Recessão: as sequelas do empobrecimento

Em artigo a ser publicado neste sábado, dia 12, no jornal ‘O Tempo’, de Belo Horizonte, o economista Paulo Roberto Haddad, autoridade internacional em desenvolvimento regional, “Trajetórias de empobrecimento no ciclo da recessão econômica”, alerta para os riscos de empobrecimento econômico, depressão moral e desequilíbrio social. Para ele, “Uma das principais mazelas da atual política econômica tem sido o empobrecimento de diversos segmentos sociais da população brasileira à medida que avança a recessão, nos últimos três anos”.

Nesse período, os dados do IBGE confirmam que a renda per capita da sociedade, em seu conjunto, diminuiu em mais de dez por cento. “Simultaneamente, alguns grupos sociais e muitas famílias vivenciaram um rápido processo de empobrecimento, com diferentes trajetórias”. Para o especialista, há um conjunto de sequelas que desembarcam na desestruturação do tecido social, ou seja, na miserabilização de parcelas expressivas da sociedade.

Vulnerabilidade

A paisagem socioeconômica do Amazonas foi escurecendo em termos de desenvolvimento humano desde antes de 2014. Os indicadores industriais do CIEAM, http://cieam.com.br/?u=indicadores-industriais disponíveis no portal da entidade, mostra que a desindustrialização já vem atingindo alguns setores, acompanhada do esvaziamento da Suframa. Desde 2013, quando passamos a destacar a comparação entre o desempenho em reais e em dólar foi ficando clara a desmontagem da estrutura industrial.

A buraqueira das ruas escondia o buraco do descaso federal e do conflito dos grupos políticos em colisão paroquial. O confronto esteve sempre marcado pela atitude de quem fica de costas para os destinos do Amazonas. Era inevitável que essa recessão desembarcasse na “…metamorfose do empobrecimento, conforme as perdas e danos das famílias e dos grupos sociais que começaram a ocorrer em termos de capital financeiro (poupança, aplicações financeiras, ações, etc.) e não financeiro (casa própria, terra, etc.) ou em termos de nível de renda real (salários, juros, lucros, aluguéis).

Algumas das trajetórias dessa metamorfose podem ser observadas com frequência maior nesses anos de recessão econômica”, destaca Paulo Haddad, referindo-se ao Brasil mas emprestando as imagens sombrias para descrição de nosso cotidiano.

Impactos no cotidiano

E os estragos já se fizeram sentir em todas as direções. No ensaio sobre a recessão, Haddad descreve a trajetória de empobrecimento de famílias e grupos sociais da classe média (funcionários públicos, profissionais liberais, microempresários, etc.), cuja perda inicial pode se dar pelo desemprego, pelo apelo ao subemprego, pela fragilidade financeira ou pela perda de poder aquisitivo.

“A trajetória, nesse caso, tem observado, frequentemente, o seguinte passo a passo: após a primeira queda de renda real, busca-se recompor o padrão de vida através da monetização dos ativos financeiros e não financeiros. Esgotada essa alternativa ao longo dos meses, o efeito cremalheira ou a resiliência do padrão de consumo já conquistado induz a diferentes formas de endividamento (cartão de crédito, prestações), que pode ser fatal no momento seguinte. Um novo passo ocorre quando se abre mão do padrão de consumo, migrando do plano de saúde particular para o sistema público de atendimento à saúde, do aluguel em residências localizadas em bairros de classe média para moradias em áreas periféricas, etc”.

E o que se consolida nessa movimentação sombria de uma economia improvisada?  “Acumula-se o desalento, perde-se a autoestima, aumentam o estresse e a tensão emocional”. O outro patamar, lembra Paulo Haddad, que atinge as classes D e E. “Quanto mais a recessão se aprofunda, com risco de se tornar uma depressão econômica, mais se podem observar casos dessa pobreza andarilha e sem-teto a mendigar nos grandes centros urbanos das áreas economicamente empobrecidas do País”. Quais as implicações imediatas no âmbito do setor produtivo? A insegurança jurídica, um salve-se quem puder e a necessidade de que sejam criadas medidas de superação imediata.

Mobilização

Com a desarticulação entre as entidades e o descompromisso da classe política, o Amazonas vê a recessão atingir a sociedade com golpes de perversidade. “O presidente da República toma seguidas medidas prejudiciais à ZFM e ao Amazonas e ninguém reage”, disse o presidente Wilson Périco, na ‘celebração’ dos 38 anos do Cieam. Ele lembrou que a   Lei Completar 160/2017, no caso do Amazonas, traz muitos prejuízos e o maior deles é para os empregos porque essas pessoas que estão empregadas ainda têm algum benefício, plano de saúde, transporte, auxilio educação.

Quando perder o emprego, vão buscar serviço público que já é de péssima qualidade e com o aumento da demanda tende a ficar pior. E ninguém se revolta. “O que já estava ruim – não falo de riscos aos investimentos, mas aos empregos – vai ficar pior e não houve uma manifestação, uma busca de uma solução política que resguardasse o direito da nossa região. Hoje, os interesses e as preocupações pessoais e político-partidárias estão acima dos interesses regionais e da sociedade e é isso que nós temos que mudar”.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br

1 Comentário on "Recessão: as sequelas do empobrecimento"

  1. O Amazonas teve 50 anos para se desenvolver e explorar seus recursos humanos e materiais, em 2014 foi aprovado uma PEC que aumentava pó mais 50 anos a ZFM totalizando 100 anos de incentivo fiscal, mas que na prática não significa nada debetendo da situação do Brasil já que com a mesma mão que tá a outra dirá!

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