passou a ocorrer a prisão efetiva de responsáveis por atos de corrupção e consequente aumento do volume de dinheiro público recuperado. Até então, era um crime que compensava.

Barreiros diz que, hoje, com a diminuição da impunidade, existe um risco maior para todo aquele que envereda por esse caminho. “O aumento das prisões e da efetividade na recuperação de recursos desviados revela avanços no entrosamento dos órgãos de controle, aprimoramento da cooperação jurídica internacional e incremento das técnicas especiais de investigação, notadamente da colaboração premiada”, disse. “A vigilância e a fiscalização deve ser constante, principalmente da população”, completou.

Esquemas

O caso na saúde pública é um dos escândalos de corrupção na política do Amazonas que expuseram a falta de compromisso público e a pilhagem do Estado em esquemas de corrupção. O MP-AM (Ministério Público do Estado do Amazonas) e o MPF (Ministério Público Federal) investigam o pagamento de R$ 4,5 milhões ao Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, pela Susam (Secretaria de Estado da Saúde) por tratamentos de desembargadores, políticos e seus parentes. A denúncia feita pelo ATUAL em 2016 e a investigação só prosseguiu após divulgado do caso pelo programa Fantástico, da Rede Globo.

Os pacientes ‘seletos’ recebiam tratamento no hospital particular na época dos ex-secretários da Susam Pedro Elias, Wilson Alecrim e José Duarte Filho.

Farra no interior

No interior do Estado o cenário de corrupção não é tão diferente. Ao menos 29 prefeitos foram investigados em 2017 suspeitos de cometerem alguma irregularidade. Um dos casos de maior repercussão foi do ex-prefeito de Iranduba, Xinak Medeiros, preso pela Polícia Civil em 2015 por suspeita de integrar um esquema de desvio de dinheiro em valores superiores à R$ 56 milhões e fraudes em licitações na prefeitura do município.

Em 2016, o prefeito de Santa Isabel do Rio Negro, Mariolino Siqueira de Oliveira, foi preso suspeito de liderar uma organização criminosa que atuava na prefeitura da cidade (a 630 km de Manaus). Além dele, outras sete pessoas, entre familiares e secretários do município, também foram presas. As investigações do MP-AM identificaram desvios de R$ 10 milhões.

Ainda em 2016, a prefeita de Pauini, Maria Barroso, foi presa suspeita de desvio de mais de R$ 15 milhões da saúde e educação. As investigações da PF e CGU (Controladoria Geral da União) apontam que a prefeita comprou mais de 500 bolas para uso de apenas uma quadra esportiva e autorizou o pagamento de R$ 1.870,00 para lavagem de um único micro-ônibus.

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