Quem planeja não fiscaliza

Para auferir densos resultados na administração, seja pública ou privada, quando se refere ao papel do Planejamento Estratégico a regra de ouro é: quem planeja não é quem executa, muito menos quem fiscaliza. Isso não contradiz uma regra sagrada, aquela que determina o envolvimento estratégico e circunstancial de todos os integrantes da organização, cada um a seu tempo, posto que todos devem palpitar no desafio de pensar o futuro. E por que quem planeja não executa, nem deve fiscalizar? A razão é simples e óbvia: os talentos e habilidades são distintas, embora interligadas e interdependentes.

Basta imaginar um estrategista de botas e avental para executar uma obra ou fiscalizar o material em uso. O papel dos planejadores em qualquer instituição ou empresa e da equipe envolvida é estimular a relevância e a coerência de cada etapa ou o cronograma de execução e a composição da planilha de custos. Cada símio em seu galho, mas eles se articulam necessariamente na mesma árvore. E o planejamento estratégico para alcançar seus propósitos de mudança entre o que somos e o que queremos ser supõe alguns ingredientes. Méritos de cada um e de equipe, líderes e liderados, pois o mérito traduz o empenho no cumprimento das tarefas planejadas. Por isso, os incentivos funcionam. Nessa dinâmica – e com uma comunicação inteligente e alinhada em critérios e destinos comuns – emerge as qualidades e detectam-se as fragilidades e deficiências crônicas ou eventuais do que foi planejado.

Recentemente, no Amazonas, tivemos a experiência de um tributarista, um dos melhores do País, no papel de planejador de um conjunto de propostas, oriundas de diversas procedências para criar nova modelagem de matrizes para criar saídas alternativas ou complementares à a economia do Polo Industrial de Manaus. Nada aconteceu. Sequer a publicação de um documento ou o impulso de um investimento com os recursos de fomento pagos pela indústria instalada.

Ora, essa indústria instalada, que engrena quase 90% da atividade econômica do Amazonas, depende dos incentivos que usufrui e que devolve como contrapartida a movimentação de um processo de desenvolvimento, que é o mais acertado no quesito geração de emprego e proteção socioambiental deste Estado. O olhar do tributarista não consegue nem deve ser estimulado por esses acertos virtuosos. A ele importa arrecadar. E depois que arrecadar avaliar onde e como pode arrecadar mais. E é importante na ótica do poder público que seja assim. Por isso existe o planejador.

E o que se espera de um planejamento competente senão a formulação precisa de indicadores do desempenho organizacional como ponto de partida da qualificação e quantificação de recursos humanos para alcançar resultados desejados. Planejar é colocar ordem no caos da improvisação, olhando potencialidades e fragilidades da ação de um determinado contexto e suas interações permanentes. Só o planejamento pode dizer ao gestor comum que sem uma estratégia gerencial competente a arrecadação é claudicante e o poder público ineficiente. Assim tem sido e assim será sempre e quando as decisões forem imediatistas, superficiais e negligentes como temos constatado na gestão da coisa pública.

O Amazonas já contribuiu de forma consistente com o PIB do país no Ciclo da Borracha e hoje – na contrapartida de seus incentivos fiscais – recolhe 3,5 vezes mais do que recebe da União Federal. Isso, porém, não importa à gestão improvisada. Há uma abundância crônica e perversa com uma gestão historicamente amadora. Num pacto de não cobrança de responsabilidades, com uma classe política idêntica ao amadorismo crônico que se sucedem na gestão local e nacional, ou fazemos um omelete ou recriamos a mesmice estéril e retrógrada que nos tem traduzido. Até quando?

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