Reflexões sobre as eleições

Na aldeia de Herbert McLuhan, o desencanto com a política é global, fato que levou à eleição de ‘outsiders’, tendo com exemplo maior a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. Com êxito inimaginável, o milionário chega à Casa Branca debaixo de expectativas negativas de boa parte da população estadunidense e da comunidade internacional. Não poderia ser diferente, diante dos disparates e das promessas esdrúxulas e irrealizáveis do candidato em campanha, antigo apresentador de ‘reality show’, ex-dono de cassino e grande investidor do mercado imobiliário. Antes de dar inteira razão às palavras de Pio XII, para quem o mundo era governado por medíocres, o mínimo que se espera é que esse ‘cowboy-playboy’ urbano entre nos eixos, reveja seus propósitos ensandecidos e se reencontre com o espírito da América do Norte e de seus pais fundadores.

No Brasil, também tivemos os nossos ‘estranhos no ninho’, com a eleição de João Dória, em São Paulo, e Alexandre Kalil, em Belo Horizonte, em duas das maiores capitais do país. O êxito de Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, apesar de premiar um nome do meio, não deixa de revelar certa distância do universo da política tradicional, considerando-se as condições pessoais e religiosas do eleito no segundo maior colégio eleitoral do Brasil. A propósito, em pronunciamento recente, o pastor licenciado da Universal, onde pontifica seu tio Edir Macedo, já fez a defesa de pol&iacute ;ticas públicas a serem implementadas em harmonia com preceitos de sua profissão de fé evangélica e neopentecostal.

Mas a desilusão não se manifestou apenas na eleição de nomes de fora do contexto eleitoral regular, mesmo porque foram poucos os postulantes que se apresentaram com tal característica. Talvez o tempo tenha sido curto ou o desinteresse mais profundo tenha levado à omissão. Quem sabe se em 2018 um outro número de candidatos não se disponha a enfrentar as urnas,  talvez motivados pelas conquistas atuais e surpreendentes dos candidatos não políticos. Os números de eleitores que deixaram de votar, votaram em branco ou anularam o voto, nos principais centros urbanos, dão a medida da decepção dos brasileiros com a política que se pratica no país e sua classe política.

Os resultados apurados e expressos nas páginas do Tribunal Superior Eleitoral não deixam a menor dúvida e significam muito mais do que um sinal de alerta. Eleitores que se abstiveram ou não votaram em nenhum candidato, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, somaram em média mais de 40% e exibem o claro e fundo descompasso entre representantes e representados no processo eleitoral. De mais a mais, como o voto é obrigatório, o eleitor não tem como escapar, imaginando-se o que ocorreria na hipótese do sufrágio facultativo. O certo é que ou o Brasil muda, com a urgência das urgênci as, ou as consequências podem ser imprevisíveis, sem contar com a varredura que a Lava-Jato ainda promoverá no ambiente. Estima-se que cerca de 50% dos políticos terão a cabeça no cutelo, com a delação dos executivos da Odebrecht e do presidente da empresa.

Ainda assim, a turma não toma jeito. Sem o menor pudor, Renan Calheiros insiste em aprovar projeto de sua autoria contra abuso de autoridade, com objetivos evidentes de por um freio nas investigações contra o mar de corrupção que toma conta da Nação. Quem não lembra da manobra orquestrada pelo alagoano com Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo, a fim de manter os direitos políticos de Dilma Rousseff, após a decretação do impeachment da presidente. Agora mesmo, em crise recessiva brutal da economia, o Senado compra 220 TVs de plasma, câmaras de monitoramento e fechaduras biométricas para a resi dência do presidente da Casa e apartamentos dos senadores, pela bagatela de R$ 26 milhões. Na Câmara Federal, tenta-se anistiar a prática do crime de caixa 2, no bojo da iniciativa proposta pelo Ministério Público pela adoção das 10 medidas de combate à corrupção, com apoio em milhões de assinaturas da população.

Como se não bastasse, ensaiam um arremedo de reforma política, com a proibição de coligações proporcionais e percentuais ridículos para a chamada cláusula de barreira. Ainda assim, com aplicação de prazo bastante dilatado, 2022, 2026 e sei lá. Tudo para inglês ver, porquanto as regras deveriam ser bem mais rígidas e de adoção imediata, a partir do pleito de 2018, única forma de castrar essa orgia de legendas de aluguel e de partidos sem voto.

Engraçado é que os comunistas do PCdoB e assemelhados, de igual ou sem nenhuma importância, reclamam que seriam excluídos da representação política. Esquecem que recentemente vociferavam contra o impeachment de Dilma, sustentando que na democracia fundamental é o voto popular. Pois bem, nada opor, mesmo porque em causa situações distintas. Agora, com a maior cara de pau, fogem do voto como o diabo da cruz, cientes de que não conseguirão o mínimo para ter existência real.

paulofigueiredo@uol.com.br

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