A queda das ilusões e o dizer dos sintomas

Dado todo o cenário trágico brasileiro e global, não haverá saída se não for exaustivamente reforçado e insistido a necessidade tremenda de se debater e conscientizar a respeito das grandes questões que determinam o futuro e o presente do povo brasileiro. O real não é visível, mas é implacável. E somente nossa capacidade de compreendê-lo nos emancipará.

Faz parte dum conjunto de unanimidades burras a necessidade de mudança estrutural, reforma política, fim da corrupção, etc. Porém, é de se espantar a persistência de pensadores sérios, que se assumem como críticos, na legitimidade do Congresso de aprovar qualquer coisa. De lá não sai mais nada.

Correta é a afirmativa que diz ser muito difícil ser eleito Congresso pior que este. Porém, correta é também a desconfiança de tentar melhorar. No povo costuma residir algumas verdades formidáveis – não enquanto consciência, como sintoma. O fenômeno espetacularizado da corrupção sistemática criou uma contradição interessante.

O povo não acredita mais nesse sistema. A começar por um bom exemplo da última eleição presidencial: é válido dizer que boa parte dos eleitores de Dilma não a queria mais, porém assim votaram por achar pior ainda os concorrentes. Mais verdadeiro é ainda no outro lado, a ascensão de Aécio só ocorreu pela crescente desaprovação do PT. A se somar ao sintoma, um número recorde de abstenção. Isto é, nenhum dos candidatos cativaram o eleitorado em sua positividade, mas em sua suposta negatividade.

O congresso, com menor importância dada nas urnas, mas com poder o bastante para derrubar ou perpetuar qualquer projeto, nunca se fez enquanto casa do povo. O congresso é mais do que tudo a casa do empresariado de mãos sujas. E não é nenhum acréscimo de consciência política das massas, seguida dum “melhor voto” que irá mudar substancialmente esse caráter espúrio.

Com isso é preciso dizer, não é mais possível insistir nesse idealismo bocó baseado em puritanismo e bom mocismo. Apostar na sobrevida desse sistema é legitimar e perpetuar a sujeição dos de baixo pelos de cima. Lançar um projeto de reforma política sob esse senado é contrariar os conhecimentos mais elementares de política: é esperar que aquele que tenha o poder “centralizado”, feliz e livremente o compartilhe.

E daí que se faz interessante a contradição formada. A desilusão do povo com a política que ai está se assemelha com desilusão amorosa. É preciso destruir a imagem idealizada, e portanto irreal do sistema político para que assim possa-se apropriar do que de fato existe, em suas contradições e defeitos, mas também em suas reais possibilidades de transformação e emancipação popular. Isto é, o primeiro passo para transformações profundas foi dado.

O passos seguintes será se farão enquanto deveres de casa da esquerda. Agora que somos, todos, oposição, nosso dever maior é batalhar pela ascensão de consciência popular – não há outro caminho. A começar pela denominação do que está em jogo: na última semana a votação que livrou Temer representa muito mais do que diz representar. Pouco importa se esse velho vampiro irá para prisão. O que importa é dizer que a vitória maior não foi dele.

Quem mais ganhou foi aquele fatia do capital mais parasitária, e que melhor se apropria dos recursos dos países dependentes: o mercado financeiro internacional. Não há maiores vencedores do que essas poucas e abastadas famílias que lucram sem ao menos serem produtivas. A prova maior disso é que logo após o encerramento da votação todos os índices financeiros tiveram altas. Michel Temer é celebrado pelos rentistas.

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